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Cidades, astrologia e mais: conheça origens curiosas de nomes de vírus

Este é o Vicosavirus; ele ganhou este nome por meio de uma homenagem ao município de Viçosa (MG) - Divulgação/UFV
Este é o Vicosavirus; ele ganhou este nome por meio de uma homenagem ao município de Viçosa (MG) Imagem: Divulgação/UFV

Daniel Leite

Colaboração para o UOL, de Juiz de Fora (MG)

11/07/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Não existe regra específica para dar nome a um vírus, apesar de alguns termos serem obrigatórios
  • Em MG, pesquisadores recorreram a uma cidade para nomeação: Vicosavirus
  • Nome é uma homenagem ao município de Viçosa, que serviu de base para os estudos
  • UOL listou outras origens curiosas de nomes de vírus famosos

Por mais que a medicina avance, os vírus sempre aterrorizam e assustam o mundo todo. A gripe espanhola, por exemplo, fez 50 milhões de vítimas entre 1918 e 1920. Já a varíola, só na Europa, tirou a vida de 60 milhões de pessoas no século 18. E a temida Aids, há dois anos, deixou 940 mil pessoas mortas, de acordo com relatório da UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS.

Em comum, todos esses males foram causados por vírus, que são organismos simples, sem célula, formados por material genético e envoltos por uma capa proteica. Não tem jeito: é só ouvir falar deles e já nos lembramos de viroses, gripes e muitos outros problemas de saúde. Porém, o vírus não é sinônimo somente de notícias ruins. As descobertas deste tipo de organismo são comemoradas pela classe médica, pois os vírus podem contribuir com avanços no campo da saúde, aperfeiçoando tratamentos e prevenindo doenças.

Mas como dar nome a um ser microscópico? Não há uma regra específica para definir como ele será chamado. Existe, no entanto, um esquema que precisa ser seguido com relação à ordem, família, subfamília, gênero e espécie viral, bem como alguns procedimentos científicos (como a grafia em itálico).

Cidade homenageada

Em Minas Gerais, pesquisadores seguiram essas normas e recorreram ao nome de uma cidade para nomear um gênero de vírus que ajuda a melhorar a produtividade e qualidade do leite. O grupo chamado de Vicosavirus homenageia a cidade de Viçosa (MG), onde fica a UFV (Universidade Federal de Viçosa), e é formado por dois vírus, sendo que um deles também carrega um tributo ao local: Pseudomona virus UFV-P2.

O Vicosavirus combate uma bactéria que se multiplica mesmo no leite transportado sob refrigeração: ela produz enzimas resistentes a tratamentos térmicos, quebrando as proteínas e gorduras. O leite, então, coagula e fica com um forte odor, gosto ruim e aparência estranha, com nata ao fundo.

Responsável por descobrir e "batizar" o vírus ao lado de cinco pesquisadores, Monique Renon Eller, do Departamento de Tecnologia de Alimentos da UFV, diz que Vicosavirus surgiu do apego do grupo - formado por praticamente estudiosos de outras regiões - ao município. "Eu sou capixaba, mas me apaixonei por Minas e Viçosa é muito acolhedora. É mais do que justa a homenagem", diz.

A homenagem é só um exemplo entre várias histórias. O UOL reuniu alguns casos curiosos:

Tupanvirus

Dois vírus descobertos no ano passado no Brasil assustaram a comunidade científica devido ao tamanho e complexidade genética. Eles foram batizados de Tupanvirus, homenagem ao Deus da mitologia guarani, após serem encontrados em lagos do Pantanal, no Mato Grosso do Sul, e nas profundezas do oceano (a três mil metros de profundidade), na Bacia de Campos (RJ).

Febre de Marburg

Marburg é o nome de uma pequena cidade da Alemanha onde este vírus foi identificado pela primeira vez, em 1967. Ele provoca febre hemorrágica, convulsões e sangramentos de mucosas, da pele e dos órgãos. Não há tratamento específico e em até 90% dos casos a pessoa morre.

Influenza

O Influenza causa doença respiratória aguda contagiosa. Estima-se que só na Europa, no Japão e nos Estados Unidos, mais de 100 milhões de pessoas ficam doentes por causa dele a cada inverno. No mundo, as estatísticas apontam para cerca de 10% da população com algum quadro de influenza, cujo nome, criado no século 16, deriva da suposta influência astrológica sobre a saúde humana.

Lyssavirus (Raiva)

O vírus da raiva recebeu esse nome na Grécia porque, na língua nativa, "Lyssa" quer dizer loucura ou demência. É uma doença conhecida desde a antiguidade que acomete cães e humanos, tornando-os, no popular, loucos. Já o termo "raiva" pode ter duas origens: no latim "rabere" (fúria ou delírio), ou do sânscrito "rabhas" (tornar-se violento).

Sabiá

O Sabiá é um vírus que causa febre hemorrágica. Foi detectado pela primeira vez no Jardim Sabiá, em Cotia (SP), no ano de 1990, quando matou uma mulher. Seus rins e fígado foram atacados. Os estudos sobre o vírus envolveram até pesquisadores internacionais, coordenados por uma equipe brasileira. Ele desapareceu sem ter sua origem explicada.

Kitaviridae

Em abril deste ano, a Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) descobriu um vírus que causa uma doença transmitida por ácaro em plantações de citrus, reduzindo a produção e vida útil, principalmente, de laranjeiras doces. Como o vírus descoberto não tinha uma família para agregar-se a ele, formou-se um novo grupo que levou o nome de Kitaviridae. Foi uma homenagem a Elliot Kitajima, professor convidado do Departamento de Fitopatologia e Nematologia da Esalq em Piracicaba (SP). Kitajima é reconhecido pelo pioneirismo em trabalhos com vírus transmitidos por ácaros.

Marabá

Descoberto em Marabá (PA), o vírus homenageia a cidade de 275 mil habitantes e faz parte de estudos de combate ao HIV por destruir células infectadas. O vírus foi isolado pela primeira vez na cidade paraense em 1983.

Lassa

O Lassa causa febre hemorrágica e foi primeiramente identificado na cidade de mesmo nome, na Nigéria, em 1969. A doença atinge principalmente o oeste africano, em especial, além do país de origem, Serra Leoa, Guiné e Libéria. A doença é causada especialmente pelo contato com objetos contaminados pela urina, saliva ou pelas fezes de ratos. A taxa de mortalidade da febre de Lassa é considerada baixa, em torno de 1%.

Zika

Zika é o nome de uma floresta em Uganda, na África, onde o vírus foi isolado em macacos no ano de 1947. No Brasil, é transmitido pelo Aedes aegypti - sim, o mesmo vetor da dengue. Possivelmente foi introduzida no Brasil por turistas que vieram assistir a Copa do Mundo de 2014. Neste ano, são mais de 1,3 mil casos confirmados.

Dengue

De origem espanhola, o termo dengue quer dizer melindre ou manha. É como a pessoa fica ao ser infectada pela doença, transmitida por mosquitos e que afeta até 100 milhões de pessoas por ano no mundo. Em 2019, no Brasil, o vírus da dengue matou mais de 360 pessoas.

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