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Mulher Sem Vergonha

Sou cineasta negra e quero falar do racismo no audiovisual brasileiro

Camila de Moraes - Natasha Montier
Camila de Moraes Imagem: Natasha Montier
Camila de Moraes

Camila de Moraes

É cineasta e jornalista, e a segunda mulher negra a dirigir um longa-metragem em circuito comercial no Brasil, após 34 anos de silenciamento - a diretora Adélia Sampaio havia sido a primeira. Camila dirigiu o curta-metragem "A Escrita do Seu Corpo", o longa documental "O Caso do Homem Errado", que traz a história de Júlio César de Melo Pinto, executado pela polícia em 1987, em Porto Alegre (RS) e a série de ficção "Nós Somos Pares"

Colaboração para o UOL

12/03/2020 04h00

Ler que "no Brasil não tem um Spike Lee ou uma Ava DuVernay" me faz perceber que é chegada a hora de abordar o racismo estrutural na produção audiovisual brasileira. É um problema que atinge um país "doente", no qual pessoas que se dizem profissionais da sétima arte não estão preocupadas em contar uma história e, sim, em lucrar em cima de nossas dores, mortes de pessoas iguais a mim, com a pele escura.

Há tempos, estamos na luta por outras narrativas possíveis dentro do audiovisual e aprendemos com o movimento negro que não se pode dar "nenhum passo atrás, nem para dar impulso". A nossa luta é por uma sociedade mais igualitária e é coletiva. Por isso, falo no plural a partir daqui - já que há um provérbio africano que nos ensina: "Eu sou, porque nós somos".

Aproveito para, neste momento, reverenciar quem veio antes. Se tenho uma carreira consolidada de cineasta negra brasileira foi porque a minha escola foi de excelência; aprendi por meio da observação e da escuta atenta o que Adélia Sampaio, Zózimo Bulbul, Joel Zito Araújo, Jeferson De, Sabrina Fidalgo, Renata Martins, Renato Cândido, Patrícia de Jesus, Vera Lopes, Paulo Ricardo de Moraes e outros grandes nomes brasileiros têm a nos dizer e ensinar.

Eu sempre carrego comigo o que eles e tantos outros nos passam: "Nada sobre nós sem nós", ou seja, sem a presença negra nas posições de roteiristas, diretoras/diretores, produção executiva, diretoras/diretores de fotografia, em todas as áreas.

Afinal, nossas histórias precisam ser contadas com dignidade e respeito, sem distorções históricas.

Infelizmente, o racismo invisibiliza o reconhecimento de cineastas e de tantos outros realizadores das artes. Isso faz com que a nossa presença nesse "clube do Bolinha" - lê-se o audiovisual branco, hétero, masculino e elitizado - seja inexistente, principalmente na hora de repartir a "fatia do bolo", ou seja, os recursos financeiros públicos destinados para a cadeia de produção.

Camila de Moraes - Natasha Montier - Natasha Montier
Imagem: Natasha Montier

Na luta por igualdade de oportunidades para produções audiovisuais, compreendemos a necessidade de políticas públicas para resolver a distorção profunda. E mais: é preciso termos consciência de que vivemos em uma sociedade racista e está mais do que na hora de a população brasileira ser antirracista, apoiar a causa, abrir mão de seus privilégios e lutar em conjunto.

A doença do Brasil é essa: indivíduos não reconhecem seus privilégios e muito menos aceitam críticas, pois acreditam serem a 'voz da razão', mesmo que 54% da população brasileira, que se autodeclara preta, esteja dizendo o contrário.

Quero dizer sobre a questão da oportunidade. Só consigo me lembrar da trajetória do nosso longa documental, "O Caso do Homem Errado", que em 2018 entrou na seleta lista de possíveis filmes brasileiros para representar o país no Oscar 2019. Uma produção independente, que não estava seguindo as regras do jogo, chegou nesse patamar.

Imaginem se tivéssemos tido as mesmas oportunidades desde o início.

Será que levaríamos oito anos para realizar o filme? Será que demoraríamos um ano e meio para conseguir concluir o circuito comercial nacional? Será que, com investimentos públicos, mais longas produzidos por realizadores negras/negros constariam nessa lista? Muitas perguntas e uma resposta para todas: racismo estrutural.

"Não deu. Deu sim!"

Se tem uma coisa que aprendi nos movimentos feministas negros e nos movimentos negros, entretanto, é que "nossos passos vêm de longe" e que não estamos sós nessa caminhada. Uma das provas foi quando saiu o resultado de que nosso filme não havia sido selecionado para o Oscar. Era 11 de setembro de 2018, eu estava em viagem indo do Rio de Janeiro para Porto Alegre; ao pousar, as mensagens começaram a chegar com a informação.

O mais surpreendente: quando cheguei no desembarque, vi uma parcela da comunidade negra gaúcha me aguardando com faixa e fazendo festa. Até parecia que éramos nós que representaríamos do Brasil. Ao ver todas aquelas pessoas, abracei minha mãe, comecei a chorar copiosamente e disse: "Não deu". Mas as pessoas só me diziam: "Deu sim". A força de estar entre os selecionados, diante de tantas adversidades, já era uma grande vitória.

Nosso recado é esse. Nossa luta é coletiva pois, em um país diverso como o Brasil, precisamos urgentemente mudar a cara do cinema brasileiro, do "clube do Bolinha". Não vamos nos calar. Por uma restruturação dentro da indústria do audiovisual, dizemos em alto e bom som que estamos por uma causa e seguiremos sempre em frente.

Set do piloto da série Nós Somos Pares, no qual envolvemos mais de 50 profissionais negrxs - Divulgação - Divulgação
Gravação do piloto da série "Nós Somos Pares", dirigida por Camila, em Salvador: "Foram mais de 50 profissionais negrxs envolvidos"
Imagem: Divulgação

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