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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Do BBB à Justiça, Brasil ainda faz vista grossa para o racismo

Rodolffo cumpre Castigo do Montro no BBB 21 (Reprodução Globoplay) - Reprodução / Internet
Rodolffo cumpre Castigo do Montro no BBB 21 (Reprodução Globoplay) Imagem: Reprodução / Internet
Monique Prado

Monique Prado

Advogada, comunicadora, estudiosa das relações raciais e engajada na luta antirracista. Eleita uma das jovens lideranças da América pelo programa YLAI (Young Leaders of America Initiative) e cofundadora do Afronta Coletivo, trabalho sociocultural protagonizado por mulheres negras que acredita na disseminação da cultura afrobrasileira. Também participa da Comissão de Igualdade Racial e Direitos Humanos da subseção Osasco, do Comitê de Igualdade Racial do Grupo Mulheres do Brasil e da Educafro.

Colaboração para Universa

11/04/2021 04h00

Afinal por que comparar o cabelo crespo à palha de aço ou ao cabelo de homens das cavernas são falas racistas? Acredite, por causa de fatos ocorridos no Big Brother Brasil, nos vemos mais uma vez diante desse racismo à brasileira, que, de tão sorrateiro, consegue chamar de "brincadeira" atos de violência contra nós, negros.

Quando o sertanejo Rodolffo comparou o cabelo do professor João Luiz ao de uma fantasia de homem das cavernas, o cantor simplesmente o associou à imagem de um homem primitivo, selvagem, incivilizado e sujo. Já Val Marchiori foi além: a socialite fez piada com o cabelo da cantora Ludmilla, comparando com uma marca de palha de aço, objeto que fazemos uso para lavar as nossas louças.

A utilização massiva do cabelo black power surgiu na década de 1960, como um aparato de resistência negra. Usar o cabelo crespo natural era então uma forma de provocar questionamentos sobre a imposição dos padrões europeus da época que somente admitia cabelos lisos ou alisados.

Na minha infância xingamentos como 'carvão', 'torrão' e 'cabelo Bombril' eram cotidianos. Episódios como o de receber cuspidas e goma de mascar no cabelo ou ainda passarem uma tesoura nos meus fios enquanto eu estava de costas marcaram muito a minha infância. Ainda hoje, ao falar disso, me dá uma sensação de mal-estar e embrulho do estômago.

No início da fase adulta alisei o cabelo como uma forma de tentar me proteger dessas agressões cotidianas e camuflar o meu sofrimento, pois o racismo tem um efeito paralisante. Quantas vezes ao longo da formação acadêmica e mesmo mais tarde, nas entradas dos tribunais, nas salas de audiência ou durante uma reunião fui motivo de chacota ou preterimento como se eu estivesse ausente naquele espaço?

Durante um simulado em Direito Constitucional, por exemplo, fui uma das únicas alunas a tirar nota 10 em uma sala de mais 90 alunos. O professor, que ainda era novo e não nos conhecia pelo nome, perguntou para a sala inteira ouvir: "Quem é Monique?".Quando respondi, a cara de espanto dele foi imediata. Ou quando estava em uma reunião de negócios onde eu quem dominava o assunto e os outros empresários se dirigiam a mim como se fosse a recepcionista da reunião. Ou nas inúmeras vezes em que ao entrar nos fóruns fui parada e direcionada a entrada do público geral, pois "não aparentava ser uma advogada".

Gostaria muito que isso tudo ficasse arquivado nos anos 1990 e 2000, mas recentemente, depois de ter feito a transição capilar e assumido o cabelo crespo as coisas ficaram ainda mais tensas. Na última empresa em que atuei, por exemplo, havia um constrangimento enorme em abrir a câmera do zoom porque a empresa tinha um baixíssimo número de funcionários negros, o que não me deixava a vontade.

A psicanalista Grada Kilomba explica no livro "Memórias da Plantação" que o uso do cabelo crespo, Black Power, dread, rastafári e penteados afrio não são apenas um "estilo", mas sim uma forma de transmitir uma mensagem política de fortalecimento racial e um protesto contra as opressões cotidianas.

Portanto, toda vez que dispositivos estáticos de pessoas negras como o cabelo crespo, a cor da pele, os traços físicos como nariz e boca ou o corpo são atacados, a agressão acontece, mesmo que de forma não intencionada. Pois o racismo não está no campo moral e do comportamento.

O racismo estrutural opera como um mecanismo de controle de narrativas, determinando, por exemplo, quem é considerado "bonito", "limpo" e "civilizado"

Por isso, a identidade racial não é negociável como ficou decidido pela Suprema Corte Trabalhista no processo da Mayara Oliveira que era proibidade de usar o seu cabelo Black Power no laboratório Fleury. Eu tive a honra atuar como advogada do caso e assistir a Ministra Relatora Delaíde Miranda Arantes condenando a empresa. A Ministra alertou que as instituições não podem proibir os seus funcionários de usarem o seu cabelo natural e crespo, ainda que ele seja Black Power, sob pena de serem condenadas por assédio.

Esse processo é simbólico porque gerou precedente nacional na esfera trabalhista e depois de ter perdido em duas instâncias, finalmente a Corte Superior acolheu aquilo que estamos falando há séculos: parem de nos objetificar, desumanizar ou fetichizar. Entretanto, percebemos que a decisão é minoritária no judiciário, como vimos no caso Ludmila.

Infelizmente, a Justiça ainda faz vistas grossas ao racismo, especialmente porque mais de 80% dos juízes e magistrados são brancos e estão pouco familiarizados com o impacto estrutural do racismo: baixa representatividade nas instituições e violências cotidianas.

Lamentavelmente, as imagens de Ludmilla e João Luiz representam uma minoria na indústria audiovisual. Entretanto, a aparição de pessoas negras na mídia tem um saldo positivo, uma vez que promove discussões como essas e mostra como as identidades negras são plurais.

Com esse território racial em ebulição, espero que as gerações futuras não precisem passar pelas violências reais e simbólicas que nós ainda hoje passamos.