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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Caso Isa Penna: vale a pena botar a boca no trombone para que nos respeitem

Além de ter o mandato suspenso por seis meses pela Alesp, o deputado Fernando Cury (Cidadania-SP) também foi denunciado pelo Ministério Público e poderá responder criminalmente por assédio a Isa Penna (PSOL-SP) - Arquivo Agência Alesp
Além de ter o mandato suspenso por seis meses pela Alesp, o deputado Fernando Cury (Cidadania-SP) também foi denunciado pelo Ministério Público e poderá responder criminalmente por assédio a Isa Penna (PSOL-SP) Imagem: Arquivo Agência Alesp

Beatriz Bracher, Daniela Thomas, Julia Mariani e Mari Stockler*

Especial para Universa

05/04/2021 04h00

"Chega de assédio. Viva as mulheres! Se você está passando por uma situação de assédio, que esse caso te sirva de inspiração: pode lutar, pode lutar, sim, pode colocar a boca no trombone."

Essas palavras, ditas pela deputada Isa Penna (PSOL-SP) na sessão da Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) em 1º de abril de 2021, foi o que de mais importante aconteceu na campanha pela cassação do deputado Fernando Cury (Cidadania-SP).

Para chegar a esse ponto, vivemos 25 dias de mobilização intensa. A campanha "Por uma Punição Exemplar" foi singular, pois não foi necessário fazer nenhum trabalho de esclarecimento e convencimento. As pessoas com quem falávamos conheciam o caso de assédio cometido pelo deputado Fernando Cury, sabiam que o assédio é generalizado entre nós, é grave, humilhante e acontece porque o assediador tem certeza de sua impunidade, garantida, principalmente, pela ausência de constrangimento social.

Até há pouco tempo, assediar não era entendido como um ato imoral, era mais uma molecagem. A facilidade com que todos aderiram a nossa campanha é uma prova de que os tempos mudaram e o deputado Fernando Cury e vários outros deputados da Alesp não o viram passar. Quando se deram conta, já estavam no meio do turbilhão de vozes e mais vozes gritando: 'Chega!'.

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Anúncio do movimento "Por uma Punição Exemplar" com nomes dos deputados estaduais que votaram inicialmente a favor e contra a punição branda do Conselho de Ética da Alesp ao colega Fernando Cury (Cidadania-SP)
Imagem: Reprodução

Mobilizar significa colocar em ação, dar movimento a alguma coisa. O que faltava para que as pessoas se unissem para lutar por uma punição que servisse de exemplo era convencerem-se da possibilidade de unir forças a ponto de influir nos votos dos deputados estaduais de São Paulo.

A gana com que cada uma e cada um aderiu à campanha foi impressionante, no final éramos mais de 40 mil pessoas trabalhando ativamente para que os deputados recebessem e-mails e telefonemas incitando-os a votar pela a cassação de Fernando Cury. Primeiro nas redes e depois na imprensa tradicional, a campanha foi ganhando corpo e se tornou impossível aos parlamentares não ouvir o que queriam as mulheres e homens do estado de São Paulo.

Não houve uma pessoa com quem falamos que precisou ser convencida a repassar a mensagem de luta pela cassação. Mulheres e homens que não gostam de incomodar os parentes e amigos com posts e cards de campanhas, artistas e celebridades que não costumam participar de mobilizações, todos se envolveram, repassando as postagens e gravando depoimentos pessoais emocionantes.

Sempre esteve na cabeça e no coração de todos que participaram que não estávamos falando apenas de Fernando Cury e Isa Penna. Estávamos falando de nós mesmos. Nós de todas as classes e cores e, sim, de todos os gêneros. Muitos homens aderiram ao movimento com ardor pelo humano. O ardor cívico é pela sociedade, o patriótico, pela pátria, o ardor pelo humano é pelo seu semelhante, o que engloba e transcende os dois primeiros.

Nessa campanha de milhares de pessoas, não havia uma só mulher que não tivesse sofrido assédio sexual, e, na enorme maioria dos casos, ficado calada e envergonhada.

Sim, para os homens é difícil entender, até mesmo para as mulheres é difícil entender por que ficamos envergonhadas quando sofremos o assédio. É assim que acontece, nos parece uma coisa vergonhosa, estamos envolvidos em algo ruim que não deveria ter acontecido, que nos dá asco falar a respeito.

Participar dessa campanha foi dizer: eu também sofri assédio e quem tem que sentir vergonha é o homem que fez isso comigo. Quem tem que esconder seu rosto e sair do ônibus, sair da sala do almoxarifado, do quarto fechado, da esquina pouco iluminada é o assediador. Toda a vergonha sobre quem comete o crime e toda a solidariedade com quem sofreu o assédio. É isso o que dissemos ao pedir a cassação do deputado Fernando Cury.

A campanha começou no dia 5 de março, quando foi divulgado o resultado da votação do Conselho de Ética da Alesp que suspendeu o deputado por 119 dias. Fizeram parte do grupo organizador Maísa Diniz, Rafael Poço, Dríade Aguiar, que se uniu a nós pouco dias depois, e nós que assinamos esse artigo. A primeira ação pública foi um anúncio de página dupla na "Folha de S. Paulo", em 8 de março, Dia da Mulher.

No alto da página da esquerda estava a palavra "Vergonha" e, a seguir, os nomes dos deputados do Conselho de Ética que votaram por essa suspensão infame: Adalberto Freitas (PSL-SP), Alex de Madureira (PSD-SP), Estevam Galvão (DEM-SP), Delegado Olim (PP-SP) e Wellington Moura (Republicanos-SP). Do lado direito, a palavra "Respeito" com o nome de todos os outros deputados, pedindo que eles demonstrassem respeito às mulheres do estado de São Paulo e votassem pela cassação de Cury.

Discutimos sobre que verbo caberia em cima de cada palavra. No caso de "Respeito" era fácil: "tenham respeito". Mas no caso de vergonha, não era tão simples. Temos vergonha? Não, nós não devemos ter vergonha do assédio. Vocês, deputados do Conselho de Ética, são uma vergonha? Sim, uma vergonha para a Alesp e para seus eleitores. Mas o significado de "vergonha" naquela página de jornal era maior, não era uma convocação a ação ou uma voz de repúdio, e sim a constatação de um estado, a casa estava manchada pela vergonha do ato cometido e pela conivência expressa na punição branda.

É uma vergonha que um homem tenha feito isso, da mesma forma como é uma vergonha que outros milhares o façam em ambientes públicos e privados; é uma vergonha que vivamos em um tempo em que ainda é preciso discussão para simplesmente dizer: retire-se. Da Alesp, do ônibus, do trabalho, de onde for.

A perda de mandato por seis meses não é a pena que o deputado Fernando Cury merecia, mas foi uma grande vitória para todas as mulheres. Quando lutamos pelo que queremos, nós podemos vencer. Não foi nem será sempre assim, mas nesse caso nós vencemos.

Desde o começo nosso objetivo era poder dizer que colocar a boca no trombone vale a pena. É esse o nosso legado: valeu a pena.

* Beatriz Bracher, escritora, Daniela Thomas, cineasta, Julia Mariani, designer, e Mari Stockler, gestora cultural, são algumas das organizadoras da campanha "Por uma Punição Exemplar" que pede a cassação do deputado estadual Fernando Cury (Cidadania-SP)