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Em Davos, europeus defendem controle de gigantes da internet e acenam para Biden

Getty Images
Imagem: Getty Images

Vivian Oswald

correspondente da RFI em Londres

26/01/2021 18h35

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, defendeu nesta terça-feira (26) a ação conjunta e se diz contra a formação de blocos, seja com os Estados Unidos, seja com a China, as duas maiores economias do mundo.

Merkel afirmou que a pandemia deixou em evidência as vulnerabilidades do planeta e defendeu cadeias produtivas mais resistentes a choques como os provocados pela crise sanitária que varre o mundo desde o ano passado.

"A pandemia, que ninguém poderia prever em Davos no ano passado, mudou a forma como vivemos e fazemos negócios. Ela mostrou como estamos globalmente interligados, vivendo no mesmo planeta, e como ainda estamos vulneráveis à natureza (afinal, a doença veio de um animal)", explicou.

Embora ecoe as palavras enfáticas de Xi Jinping pelo multilateralismo, Merkel indiretamente se dissociou de uma visão chinesa de mundo, observando que é preciso discutir as diferentes interpretações do conceito e como os países, a partir de diferentes modelos sociais, o praticam.

"É preciso saber o que isso significa quando existem diferentes modelos. Quando a interferência começa e onde termina. Temos de discutir os sistemas sociais e as diferentes interpretações sobre o significado do multilateralismo. Não se trata apenas de coexistência de entidades sem vida. Estamos falando de sociedades constituídas por seres humanos", disse a líder alemã.

Transparência é fundamental

Neste cenário, ela afirmou que transparência é fundamental para que todos os parceiros entendam as regras do jogo.

"Transparência é um elemento importante do multilateralismo, para saber o que está acontecendo em um país, para saber se o comércio está acontecendo de acordo com as leis ou se um país está usando vantagens contra os outros. Isso leva a áreas de tensão", admitiu.

Ela não foi a única a acenar para o novo governo americano, ao elogiar a decisão de Joe Biden de levar os Estados Unidos de volta à Organização Mundial de Saúde (OMS) e defender a cooperação com Washington no debate sobre a taxação das gigantes da tecnologia junto à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Durante a gestão Trump, os americanos foram o principal obstáculo para o avanço das negociações.

Fake news

A presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, disse que os riscos da mídia digital já estavam na lista das preocupações de Davos no ano passado e ressaltou que os modelos de negócios das grandes empresas de tecnologia tiveram consequências sobre a democracia, lembrando que "as fake news correm cinco vezes mais depressa do que as notícias de verdade".

"Precisamos conter esse imenso poder das grandes companhias de tecnologia. O que é ilegal offline tem que ser ilegal online também. Queremos que as plataformas sejam transparentes sobre como os algoritmos trabalham. Não podemos aceitar que decisões que têm efeito sobre a democracia sejam tomadas por empresas. Queremos que elas tenham responsabilidade de publicação, de divulgação", destacou.

Von der Leyen disse ainda que a crise da Covid-19 ensinou que é preciso mudar a maneira de fazer negócios e deixou claro que, se o mundo não atuar urgentemente para proteger a natureza, a próxima pandemia estará "logo ali". Se as temperaturas continuarem a aumentar e a natureza a desaparecer, segundo ela, "vamos ver mais desastres e doenças zoonóticas".

"Se o argumento do mundo dos negócios for mais importante: mais da metade do Produto Interno Bruto (PIB) global depende de biodiversidade e do ecossistema, do setor de alimentos ao turismo", explicou.

Ela defendeu para a biodiversidade um entendimento global semelhante ao Acordo de Paris, firmado para o combate à mudança do clima. Von der Leyen também acenou para Biden: "Podemos passar a trabalhar juntos de novo depois de quatro longos anos", disse.

Não se pode pensar a economia sem seres humanos

Com alguns problemas técnicos na transmissão digital da sua participação, o presidente da França, Emmanuel Macron, também deu o seu recado para a necessidade de uma ação contra as mudanças climáticas e reiterou que não se pode pensar a economia sem os seres humanos.

"Fizemos algo impossível antes: paramos todas as atividades econômicas para salvar pessoas", destacou. Ele defendeu a reformulação das políticas de governo e das empresas para que todos passem a considerar o impacto social e climático de sua atuação. Macron afirmou que o planeta é vulnerável à pandemia e a eventos climáticos.

"A economia de amanhã terá que pensar em inovação e na humanidade. Ela terá que construir a competitividade com o desafio do clima, do corte das emissões. A economia vai ter que ser mais resistente e mais bem organizada", completou o presidente francês.