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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Lumena e Conká, não usem seu lugar de dor para violentar os outros

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Imagem: Divulgação
Jaqueline Conceição

Jaqueline Conceição

É doutoranda em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina, é mestre em Educação: História, Política, Sociedade pela PUC-SP, psicanalista e fundadora do Instituto Ionene de Estudos sobre psicanálise, racialidade e gênero. Fundadora e diretora executiva do Coletivo Di Jejê, professora da Casa do Saber e consultora da ONU para questões de racialidade e gênero. Em 2020, recebeu o Prêmio Donas da Rua, entregue pela Turma da Mônica e ONU Mulheres, reconhecimento ao seu trabalho como professora e ativista da luta antirracista no Brasil e no mundo.

Colaboração para Universa

10/02/2021 04h00Atualizada em 28/02/2021 13h10

Minhas irmãs, nós não somos pessoas raivosas. E nem precisamos violentar os homens negros para afirmar nossa humanidade. É verdade que a branquitude todos os dias nos violenta, nos despreza e nos diminui ao nosso lugar, seja lá o que isso quer dizer, mas nós não somos pessoas raivosas.

Sim, devemos aprender a dizer não, devemos aprender que merecemos amor, como qualquer outra mulher, como qualquer outra pessoa. É verdade, minhas irmãs, que a dor e as lágrimas de uma mulher branca, comove muito mais que a nossa dor: matam nossos filhos e encarceram nossos maridos, e ninguém sente a nossa dor, a não ser nós mesmas.

Não, minhas irmãs, nosso sonho não precisa ser o afeto do homem branco (ou da mulher branca), nós podemos amar e sermos amadas por nós mesmas, por nossas irmãs, por nossos irmãos, por nossos filhos e filhas, por nossos ancestrais.

Nós, mulheres negras, somos feitas de amor e fúria: é do nosso ventre que nasce a esperança de dias melhores (obrigada ao Lucas Penteado e a sua mãe, por nos mostrar que tudo pode ser diferente, obrigada Dona Jacira e ao Emicida, como o Sol pintamos tudo de AmarElo), e em nossos braços que ninamos os filhos e filhas daqueles que nos violentam e nos oprimem, é com nossa mão que preparamos o alimento daqueles que nos oprimem, e com nossa voz que pedimos justiça (Obrigada Mães de Maio, por serem a luz que nos conduz na noite escura da violência do Estado).

Com nosso seio, alimentamos os sonhos que embalam a nossa luta por vida e dignidade, é aos nossos jovens que dedicamos nosso tempo, e as nossas crianças dedicamos nossa crença por um mundo melhor.

Nós somos o centro da vida que produz esse país: sem a nossa presença negra que paralisa o instante em que tudo começa, não haveria absolutamente nada no Brasil para chamar de brasileiro: nem a música, nem a cultura, nem a casa, nem a comida, nem a roupa lavada.

Nós minhas irmãs negras, temos dores, carregamos dores, mas não precisamos ser definidas por essas dores. Somos mais, somos potência, somos rio que corre pro mar, somos ventos que movem montanhas, somos a raiz forte dentro do manguezal, somos o mar farto de belezas e de vida. Somos o raio que destrói rochas, somos as folhas que voam no vento, somos o fogo que queima e aquece, somos a força da forja que molda o ferro, somos o inicio, o meio e o fim.

Me sinto dolorida, ao ver duas mulheres negras todos os dias pela televisão, sendo tão violentas e dizendo que é dessa forma que elas se percebem e se dão pro mundo, E eu entendo: nos dão taça de veneno e esperam suflair?

BBB - Reprodução / TV Globo - Reprodução / TV Globo
Karol Conká e Lumena conversam durante o programa
Imagem: Reprodução / TV Globo

Mais ainda assim, minhas irmãs negras, eu me atrevo a dizer que esse não precisa ser o nosso único lugar, podemos fazer mais, podemos ser mais. Na verdade já fazemos mais, já somos mais. A sociedade nos castiga, nos exclui, nos violenta, a sociedade nos machuca todos os dias. Não é uma forma de violência submeter mulheres negras (e homens negros) a um ambiente tão violento como um jogo valendo R$ 1,5 milhão?

O mundo branco e seus delírios com capas de revista, 10 milhões de seguidores no Instagram, o afeto do homem branco, o prêmio internacional, a bolsa de marca ou qualquer outra coisa que se venda como sucesso e felicidade não precisa ser o nosso lugar de desejo e nossa meta de vida.

Homens negros, meus irmãos, amem a si mesmos, amem as mulheres negras, honrem o ventre do qual nasceram.
Minhas irmãs negras: não se silenciem, mas jamais usem do seu lugar de fala para silenciar outras pessoas negras, a fala é um dom sagrado de nossos ancestrais e o axé da fala deve ser partilhado, por que só existe axé se ele for coletivo.

E entendam minhas irmãs negras, de fora e de dentro do BBB21: nossa existência só faz sentido, enquanto pessoas negras, se ela for coletiva. E ser coletivo não é ser único, ser coletivo é ser diverso, mas ter a sabedoria de compreender que a diversidade compõe a unidade.

Eu desejo a todas as mulheres negras (e homens negros) dentro e fora do BBB21 que as nossas dores não nos sabotem e nos desvirtuem de quem somos e de quem podemos ser, que, enquanto escrevo este texto, nesta terça-feira de Ogum, ele mesmo dê caminho e serenidade para Karol, Lumena, Camila, Pocah, Projota, João e Nego Di. Para que nesta quarta, no dia da justiça de Xangô, o machado não caia sobre suas cabeças.

Com afeto,
Jaque Conceição
Mãe de dois meninos negros, macumbeira filha de Xangô, professora, psicanalista e feminista negra