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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O mito do sexo pós-briga: nem sempre é reconciliação, pode ser abuso

Sexo não deve ser moeda de troca para a sua relação. - fizkes/Getty Images/iStockphoto
Sexo não deve ser moeda de troca para a sua relação. Imagem: fizkes/Getty Images/iStockphoto
Mariana Almeida

Mariana Almeida

Geógrafa e pesquisadora sobre os Estudos sobre a Mulher, Gênero, Sexualidade e Relações Raciais. Criadora de Conteúdo através do perfil @falacomamari no Instagram. Estuda e trabalha há 8 anos com temáticas acerca das relações de poder que envolvem as questões de gênero, sexualidade e relações raciais - através de palestras, mesas, oficinas e grupos de estudos.

Colaboração para Universa

23/04/2021 04h00

Eu vivi relações muito abusivas e tem situações que só hoje, após me libertar, eu consigo reconhecer como violentas. O sexo é uma delas. Pra quem está de fora pode ser algo "simples" perceber quando alguém está vivendo um relacionamento abusivo. Mas quando estamos dentro, dormindo ao lado do agressor, indo para a cama com ele, dividindo nossa rotina, nossos planos e nossos sonhos, pode ser mais difícil de reconhecer.

Se você der um "Google" rápido vai achar milhares de artigos em revistas listando as mais diversas vantagens de se transar com o seu parceiro após uma briga.

Algumas delas são:

- A ligação entre o casal que supostamente aumenta, eles dizem que o sexo após uma briga traz a sensação de ter vencido o obstáculo, resolvido um problema. Não com diálogo, claro. Mas com sexo!

- A energia acumulada, segundo eles toda a raiva, mágoa e tristeza que foi acumulada durante a briga vai ser transformada em combustível para a relação sexual. É uma forma de digerir e descontar esses sentimentos em algum lugar, ou seja, na cama.

- O ponto final. Afinal, não há melhor maneira de encerrar uma briga do que com sexo. Afinal, quem não gosta, né?

- O esforço. Se a pessoa vacilou com você, supostamente, ela ão vai medir esforços para te agradar e te compensar durante o sexo.

- A agressividade. Porque toda a raiva que foi sentida pelo seu parceiro pode ser descontada na cama e isso pode ser muito prazeroso... pra ele.

Eu me lembro que nas relações sexuais pós-briga que eu tive, dentro de relações abusivas que vivi, o sexo repetia um padrão. Ele era extremamente violento e possessivo. Se a briga tivesse sido motivada por alguma insegurança pessoal do meu parceiro, se ele tivesse sentido ciúmes de mim, o sexo se resumia a uma confirmação de que eu pertencia a ele.

Tudo que ele falava tinha a intenção de deixar nítido que eu pertencia a ele, ou seja, que eu só me relacionava com ele, que meu corpo e, obviamente, meu órgão sexual não pertenciam a mim, que eram de uso único e exclusivo dele. Ele precisava se sentir seguro e só conseguia isso tendo a certeza de que era dono do meu corpo e dar minhas vontades.

Por outro lado, se o motivo da briga fosse eu ter discordado ou, como ele gostava de dizer, "contrariado" seja com uma atitude ou opinião, o sexo se resumia a uma dominação do meu corpo que ultrapassava todos os limites. Tudo que acontecia naquele momento me parecia muito mais proposital, numa intenção de descontar certos sentimentos, do que tesão e prazer.

Os puxões de cabelo, tapas, empurrões e uma vontade frequente de forçar alguma situação. Eu dizia "não" para algo e ele dizia "sim", porque ele mandava, queria e tinha força pra impor isso. Percebe? Por anos eu confundi isso com paixão, amor e até com cuidado. Era ali, nos braços dele, que eu me sentia protegida.

Hoje em dia nada disso faz sentido pra mim. Como eu consegui me sentir desejada, amada e protegida nessas situações? Eu cheguei ao ponto de chorar durante uma relação sexual e por algum motivo dessa vez ele decidiu parar. Só que logo depois ele veio, com os seus "carinhos", tentou recomeçar e eu aceitei. Por que eu aceitava isso?

A gente demora a perceber que está em uma relação abusiva, porque ninguém te conhece melhor do que o seu agressor. Se por um lado ele te dá o veneno, é ele quem te dá o antídoto. Ele faz você conhecer o inferno, mas também sabe exatamente como te apresentar o céu. Quando a gente se dá conta está vivendo um ciclo que nos adoece, que nos destrói por dentro e por fora.

Precisamos tomar muito cuidado com esse "sexo de reconciliação". Porque violência e sexo não andam juntos, nunca! Sexo só pode acontecer onde não há violência. Sexo está alinhado a respeito mútuo, cuidado mútuo e consentimento. Sexo é sobre respeitar os limites do outro, mas aprender a reconhecer, estabelecer e respeitar os nossos também. Isso não tem nada a ver com rótulo de relacionamento.

Putaria e intensidade tá liberado, isso todo mundo gosta! Agora violência disfarçada de "sexo de reconciliação" é algo completamente diferente. Fique atenta! Não sei para vocês, mas pra mim parece muito problemático encarar o sexo dessa maneira.

Não estou dizendo que você não pode gostar de algo mais intenso ou "selvagem" como a gente gosta de falar. O que eu quero te dizer é que sexo não é moeda de troca para a sua relação. Ou seja, você não tem que transar com o seu parceiro para agradar ele, para ter paz e tranquilidade na relação. Muito menos para descontar mágoa, raiva ou tristeza.

*Criadora de Conteúdo através do perfil @falacomamari no Instagram, geógrafa e pesquisadora sobre os Estudos sobre a Mulher, Gênero, Sexualidade e Relações Raciais.