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Mulher Sem Vergonha

Blinde-se: por que na internet as pessoas são tão maldosas com as mulheres

Um bom jeito de não se ferir com o ódio na internet é não ouvi-lo - iStock
Um bom jeito de não se ferir com o ódio na internet é não ouvi-lo Imagem: iStock
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colaboração para UNIVERSA

14/10/2019 04h00

A atriz Cleo Pires é atacada na internet. Motivo? Ela engordou. Sim, ela não fez nada contra ninguém, nem deu uma declaração polêmica. Ela apenas ganhou peso, um assunto que deveria caber só a ela. Mas, como em geral acontece na internet com famosos (e não só com eles), ela está sob ataque, sendo chamada de gorda, feia (!) etc.

Semana passada foi Cleo. Na próxima, provavelmente será outra mulher. A internet, esse mundo maravilhoso, é também um lugar onde as mulheres, principalmente as que têm alguma voz ou fama, sofrem ataques de ódio diariamente.

Por que será? Bem, provavelmente porque a internet reflete o mundo, esse lugar que aos poucos vai mudando, mas onde mulheres ainda não podem envelhecer em paz, são cobradas pelos seus corpos, viram manchete se exibem celulite, precisam estar depiladas...

Chamar a Cleo, por exemplo, de gorda, na rua, requer muita coragem. Gritar na internet, protegido, em casa, é muito fácil.

Para quem é mulher e escreve na internet também não é fácil, assim como para qualquer uma que tenha opinião. Discordar é saudável. Normal. Mas, muitas vezes, quando escrevemos algo que não agrada uma parcela dos leitores, somos chamadas de loucas, feias, mal amadas... e por aí vai.

Você já viu um homem ser chamado dessas coisas porque falou algo que alguém discordou? Pois é. Nem eu. E não é impressão. É porque é raro mesmo. Os números mostram isso:

  • 73% das mulheres que usam a internet no Brasil já foram alvo de algum tipo de ataque, segundo a Comissão Banda Larga, da ONU.
  • 68% das vítimas de cyberbullying na internet são mulheres, diz a ONG Safenet.

Protegidos pelo anonimato, muitos usam as redes sociais para atacar. O gênero, novamente, faz com que a gente seja mais vulnerável. Afinal, como ousamos falar, pensar? Todos os preconceitos vêm a tona na internet. Não por acaso, gays também costumam ser vítimas nas redes.

Eu, que escrevo na internet há mais de 20 anos, meio que já me acostumei. Mas, como todas as pessoas que mexem com isso, tenho minhas medidas de precaução.

Por exemplo, com o tempo aprendi que era melhor para mim não ler comentários e nunca dar Google procurando meu nome. O que os olhos não veem, o coração não sente. Também não alimento os trolls. Se alguém me xinga, nunca respondo. Bloqueio. Quando é pesado demais, fecho todas as redes sociais e vou andar de bicicleta. Se já chorei por causa de ataques? Claro. Com o tempo, quase não me abalo. Porque ódio na internet é tipo pânico: sempre passa.

Depois de xingar uma pessoa e não ter resposta, os odiadores vão, em bando, tentar ferir outro. E assim segue o ciclo.

Claro que isso não é normal. Claro que as mulheres deveriam poder engordar à vontade ou dar opinião polêmica sem sofrer violência. Mas ainda não é o que acontece.

E o que vamos fazer? Continuar. Sim, quando alguém ataca, está querendo que a pessoa se cale, se esconda. Não vamos fazer isso. Mulheres continuarão tendo voz na internet e usando a rede até para fazer coisas que chocam os outros, como postar foto sem se depilar (nunca vou entender porque pelos incomodam tanto os outros). Como dizem os haters: "chora mais!". Apesar das pedradas virtuais, não vamos parar. Aceitem. Ou não.

Mulher sem Vergonha é um espaço em que mulheres poderosas expressam suas ideias, desejos e confiança sem nenhum tipo de constrangimento. Para inspirar uma vida livre de padrões e julgamentos.

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