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Evento leva ciência para a mesa de bar em 85 cidades brasileiras

Na mesa do bar, 1.200 cientistas vão falar sobre câncer, vacinas, buracos negros e mais - Divulgação
Na mesa do bar, 1.200 cientistas vão falar sobre câncer, vacinas, buracos negros e mais Imagem: Divulgação

Tatiana Pronin

Colaboração para o UOL, em São Paulo

21/05/2019 16h10

Transformar física de partículas ou interface cérebro-máquina em conversa de botequim parece impossível, mas um grupo cada vez maior de pesquisadores e donos de bar, no Brasil, tem provado que não é. O Pint of Science, presente em 24 países, chega à sua quarta edição, por aqui, como o maior do mundo. De segunda (20) a quarta-feira (22), 1.200 cientistas vão falar sobre câncer, vacinas, buracos negros, antimatéria, mudança climática, fake news, genética e vários outros temas em um total de 250 estabelecimentos espalhados por 85 cidades de Norte a Sul.

"A gente se surpreendeu por o evento ter ficado tão grande", orgulha-se a bióloga Natalia Taschner, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora nacional do festival no Brasil. A Espanha ficou em segundo lugar, com 72 cidades, e a Inglaterra - berço do Pint, em terceiro. O gosto pela boemia pode explicar a boa adesão nos três países, mas Natalia também acha que há outro tipo de sede em jogo: "O brasileiro é muito curioso, as pessoas querem saber sobre ciência, mas não têm acesso", acredita.

A bióloga e coordenadora de divulgação nacional do festival Sylvia Maria Affonso, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), comemora o fato de o Pint ter saído das principais capitais, que concentram o maior número de instituições de ensino e pesquisa, e ter alcançado estabelecimentos mais inusitados este ano. "Vai de Bragança, no Pará, até Alegrete, no Rio Grande do Sul", comenta. "E em São Paulo tem de padaria a espaço cultural", acrescenta. Vale mencionar que os cientistas e coordenadores não recebem remuneração, e o público só paga o que consume nos bares e restaurantes envolvidos.

Do laboratório para o bar

Quem trouxe o Pint of Science para o Brasil foi outra mulher, a jornalista Denise Casatti, do Instituto de Ciências Matemáticas e Computação, da USP. Em 2015 ela decidiu testar, em São Carlos (SP), a ideia concretizada três anos antes pelos pesquisadores Michael Motskin e Praveen Paul, do Imperial College London. Os ingleses tinham um projeto que consistia em levar pacientes com doenças neurodegenerativas para conhecer de perto as pesquisas feitas no laboratório em que atuavam. O interesse era tão grande que eles decidiram fazer o inverso - levar a ciência para fora da instituição, em locais e horários mais convidativos e, claro, com linguagem acessível. Deu tão certo que, semana que vem, haverá gente fazendo perguntas sobre antimatéria e imunoterapia entre goles de cerveja e tiras de batata frita em vários cantos das Américas, África, Ásia e Oceania.

Palestrantes de encontros anteriores garantem que mesmo assuntos difíceis, como explicar para que serve um colisor de partículas, podem ficar apetitosos como futebol. "A grande dificuldade de falar de um tema 'hard' de física é que é um assunto desconectado do dia a dia das pessoas, não é tão intuitivo como falar sobre por que uma pedra cai", relata Alexandre Suaide, professor do Instituto de Física da USP que participa de um experimento com o LHC (Grande Colisor de Hádrons), na Suíça. "Na sala de aula você pode abusar da matemática, mas no bar é preciso usar outra linguagem, então a gente tenta buscar analogias", conta o professor, que na terça volta a falar sobre partículas elementares e a origem do Universo. Comparar o LHC a uma pista para testes de segurança de carros, ou lembrar que no corpo humano existem mais átomos do que estrelas no Universo conhecido tornam o assunto mais atrativo e palatável para o público.

Do açaí aos ciborgues

O médico oftalmologista Paulo Schor, coordenador da pró-reitoria de pós-graduação e pesquisa da Unifesp, diz que a iniciativa coincide com a proposta da instituição, que é de se deixar pautar pela sociedade e também prestar contas, não só com desenvolvimento científico e tecnológico, mas também com a divulgação do que é feito. "Esses locais que são relativamente inusitados nos parecem muito adequados para que isso aconteça", opina.

No ano passado, o oftalmologista falou sobre o uso do açaí no tratamento do ceratocone, uma doença que tem prevalência maior em quem coça muito os olhos. Este ano sua palestra é sobre a robotização da medicina, que tem gerado receios, como o de que a inteligência artificial possa substituir o médico. Participam com da mesa Luiz Eugenio de Mello, do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino, e Jean Faber, físico com experiência em sistemas de interface cérebro-máquina. Esse ramo da ciência abre caminho para próteses mais eficientes para quem sofre de deficiência, ao mesmo tempo em que leva a questionamentos sobre a eventual potencialização de funções biológicas. "A discussão é muito necessária e existem avanços importantes que precisam ser trazidos à tona", acredita Schor.

Por uma ironia do destino, o festival, este ano, acontece num momento em que o país questiona o papel da ciência e o conhecimento produzido pelas universidades, como observa Alexandre Suaide. "É importante lembrar que o principal diferencial do ser humano é a curiosidade; aprender sobre a natureza é o que fez a gente sobreviver no planeta, pois não temos qualquer vantagem física sobre os nossos predadores", pondera. Ao lembrar que o WWW (World Wide Web) surgiu da simples necessidade de alguns pesquisadores de partículas compartilharem informação, na década de 1980, ele enfatiza que até coisas que parecem não ter importância para nós, agora, podem gerar algo revolucionário no futuro.

Veja a programação em cada cidade no site do Pint of Science Brasil.

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