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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

De costas para o coronavírus: o difícil trabalho das profissionais do sexo

Luza Silva, 49, foi uma das trabalhadoras sexuais entrevistadas na reportagem de Universa - Arquivo pessoal
Luza Silva, 49, foi uma das trabalhadoras sexuais entrevistadas na reportagem de Universa Imagem: Arquivo pessoal
Alessandra Nilo

Alessandra Nilo

*Cofundadora e coordenadora geral da Gestos - Soropositividade, Comunicação e Gênero e cofacilitadora do GT Agenda 2030. É jornalista com especialização em saúde e pós-graduação em diplomacia e negócios internacionais.

Colaboração para Universa

26/03/2021 15h58

Diante de todos os impactos socioeconômicos negativos do novo coronavírus, se faz urgente continuar falando sobre o aumento das desigualdades de gênero.

Passado um ano desde o início da pandemia da covid-19, as mulheres seguem sendo mais afetadas do que os homens nesta crise sanitária sem precedentes. Elas estão na linha de frente — representam cerca de 70% das equipes de trabalho em saúde — e não raro enfrentam dupla jornada como prestadoras de cuidados, incluindo o trabalho doméstico e de cuidado com crianças e pessoas idosas.

O "Relatório Especial Covid-19", publicado Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) em fevereiro, mostra o impacto da pandemia sobre a vida das mulheres da região, seja pela sobrecarga de trabalho não remunerado, pela violência doméstica e/ou pela precarização do trabalho, com perda de empregos e renda.

Se nada for feito pelos governos, teremos 23 milhões a mais de mulheres vivendo em situação de pobreza do que tínhamos em 2019 e este é o caso do Brasil, onde o governo federal se mostra avesso a realmente cuidar das pessoas, se opõe às medidas científicas e dificulta ainda mais a saída das inúmeras crises que o país enfrenta.

No nosso país, tão desigual, o aumento da pobreza entre as mulheres aprofunda a emergência sanitária e tem deixado o Brasil cada vez mais distante de alcançar o Objetivo 5 da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, que prevê a igualdade de gênero e o empoderamento de todas as mulheres e meninas.

E, se para as mulheres em geral a situação já está insustentável, para as trabalhadoras do sexo é dramática, como mostra a reportagem de Universa em que prostitutas criam regras para trabalhar na pandemia, tornando urgente garantir o respeito, a proteção e o cumprimento dos direitos humanos das profissionais do sexo, historicamente marginalizadas e sem proteção social.

Uma declaração conjunta emitida pela Rede Global de Projetos de Trabalho Sexual (NSWP) e o Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids) afirma que, em consequência da pandemia, essas mulheres "estão passando por dificuldades, uma perda total de renda e maior discriminação e assédio" e é isso que vem sendo denunciado incansavelmente pela RedTraSex, rede de trabalhadoras sexuais da América Latina.

Uma das maiores lideranças da região latino americana, Elena Eva Reynaga, tem feito reuniões com todos os governos e sido categórica: as trabalhadoras do sexo encontram-se numa enorme desigualdade no acesso aos direitos, situação acirrada pela covid-19. Segundo ela, não haverá resposta à pandemia sem avançarmos na desconstrução dos estigmas e na eliminação de todas as formas de discriminação contra todas as pessoas.

Uma resposta adequada à covid-19 precisa considerar todas essas especificidades. Organizações como a Antrasex (Articulação Nacional de Profissionais do Sexo), CUTs (Central Única de Trabalhadoras do Sexo) e RBP (Rede Brasileira de Prostitutas) documentaram problemas como o fechamento de locais de trabalho, queda no número de clientes nos espaços de sociabilidade, condições laborais que não garantem a completa segurança contra o coronavírus e o aumento da violência de gênero e de feminicídios.

Como já mostrado na matéria de Universa, em um momento como esse, ações efetivas de apoio como a do Fundo Positivo podem fazer a diferença entre a vida e a morte para essas mulheres que, além de lidarem com a covid-19 vivem num país que não lhe garante direitos e enfrentam a redução da clientela e da renda. Aquelas que, sem alternativa, continuam se arriscando nas ruas, e precisam adotar protocolos de segurança para o trabalho, como o uso de máscara, a proibição do beijo em clientes e ficar de costas durante a relação sexual.

"Sexo de costas é melhor do que nada", argumentam. Não poderia ser diferente, afinal, a fome não espera. E, diante de tantas violações de direitos se torna inevitável uma pergunta: como podem os governos e a sociedade falarem em alcançar a igualdade de gênero até 2030 se as profissionais do sexo estão sendo deixadas para trás?

*Cofundadora e coordenadora geral da Gestos - Soropositividade, Comunicação e Gênero e cofacilitadora do GT Agenda 2030. É jornalista com especialização em saúde e pós-graduação em diplomacia e negócios internacionais.