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OPINIÃO

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Goleiro Bruno em novo time: se vítima fosse homem, haveria segunda chance?

O goleiro Bruno, condenado pelo assassinato de Eliza Samudio, assiste partida de futebol em 2017 - Adriano Vizoni/Folhapress
O goleiro Bruno, condenado pelo assassinato de Eliza Samudio, assiste partida de futebol em 2017 Imagem: Adriano Vizoni/Folhapress
Juliana Arreguy

Juliana Arreguy

Repórter do UOL Notícias, com experiência em coberturas esportiva, política e de cotidiano. É estudiosa do futebol feminino e de questões de gênero

De Universa

01/04/2021 04h00

Não é a primeira vez que o goleiro Bruno é contratado por um time, agora o Araguacema, do Tocantins, após ter sequestrado, assassinado e ocultado o cadáver de sua ex-namorada Eliza Samudio — crimes pelos quais foi condenado a mais de 20 anos de prisão. Também não é a primeira vez que a contratação do atleta após ele ter cumprido oito anos e dez meses de prisão gera revolta: por que Bruno?

O discurso de que ele merece uma segunda chance após conseguir progressão de regime não parece vir do mesmo Brasil em que apenas 20% dos egressos do sistema carcerário conseguem um emprego.

O anúncio da contratação do goleiro Bruno feito nas redes sociais do time Araguacema - Divulgação/Araguacema - Divulgação/Araguacema
O anúncio da contratação do goleiro Bruno feito nas redes sociais do time Araguacema
Imagem: Divulgação/Araguacema

Os dados, os mais recentes sobre o tema, constam em relatório de 2015 do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Quase seis anos depois da coleta dos números, percebe-se a quantas anda a preocupação nacional com a ressocialização dos presos. As discussões só se inflamam nas redes se o preso em questão for ex-goleiro do Flamengo.

O interesse em Bruno não gira em torno da ótica social, mas sim do marketing. Não importa aos clubes que o corpo de Eliza nunca tenha sido encontrado, mesmo passados quase 11 anos de sua morte.

Dar ampla visibilidade a um homem condenado pelo assassinato da ex-namorada, mãe de seu filho, abre brechas para outros feminicídios e crimes de violência de gênero. Se Bruno tivesse assassinado um colega de elenco, um sócio ou um amigo, os mesmos clubes teriam interesse em seu nome?

Times menores ganharam holofotes ao anunciarem a intenção de contratar o goleiro. Para o bem ou para o mal, entraram no radar da opinião pública. Tanto que diante da repercussão negativa alguns desistiram de Bruno.

Outros o alçaram a ídolo sem dar a mesma pompa e circunstância a outros ex-detentos contratados para cargos dentro dos clubes. Isso, claro, presumindo que houve a preocupação com a ressocialização de presos no geral, e não só de um ex-goleiro de ponta.

Um levantamento do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) aponta que 42,5% das pessoas que deixaram o sistema prisional entre 2015 e 2019 acabaram retornando ao cárcere. Diversos fatores explicam esses números, e um deles é gritante: a falta de oportunidades no mercado de trabalho.

Apenas 13% da população carcerária realiza algum tipo de trabalho — entre os homens presos, a taxa é de 19,6%. Quantas dessas oportunidades são ofertadas pelos clubes de futebol?

Só o interesse em ter um nome famoso no elenco explica. Do ponto de vista esportivo, Bruno foi um bom goleiro. Mas considerando a qualidade da formação de goleiros no Brasil, não é exatamente uma surpresa que fosse bom. Tampouco era o melhor em atividade quando foi preso, em 2010.

Bruno chegou a ser cotado para a Seleção Brasileira, mas nunca foi convocado. Não faltam contemporâneos à altura: Diego Alves (que foi seu reserva no Atlético-MG), Jefferson, Cássio, Victor, Fábio e Julio César (sem entrar aqui no 7 a 1).

Por que Bruno recebe o tratamento por um posto que nunca alcançou?

A discussão não deve se limitar apenas à segunda chance, ou não, de Bruno. Mas sim à segunda chance que é dada somente a ele.

* Juliana Arreguy é repórter de UOL Notícias, com experiência em coberturas esportiva, política e de cotidiano. É estudiosa do futebol feminino e de questões de gênero