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O que a rinoplastia de Sthefane Matos nos ensina sobre pressão estética

Sthefane Matos conta em vídeo drama após cirurgia - Reprodução/Youtube
Sthefane Matos conta em vídeo drama após cirurgia Imagem: Reprodução/Youtube
Carla Lemos

Criadora do @modices e autora do livro "Use a Moda a Seu Favor"

Colaboração para Universa

12/12/2020 04h00Atualizada em 18/01/2021 18h33

Enquanto eu escrevia este texto, já tinha quase 5 milhões de visualizações o vídeo onde a influenciadora baiana Sthefane Matos compartilhou a experiência da sua rinoplastia que deu errado. "Há 10 meses eu tinha um nariz saudável, perfeito. Eu fiz uma cirurgia de rinoplastia para poder me encaixar em um padrão de beleza", ela relata. Sthefane, que tem 21 anos, conta que sempre foi muito vaidosa e queria fazer de tudo para ficar mais bonita. No seu canal do YouTube podemos ver que só no último ano ela colocou próteses de silicone nos seios, fez lipoescultura, lipo lad, além de duas rinoplastias.

Eu gostaria que o caso dela fosse exceção, mas não é. O Brasil é o país que mais faz cirurgias plásticas no mundo.

Segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), há dois anos o Brasil ultrapassou os Estados Unidos e assumiu a liderança nesse ranking com um aumento de 7,4% nos procedimentos estéticos só em 2019.

Fazer procedimentos estéticos hoje está diretamente associado ao valor de uma mulher. A mídia vende a nós a mensagem de meritocracia da beleza. Aqui se leva a sério o 'não existe mulher feia, existe mulher pobre'. Você paga e conquista a aparência ideal.

Numa sociedade que diz o tempo todo que o maior valor de uma mulher é a sua aparência, isso cria um eterno estado de vigilância para se chegar ao ideal de beleza. Nós somos seres sociáveis, queremos nos encaixar e fazer parte de um grupo. Queremos ser aceitas.

Como eu conto no meu livro "Use a Moda a Seu Favor", nós, temos essa tendência intrínseca a nos comparar a outras pessoas para autoaperfeiçoamento. Isso é da nossa natureza e há níveis saudáveis para essa comparação. O problema é que o ideal de sucesso de nossa sociedade (racista) nos leva a comparar com imagens muito diferente da nossa.

Assim, criamos uma noção distorcida da nossa própria imagem. Aprendemos a olhar para nossos corpos procurando defeitos.

A mídia tem papel importantíssimo na construção das opiniões e do imaginário de uma sociedade. Cada propaganda, filme, novela, capa de revista e agora até filtro do Instagram, ajuda a moldar o imaginário popular sobre o que é belo. No Brasil esse imaginário é moldado por padrões europeus que invadem a cabeça das mulheres ainda na infância desde o século 19 quando por aqui só chegavam bonecas importadas da França com pele clara, cabelos louros e bochechas rosadas.

O Brasil tem população de cerca de 56% de pessoas negras e pardas. Mas nos últimos 15 anos, nem 10 novelas tiveram protagonistas negras. E as que tiveram foram interpretadas por apenas duas atrizes: Taís Araújo e Camila Pitanga. Ambas com traços "finos" que as aproximam desse ideal eurocêntrico de beleza.

Mesa de cirurgia plástica virou uma condicional para o sucesso

Até na música, parece que a mesa de cirurgia plástica é um condicional para o sucesso: cantoras como Anitta e Ludmilla são algumas das que já fizeram rinoplastia, entre outros procedimentos. A ex-BBB Flay mal saiu do confinamento e já fez (mais) uma rinoplastia e uma lipo lad.

Pressão estética não é coisa recente. Desde a Grécia Antiga as mulheres já usavam faixas para espremer seus seios e deixar eles menos volumosos para se adaptar ao padrão de beleza da época. Mas a pressão estética no Brasil tem esse ingrediente cruel em sua composição: o racismo.

A aparência é importante na maneira como vemos e pensamos sobre nós mesmas. O ser humano gosta de aprovação, de receber feedback positivo sobre si, gosta de se sentir parte de um grupo. Assim, a gente vai moldando percepções positivas a nosso respeito.

Fato é que no Brasil quanto menos traços negróides ou indígenas você tiver maiores as chances de você ser considerada bonita.

É a política eugenista implementada por aqui há mais de um século mostrando que continua fortíssima. Como a pesquisadora Lia Vainer Schucman falou em entrevista ao ECOA. "As ideias de competência, de inteligências, de beleza estão simbolicamente ligadas às pessoas brancas".

Quando o embranquecimento não vem na loteria genética da miscigenação, ele vem na mesa de cirurgia. E isso faz com que garotas perfeitamente saudáveis como a Sthefane arrisquem sua saúde física e mental, tratando que seus corpos são objetos moldáveis. Mas nossos corpos não são feitos de barro.

No seu vídeo desabafo Sthefane conta que se soubesse antes dos riscos que ela corria com a cirurgia ela não teria feito o procedimento. Esse é um alerta importante, especialmente vindo de uma jovem influenciadora com milhões de seguidoras em suas redes.

Garotas que são parecidas com ela e não estavam satisfeitas com sua aparência por pura pressão estética e sonhavam com uma plástica "fácil de recuperação rápida" agora tem mais informações sobre os riscos que correm ao expor seus corpos a procedimentos tão invasivos e arriscados como as cirurgias plásticas eletivas.

*Carla Lemos é feminista, carioca e produtora de conteúdo há mais de 15 anos. Observadora atenta das mudanças de comportamento das mulheres na sociedade, Carla comanda o podcast PRIMAS e é autora do livro "Use a Moda A Seu Favor". Em 2021, lançará seu novo livro, "As Mentiras que te Contaram Sobre Ser Mulher".