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Museus de história natural viram cápsulas do tempo para a preservação de espécies

Alexei Tikhonov, diretor do Museu de Zoologia, entre os mamutes do museu de São Petersburgo, Rússia - James Hill/NYT
Alexei Tikhonov, diretor do Museu de Zoologia, entre os mamutes do museu de São Petersburgo, Rússia Imagem: James Hill/NYT

São Petersburgo (Rússia)

24/11/2018 04h00

Sozinho, alguns minutos antes que as portas fossem abertas no Museu Zoológico do Instituto Zoológico da Academia Russa de Ciências, Alexei Tikhonov olhava para Masha, um bebê mamute de 30 mil anos de idade que ele trouxe da Sibéria para cá há 30 anos.

Masha, uma das grandes atrações do museu, está entre centenas de outras peças de uma das maiores coleções públicas de espécimes em zoológicos do mundo. Os armários, projetados em Frankfurt no final do século 19, e os troféus de caça czaristas passam um ar antiquado, até mesmo romântico. Mas Tikhonov, o diretor do museu, não está muito preocupado.

Às vezes ele sonha com painéis de plasma e engenhocas modernas que muitos outros museus usam para informar os visitantes. Mas seus fundos para modernizar o museu são limitados, e ele prefere gastar o dinheiro comprando novas coleções e apoiando o trabalho de campo.

A coleção, iniciada com as aquisições de Pedro, o Grande há três séculos, está assumindo um papel novo e mais vital. Como o mundo animal está cada vez mais ameaçado, os itens do acervo estão ajudando a revelar informações e pistas genéticas preciosas para ajudar na sobrevivência das espécies.

Tigres Amur em exposição no Museu de Zoologia em São Petersburgo, Rússia - James Hill/NYT - James Hill/NYT
Tigres Amur em exposição no Museu de Zoologia em São Petersburgo, Rússia
Imagem: James Hill/NYT

O museu, como outros grandes museus de história natural, é "uma cápsula do tempo de organismos", disse Ross MacPhee, curador de mamíferos no Museu Americano de História Natural, em Nova York.

"Para certos tipos de estudos, como os de espécies ameaçadas e de perda da diversidade genética, isso está se tornando cada vez mais importante. Os museus de história natural são literalmente os únicos lugares onde você encontra restos de boa qualidade."

Perto de Masha, em um mostruário de aves de rapina, há dois condores da Califórnia. Provavelmente os espécimes mais antigos do mundo, foram levados para São Petersburgo por um colecionador em 1851 de Fort Ross, originalmente um posto avançado russo na Califórnia.

Quando os pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia começaram a buscar informações genéticas sobre a escassa população de condores da Califórnia nos Estados Unidos – atualmente há menos de 500 aves – a universidade pediu ajuda a São Petersburgo. Alguns meses mais tarde, uma pena de cada pássaro foi despachada para os cientistas estudarem.

Cada vez mais, o material genético é armazenado por museus e instituições zoológicas em amostras congeladas. Mas a informação recolhida de espécimes secos também é útil, disse Mikhail Kalyakin, ornitólogo e diretor do Museu Zoológico da Universidade Estadual de Lomonosov, em Moscou.

Para confirmar o destino do maçarico-de-bico-fino, por exemplo, os ornitólogos analisaram pistas do DNA encontradas na pele e no intestino de espécimes de museus, na tentativa de identificar o habitat tradicional da ave, ajudando a orientar a busca de indivíduos remanescentes.

"Quando as espécies estão ameaçadas, esperamos que no futuro, devido a esses esforços genéticos e novos métodos, seja possível restaurá-las", disse Tikhonov.

Mas ressuscitar o mamute, uma possibilidade geralmente citada, é um tipo de ideia completamente diferente.

A noção é que seu genoma poderia ser recuperado, pelo menos em parte, e introduzido de alguma forma em um embrião de elefante. Mas a ciência por trás de tal "desextinção" seria incrivelmente complexa.

Tikhonov, um dos principais especialistas em mamutes do mundo, rapidamente aponta as complicações.

"Não podemos, no momento, reconstruir um mamute sem cometer centenas ou milhares de erros", disse ele.

Um dos motivos é que o DNA antigo está muito fragmentado, notou o dr. Daniel C. Fisher, diretor do Museu de Paleontologia da Universidade de Michigan.

"Por essas e outras razões, a ideia de simplesmente recuperar o DNA antigo e uni-lo a células vivas para gerar zigotos é impraticável", disse ele.

A criação de mamutes híbridos não é apenas uma questão técnica. Onde esses mamíferos gigantes poderiam viver no mundo moderno, a não ser talvez na tundra siberiana? E como afetariam os ecossistemas existentes?

Por enquanto, esse debate continua a ser hipotético, mas poucos duvidam que a tecnologia para criar mamutes híbridos existirá em algum momento. "É um exemplo da engenhosidade humana superando as preocupações éticas", disse MacPhee.

De volta aos corredores do museu, Tikhonov logo se vê rodeado de alunos de uma escola. "O primeiro papel do museu é educar", disse em meio à multidão.

O Museu Zoológico recebe 300 mil visitantes por ano, e ele estava esperando quase sete mil naquele dia. No início da tarde, os guias já estavam exaustos, mas uma delas, Polina Kenunnen, conseguiu sorrir quando lhe pediram para levar mais um grupo de crianças em uma visita.

"Na internet, em geral, há muita besteira", disse ela enquanto marchava até as escadas em direção ao esqueleto de uma baleia azul e um busto de Charles Darwin. "Mas aqui, podemos realmente mostrar e ensinar as coisas como elas são."