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Acaso calculável: como a ciência explica as coincidências?

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Imagem: Getty Images

Marcelle Souza

Colaboração para o UOL, em São Paulo

22/04/2019 04h00

Você acaba de conhecer uma pessoa e descobre que os dois fazem aniversário no mesmo dia, que têm o mesmo nome ou vários amigos em comum. Quem nunca se surpreendeu com as coincidências da vida?

Há quem goste de dar a elas explicações divinas ou sobrenaturais, mas a verdade é que boa parte desses acasos são facilmente explicados pela ciência.

Não existe uma razão profunda por trás da ocorrência do acaso, é somente uma questão de probabilidade, que dá inclusive para calcular matematicamente
Marcelo Takeshi Yamashita, diretor do Instituto de Física Teórica da Unesp

Ele explica que a probabilidade de que pelo menos duas pessoas, em um grupo de 15, façam aniversário no mesmo dia é de 25%. As chances ainda aumentam para 97% em uma turma de 50 indivíduos.

"A definição de coincidência é a ocorrência de dois ou mais eventos simultaneamente", diz Yamashita.

Por exemplo, ao jogar dez dados para o alto, qual seria a chance de todos caírem com o número 6 virado para cima? "A probabilidade é pequena, mas se você faz muitas jogadas, algum dia as dez faces apresentarão o número 6", explica o professor.

Nesse caso, quanto mais tentativas, maior é a possibilidade de que a coincidência aconteça.

Teoricamente, o mesmo vale para quem ganha duas vezes na loteria, por exemplo. "Isso é improvável, mas não impossível", diz o professor Fernando Lang da Silveira, do Instituto de Física da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), ao se lembrar do pai, que ganhou duas vezes consecutivas a rifa de um automóvel que o time de sua cidade fazia anualmente nos anos 1960.

"Estas probabilidades dependem também do investimento em apostas", explica.

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Nem tudo são números

Até aqui, tudo bem. A matemática consegue indicar qual é a chance de um fato ocorrer, mas não diz o porquê isso aconteceu logo com você.

"A ciência não explica tudo. Existem eventos para os quais o máximo que se consegue é estipular suas probabilidades", diz Silveira.

Fora do terreno dos cálculos, os cientistas já sabem que é preciso considerar que há uma dose de egocentrismo nas coincidências. Isso porque as pessoas tendem a achar que aquilo só acontece com elas --mesmo que não seja bem assim.

Além disso, um mesmo evento pode ter significados diferentes dependendo do indivíduo. Exemplo disso é um estudo realizado pelo professor David Spiegelhalter, da Universidade de Cambridge, que reuniu e analisou 4.470 histórias de coincidências. O resultado mostrou que a maior parte dos relatos tinham palavras relacionadas a familiares ou amigos, o que mostra que as pessoas são mais propensas a notar acasos envolvendo entes mais próximos.

Ainda de acordo com a pesquisa, os cinco tipos mais comuns de coincidências relatas foram:

  • Ter a mesma data de aniversário de alguém (11%)
  • Conexões envolvendo livros, TV, rádio ou notícias (10%)
  • Relacionadas às férias (6,1%)
  • Conhecer pessoas em trânsito - andando por aí, em aeroportos ou em transporte público (6%)
  • Relacionadas ao casamento ou aos sogros (5,3%)

Nesse sentido, vale dizer que não só a probabilidade, mas também a psicologia tem explicações para as coincidências.

O psicanalista Carl Gustav Jung, por exemplo, descreveu o conceito de sincronicidade, que é uma "coincidência significativa".

"Certas coincidências parecem ultrapassar o que seria esperado de um mero fenômeno probabilístico, primeiramente e antes de mais nada porque significam algo para alguém", diz o médico Ricardo Pires de Souza, presidente do Instituto Junguiano de São Paulo.

Para Jung, uma coincidência significativa pode ser explicada, entre outros níveis, por processos do inconsciente. Daí que uma ocorrência pode ser entendida como sorte, infelicidade, anúncio profético ou mais um fato incompreensível e sem importância.

"Muitas pessoas atribuem à ideia da sincronicidade uma tentativa de Jung de validar o sobrenatural, mas ele professava uma postura agnóstica. Ele observava que existe um conhecimento científico que tem méritos e limitações, mas que para cada pessoa existe uma realidade viva que nasce nas profundidades de si mesmo, e isso não é passível de ser dissecado por ciência alguma", afirma o médico e analista.

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