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A moda está deslumbrada pelo algoritmo. O que isso tem a ver com você?

Modelo apresenta look em desfile da Amapo durante a SPFW, no Ibirapuera - NELSON ALMEIDA / AFP
Modelo apresenta look em desfile da Amapo durante a SPFW, no Ibirapuera
Imagem: NELSON ALMEIDA / AFP

Colaboração para Universa

18/10/2019 13h15Atualizada em 18/10/2019 13h15

O grande papo na SPFW não são exatamente as roupas nem as modelos. Nas palestras que rolaram no Projeto Estufa, que faz parte do evento, o grande tema foi a tecnologia. Sim, faz tempo que a moda está ligada nisso, e não faltam especialistas por aí falando do último gadget e outras firulas. Nesse contexto, o algoritmo emerge como novo Deus capaz de resolver todos os problemas das marcas, o novo milagre tecnológico que vai mostrar às empresas exatamente o que fazer, contanto que elas saibam ler os dados e trabalhar com as respostas.

Não é bem assim, o que não diminui a importância do tema. É claro que ninguém minimamente atento vai duvidar da utilidade e do potencial do algoritmo. Para começar, é preciso dizer que eles não são novidade, são um conceito matemático de procedimentos e regras para resolver problemas em um determinado número de passos, tipo uma receita. Só que um belo dia surgiram computadores e as redes. E as máquinas operando algoritmos levaram as coisas para outro nível de volume de dados e velocidade.

Os algoritmos estão em praticamente todos os equipamentos que usamos, em programas, jogos, redes sociais, mecanismos de busca, gps etc. Nossos dados estão aí sendo captados diariamente. Deixamos rastros sobre onde andamos, o que comemos, o que e como assistimos e interagimos com certos conteúdos, o que compramos, quem namoramos, quem é nossa família, o que fazem nossos amigos, como nossa cara mudou ao longo das décadas, o que curtimos, o que detestamos, como vai nossa saúde, o que buscamos no Google, enfim, temos uma rotina mapeada o tempo inteiro e, na maioria das vezes, distribuímos essas informações alegremente.

E há níveis mais sensíveis relativos a reações a conteúdos, considerações sobre o tempo, escolha de palavras etc. Há algoritmos que fazem parte de conselhos e diretorias de empresas como se fossem uma pessoa. Têm nome e tudo.

Os algoritmos são usados pra meteorologia, na medicina, podem influenciar eleições, decidirão que informações serão enviadas primeiro da sonda da Nasa que vai mapear Europa, uma das luas de Júpiter, e, num nível que interessa à moda, guiam decisões de compra e podem "prever" , por exemplo, responder no que vale investir em determinado período, lugar etc. Ok, tudo muito bom, tudo muito bem, muitas empresas têm obtido ótimos resultados com isso. Outras, não.

O que vale uma discussão mais ampla porque, afinal, os algoritmos ainda não são entidades independentes, embora possam funcionar sozinhos, precisam de nós. E, apesar de muitas experiências nesse sentido, parece que eles não são muito bons com criatividade. Eles dão, como eu disse, receitas. Que alguém precisa executar. Uns queimam o bolo, outros fazem um banquete. Mas isso é só a pontinha de um iceberg.

Os algoritmos estão sendo usados não só para mapeamento e análise de quem somos e do que já fazemos, mas também para jogar com nosso comportamento, e, de muitas maneiras, moldá-lo. E, pra ficar no básico, isso pode levar a ideia de tendência a um outro nível de entendimento que passa por um controle muito mais direto e invisível.

"Conhece-te a ti mesmo ou o algoritmo vai", disse Ligia Zotini, da Voicers, em sua palestra. Mas me parece que é mais que isso. Não é só uma questão de conhecer, mas de moldar maneiras de viver, cultivar visões. Não com ordens de um ditador, mas com uma ditadura silenciosa de dados, interações e imagens. Isso precisa estar colocado nas discussões, é essencial.

Espectadores fotografam desfile da Cavalera durante a SPFW, no Ibirapuera - NELSON ALMEIDA / AFP
Espectadores fotografam desfile da Cavalera durante a SPFW, no Ibirapuera
Imagem: NELSON ALMEIDA / AFP

Em sua masterclass, José Borbolla, da Branded Brain, fez boas observações, dizendo que a tecnologia não é neutra, que não beneficia as classes sociais da mesma forma. E, na mesma linha da colega, disse que as empresas em breve vão nos conhecer melhor que nós mesmos. Eu acrescentaria que sim, porque terão ajudado a criar boa parte dos nossos novos comportamentos e, pior, não só os de compra.

Vão nos conhecer melhor porque estarão ajudando a nos manipular de perto. É claro que o surgimento de novas tecnologias sempre impactou o mundo, seja a pedra polida, a agricultura ou o telefone celular. Mas estamos falando aqui de estratégias de controle muito específicas. Já temos essa intuição sobre a sugestão, a publicidade tradicional, o cinema, a moda, tudo isso nos ensinou alguns truques.

