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Mulher Sem Vergonha

Em tempos de fortes questões identitárias, o humor acabou?

Marcia Zanelatto é chefe de Roteiro do Porta dos Fundos - Barbara Copque
Marcia Zanelatto é chefe de Roteiro do Porta dos Fundos Imagem: Barbara Copque
Marcia Zanelatto

Marcia Zanelatto

Marcia Zanelatto é dramaturga e escritora brasileira. Seu trabalho é marcado pelo engajamento, envolvendo ideias e propostas a respeito de antirracismo, segurança pública, diversidade sexual e de gênero e identidade feminina. Atualmente é chefe de Roteiro do Porta dos Fundos.

Colaboração para o UOL

07/07/2020 04h00

Para quem faz a piada, a lei sempre foi uma só: não ter lei. A piada, por excelência, não respeita nada e nem ninguém. É esse o caminho dela desde os bobos da corte, cuja principal tarefa era falar pro rei o que mais ninguém tinha coragem de falar - ou seja, as piores verdades. E eles, os bobos da corte se expunham a riscos por isso - o Rei Lear, de Shakespeare, mata o seu bobo quando ele diz, em um número de versos cômicos, que ele será levado à desgraça justamente por seus filhos. A eficiência do cômico custou-lhe a vida. E creio que ele não teria reclamado, se pudesse. Um bom cômico é, antes de tudo, um corajoso.

Para continuar ouvindo grandes dramaturgos, Brecht dizia que a melhor maneira de derrubar uma instituição é dar três voltas em torno dela rindo. Charles Hebdo apontou sua máquina de piadas na direção do Estado Islâmico e caiu antes da terceira volta. Mas também duvido que teria se arrependido.

No nosso dia-a-dia, rir é remédio especialmente quando não estamos conseguindo sorrir. Porque rir é uma explosão de tensão, enquanto sorrir não tem a ver com tensão. Os tradicionais estudos do riso dizem que rimos daquilo que está reprimido em nós, daquilo que não temos coragem de falar sobre. E nessa esteira, por séculos, além de rir do poder e dos poderosos, aprendemos a rir também dos chamados defeituosos, dos que fogem à regra, dos que estão fora do padrão estabelecido como normal.

Rindo, dávamos lugar aos feios, aos gordos, aos homossexuais, aos ignorantes, aos mal ajambrados, aos de maus hábitos, aos não-brancos, aos pobres. E nos livrávamos do medo de ser igual a eles através de explosões de gargalhadas - a velha ligação entre a gargalhada e o medo. Até aí, ok. O único problema é que não perguntávamos, nós, os ditos normais, os que fazem a piada, se estávamos ou não causando sofrimento. Na verdade, não nos importávamos com isso. O riso era narcísico.

Mas eis que chegamos na era da pauta identitária - finalmente! - e ela inaugura toda uma série de crises, em especial, a crise do humor. Ainda queremos rir dos pobres, dos feios, dos gordos, dos homossexuais agora que aprendemos a amá-los? Agora que já começamos a entender que eles somos nós? Por hábito, um hábito secular, podemos até nos pegar rindo. Mas se dermos uma segunda olhada para ver do que afinal estamos rindo, não vamos querer rir a segunda vez. É o esperado.

E, então, o humor acabou? Acabou o potencial revolucionário do humor? Contornando a piada com questões identitárias estaremos sujeitando o humor a um ambiente onde ele morrerá, o ambiente da lei?

Fabio Porchat, recentemente em uma live a respeito de gordofobia, me lembrou um binômio que Oswald de Andrade expressou em um verso simples: Amor Humor. Talvez o mais revolucionário nesse momento seja o humor que vem do amor, cogitaram os dois Fabios do humor, Porchat e De Luca.

Não que tenhamos as respostas, mas temos uma pergunta que nesse momento me parece muito válida: como será a piada de quem sempre foi piada?

Para responder, precisaremos, nós, os normais, estarmos prontos para fazer o papel da instituição a ser rodeada três vezes, de cima a baixo, às gargalhadas. Vai ser ruim, vamos nos sentir mal, vamos achar que é pessoal, que estamos sendo humilhados e ofendidos. Mas depois que essas impressões narcísicas passarem, se passarem, vai ser bom. Vai ser o futuro.

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