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OPINIÃO

Caso Samuel Klein: "o rei do varejo" está morto, mas também está nu

Acusações de envolvimento com rede de exploração sexual de crianças e adolescentes contra o fundador das Casas Bahia, Samuel Klein, morto em 2014, vieram à tona pela Agência Pública Imagem: Janete Longo/Folhapress/Arquivo
Andrea Dip

Colaboração para Universa

16/04/2021 04h00

Quando as denúncias relacionando o fundador das Casas Bahia, Samuel Klein, a um esquema de décadas de exploração sexual de crianças e adolescentes chegaram à redação da Agência Pública, nós percebemos que precisaríamos de tempo, de uma apuração cuidadosa e justa, e de uma escuta qualificada para puxar esse fio.

Afinal as acusações iam contra ninguém menos que o homem que ficou conhecido como " rei do varejo", que levou para o túmulo uma imagem imaculada, quase sacra, de superação, sucesso e caridade. Livros elogiosos sobre ele foram escritos, homenagens foram feitas, centenas de celebridades e políticos posaram sorridentes para fotos ao seu lado.

Com uma equipe de sete repórteres designada, a apuração começou e fotos e vídeos de embrulhar o estômago surgiram, assim como bilhetes, testemunhas, processos mas principalmente relatos tão detalhados e terríveis que não pudemos publicar na íntegra para não impossibilitar a leitura e também para não revitimizar mulheres que criaram coragem de, já adultas, denunciar um esquema de exploração sexual e abusos do qual dizem ter sido vítimas desde crianças e que as colocou em uma posição de dependência financeira e emocional durante décadas.

Uma delas contou que foi orientada a dizer que tinha 17 anos (ela tinha 18) para atender "o estilo de Samuel, que gostava mais de menininha". Ela também confirmou — assim como outras 34 fontes — que o empresário mantinha relações sexuais com adolescentes e crianças. "Gostava de meninas com o corpo menos evoluído, que era meu caso."

Outros relatos dizem que as meninas chegavam à sede da empresa em São Caetano do Sul (SP), algumas ainda virgens, de até nove anos de idade, e lá mesmo, em uma sala, teriam sido sexualmente violentadas pelo dono das Casas Bahia. Os abusos também aconteciam nos imóveis de Samuel Klein em Angra dos Reis (RJ), Santos (SP), São Vicente (SP,) e no Guarujá (SP), segundo as entrevistadas

E as meninas, em sua maioria de famílias pobres, eram levadas ao empresário com promessas de que ganhariam presentes e dinheiro. Um tênis, um desodorante roll on, dinheiro para ajudar a família. A socióloga Graça Gadelha, especialista em direitos infantojuvenis que nós entrevistamos para a reportagem, definiu: "As desigualdades sociais são impulsionadoras de violações de direitos, que por vezes se iniciam na infância" e lembrou que considerar que um menino ou uma menina escolheu estar em situação de exploração sexual "é um pensamento perverso".

A reportagem na íntegra pode ser lida no site da Pública mas a reflexão maior que eu gostaria de fazer aqui é a de que homens que cometem abusos, estupro ou exploração sexual de crianças, adolescentes e mulheres, como Samuel ou mesmo seu filho Saul segundo as entrevistadas, não são monstros. Não são exceções. Não são um ponto fora da curva. São apenas homens com poder e dinheiro suficientes para manter seus esquemas perversos de submissão e subjugação de corpos femininos e infantis, sem qualquer limitação de recursos e escrúpulos.

Homens ricos, poderosos, que, acima da Justiça, com a cumplicidade silenciosa da mídia que depende de anúncios e a normatização da sociedade, seguem impunes comandando seus esquemas criminosos do alto de seus tronos.

O caso Samuel Klein tem sido comparado ao do empresário bilionário norte-americano Jeffrey Epstein, acusado de comandar um grande esquema de tráfico sexual, levando meninas de cerca de 14 anos para sua mansão em Nova York e sua casa na Flórida entre 2002 e 2005.

Assim como Samuel, Epstein circulava entre poderosos e celebridades e era conhecido como "um cara ótimo", segundo declaração do ex-presidente Donald Trump à revista "New Yorker", em um perfil sobre o bilionário em 2002. "É divertido estar com ele. Dizem que ele gosta de mulheres bonitas tanto quanto eu, mas muitas delas são mais jovens. Não há dúvidas — Jeffrey aproveita sua vida social", disse Trump.

Quem trabalha com vítimas de violência sexual costuma dizer que "o agressor dorme no homem comum" no sentido de que qualquer um pode ser um agressor ou ninguém é um agressor até que se torne um. Neste caso, os homens não são comuns mas isso não tem a ver com a reiterada violência sexual que cometeram porque outros milhares abusam, estupram, aliciam e exploram sexualmente mulheres e meninas todos os dias.

São incomuns pela quantidade de poder, dinheiro, bons advogados e agenda de contatos que facilitaram a manutenção estrutural desses esquemas e a compra de décadas de silêncio. Falecido em 2014, o "rei do varejo" está morto, mas, graças à coragem dessas mulheres e ao jornalismo independente, também está nu.

* Andrea Dip é diretora na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, apresentadora do podcast Pauta Pública e autora do livro "Em Nome de Quem? A Bancada Evangélica e Seu Projeto de Poder". É membro-fundadora da rede Unidas entre mulheres da América Latina, Caribe e Alemanha. Tem 12 prêmios de jornalismo e cobre principalmente temas relacionados a gênero, infância, encarceramento e as conexões entre política, gênero e religião.

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