Um exemplo bobo: aquela vontade de súbita de tomar coca-cola porque vemos alguém na novela comendo hamburguer, e o bendito refrigerante estava em toda foto de hamburguer que vimos durante décadas. Isso é quase peça de museu.

Mas imaginem que essa relação pudesse ser estimulada individualmente, acompanhada de perto, todos os dias, o quanto esse processo poderia ser enriquecido com mais dados adicionados, com milhões de microescolhas, tudo confrontado, de forma a tornar a sua decisão mais aparentemente orgânica, livre e não influenciada? É isso que está em curso. E não estamos falando só de roupa e bombas de açúcar ou adoçante.

Mas o que a moda tem a ver com isso além da questão das vendas? A moda, não como criação individual mas como sistema, ajuda a naturalizar as coisas. A moda ainda ajuda a desejar certas coisas e eleger certas coisas como boas. E inclusive pode hypar "novidades", torná-las mais palatáveis ao público sem explorar o lado mais feio da coisa. Além do mais, isso impacta diretamente na criação. Os dados são o novo chefe, e isso tem consequências. Embora, dentro de um limite, eles tragam ótimos resultados, quando se trata de criatividade, eles também atuam como achatadores em cadeia.

Por que a finalidade de tudo isso, não vamos esquecer, é gerar resultados. O que significa gerar dinheiro e poder. E nem tudo no mundo foi feito para isso. É o que, entre coisas, diferencia um ser humano, uma sociedade e suas instituições, de uma empresa. E na moda, será que estamos dizendo que tudo nela é empresa? É uma boa questão.

Hacker aqui

Na abertura do evento, Roberto Martini, da Flagcx, disse que no futuro próximo não vamos saber distinguir quem é robô ou humano. A questão aqui não é dizer que a fala é absurda ou visionária. Pelo contrário, as coisas nesse sentido caminham a passos largos e existe uma farta, vasta e importante discussão sobre as implicações disso.

Total objetivação de nossos códigos genéticos, download cerebral para uma máquina (considerando que todo o conteúdo do cérebro em sua complexidade possa ser mapeado e transferido como um software), ligação direta entre cérebro e máquina. Vamos pensar na frase de Martini. Nossa imaginação já moldada por filmes, séries, heróis e afins nos faz pensar em algo tipo Blade Runner.

Os robôs humanoides são iguais aos humanos, só por truques ou diferença mínima podemos saber quem é quem. Mas compartilhamos uma realidade, mantemos nossa humanidade, embora confrontada com, sei lá, clones. É como identificar bots nas redes, só que num nível amplificado. E mesmo aí podemos perguntar se eles teriam direitos etc.

Agora vamos mais longe. E é de ficar no chão saber da variedade de modelos que estão sendo pensados nesse sentido (implante neuronal de microbots, névoa útil para projetar realidades alternativas etc). E mais no chão ao saber que não é só doideira, as bases materiais para isso estão em pauta de maneira organizada, porque as teóricas já existem. No caso dos implantes neuronais estamos falando de ligar máquina e cérebro diretamente de maneira a criar uma realidade com pensamentos e a máquina saber diretamente o que eu penso.

Não significa conviver com robôs, mas perder a distância entre o que somos e a realidade, o dentro e o fora, o que está no fundamento de nossa própria humanidade. Não saberíamos distinguir entre robôs e humanos porque não seríamos mais humanos. Em última instância, sequer precisaríamos mais de corpos.

Mesmo que a gente admita que desde sempre a realidade é estruturada de certa maneira como ficção, isso é uma outra coisa muito diferente. Estou levando as ideias às últimas consequências porque é nesse ponto que as discussões estão em outros meios.

Existe a piada de que vamos deixar o que sobrar do mundo para o capitalismo e os robôs. Espero que eles gostem de água podre, esculturas de lixo e vaporwave. O mercado de moda está pronto para discutir as implicações éticas e filosóficas de tudo isso?

O que parece bastante problemático também é botar o futuro como destino. Não se trata de ser poliana nem de ignorar o que já se desenha ou está em curso. Mas de pensar que estamos vivos, que talvez possamos mudar esses rumos ou pelo menos pensá-los de maneira mais honesta e responsável. Nos casos mais extremos, ainda há uma longa estrada pela frente.

A definição de humano têm resistido à objetivação total. Tem muita coisa sobre nós que os cientistas tentam mas não conseguem isolar em nossos genes. Mas estamos falando de pesquisas e projetos de mundo. E no nosso mundo, hoje, agora, corporações não só nos mapeiam mas trabalham para manipular quem somos e como vivemos para melhor nos controlar. Talvez seja prudente sermos mais atentos e menos deslumbrados.

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