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Para tudo e vem conhecer o choque de sofisticação de Ângela Brito na SPFW

Desfile da grife Angela Brito durante a São Paulo Fashion Week  - Rodrigo Moraes - 16.out.2019/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO
Desfile da grife Angela Brito durante a São Paulo Fashion Week
Imagem: Rodrigo Moraes - 16.out.2019/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO

Vivian Whiteman

Colaboração para Universa

17/10/2019 13h51Atualizada em 17/10/2019 13h51

A complexidade do pensamento é talvez o maior dos luxos humanos. Ela é bastante acessível, embora poucos tenham levado seu exercício a níveis extremos, tenham dedicado suas vidas a registrar indagações e teorias sobre o que é afinal estar vivo.

Na onda das pessoas-empresa, do mundo-resultado, em que a criatividade é achatada num triste tipo, o "criativo", e em que humanos capazes de tantas sutilezas ajoelham diante da vulgaridade do algoritmo nada como ver alguém brisar com classe.

Ângela Brito é uma estilista que desfilou ontem na SPFW. Ela nasceu em Cabo Verde e se estabeleceu no Rio, mora lá há mais de 20 anos. Sua moda conta, também, histórias de sua origem, que ela enxerga para além da indumentária tradicional e da estamparia clássica de cada um dos países africanos. E certamente muito além do termo grosseiro "étnico", que é usado em associação racista para definir tudo o que não vem da cultura considerada branca.

A coleção de Angela é sobre o blues. Sobre a improvisação do blues. Gênero nascido nas comunidades negras no pós-abolição nos EUA, tem origens na música africana e nos spirituals, cantos religiosos afro-americanos.

Ele não é, como muitos acham, uma improvisação qualquer, não é "roots" no sentido também racista de tosco, sem sofisticação. É refinado, muito, muito chic. O nome blues tem a ver com "blue devils", tristeza, depressão.

Desfile da grife Angela Brito na semana de moda SPFW N48, realizado no Parque Ibirapuera, em Sao Paulo - ISHIBASHI -16.out.2019/FRAMEPHOTO/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO - ISHIBASHI -16.out.2019/FRAMEPHOTO/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO
Imagem: ISHIBASHI -16.out.2019/FRAMEPHOTO/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO
Enquanto o blues era considerado música do demônio -rejeitada pelo público de elite, que depois achou o diabo charmoso quando o rock tomou as bases do estilo e ficou branco, seus criadores falavam de vidas perseguidas por demônios muito reais. A pobreza, a segregação, a dor, o desamparo.

O blues tem harmonia diferente da música tonal convencional. Existe uma certa base estrutural, mas o gênero é variado porque foi sendo moldado, e moldado pelas sutilezas de performers individuais.

Mesmo a estrutura das chamadas blue notes é especial: são notas tocadas e cantadas com um pitch ligeiramente diferente do standard. Esse diferente, geralmente é mais baixo, mas não tem só um jeito de ser mais baixo, sabe? Nossa, muito chic.

A roupa de Ângela é assim. A gente vê uma base. Isso tudo que já disseram dela, que tende ao minimalismo. Mas tem o improviso. As blue notes do estilo dela. Um pensamento complexo, um jeito de existir complexo. Onde às vezes sobra e sempre falta. E essa falta ela não fica o tempo inteiro tentando enfeitar, não é viciada em mudança nem em rapidez.

Ângela entende que mudanças significativas demandam tempo. E disso sai cada vestido lindo. A galera anda se emocionando muito com mecanismo de busca, mapeamento de consumo e memes da Gretchen.

O problema não são os temas em si, muito relevantes (memes inclusive), mas falar deles deslumbradamente, sem crítica nem complexidade de pensamento. Na boa, para tudo e vai ouvir um blues.

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