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Livros, Wikipédia e David Copperfield: o que tem na 1ª biblioteca da Lua?

Lua recebeu sua primeira biblioteca por acidente, quando um módulo espacial israelense que deveria pousar no satélite acabou se colidindo com isso - Gaston De Cardenas / AFP
Lua recebeu sua primeira biblioteca por acidente, quando um módulo espacial israelense que deveria pousar no satélite acabou se colidindo com isso Imagem: Gaston De Cardenas / AFP

Helton Simões Gomes

Do UOL, em São Paulo

18/04/2019 04h00

Israel não se deu muito bem ao tentar pousar seu módulo espacial Beresheet na Lua. Se a alunissagem não virasse uma desastrosa colisão, o país teria entrado para o seleto grupo das nações que fincaram sua bandeirinha no satélite - o clubinho formado por Estados Unidos e Rússia foi engordado neste ano pela China.

Apesar de mal sucedida do ponto de vista espacial, a missão israelense conseguiu atingir outro objetivo inesperado: sem querer, instalou a primeira biblioteca na Lua. Com 30 milhões de páginas, a Biblioteca Lunar contém registros da história da humanidade e da civilização, livros, músicas e uma réplica de páginas na internet. Além disso, guarda também os segredos de personalidades e celebridades que marcaram a vida cultura na Terra. Se você der uma passadinha pela Lua, poderá conhecer, por exemplo, o que está por trás dos truques de mágica de David Copperfield.

A biblioteca da Lua

A Beresheet era fruto de uma parceria conjunta entre uma empresa privada israelense, a SpaceIL, e a estatal Indústria Aeroespacial de Israel (IAI). Sem tripulação, o módulo espacial fazia parte da primeira missão espacial de Israel e tinha apenas um intuito científico. Iria medir o campo magnético da Lua e enviar as informações para a Terra, juntamente com imagens e vídeos da superfície lunar.

Só que o que era para ser um pouso suave virou uma colisão devido aos problemas nos motores. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, acompanhou o fracasso da base aeroespacial. Ainda esperançoso, ele disse que uma nova tentativa será feita em breve.

SpaceIL e IAI toparam levar a bordo da espaçonave alguns arquivos digitais. Eles estavam guardados em 25 misteriosos discos de níquel. Os dispositivos são do tamanho de DVDs, mas muito mais sofisticados, porque são feitos com nanotecnologia capaz de armazenar grandes quantidades de dados. São esses discos que guardam a Biblioteca Lunar.

A ideia da biblioteca é da Arch Mission Foundation, uma organização sem fins lucrativos que tem o seguinte propósito:

Manter um backup do planeta Terra, desenhado para continuamente preservar e disseminar os mais importantes conhecimentos da humanidade através do tempo e do espaço

Modesto, não? Outro detalhe bem nerd sobre a organização é que seu nome foi baseado em uma das obras mais memoráveis do escritor Isaac Asimov, a série" Fundação" -- de maneira bem resumida, a trilogia conta a história de um cientista que, prevendo a destruição da humanidade, elabora um plano para preservar de alguma forma o conhecimento adquirido ao longo da história humana.

A Arch Mission já enviou uma versão de sua biblioteca ao espaço. Ela foi colocada no porta-luvas do carro que Elon Musk mandou para o espaço no ano passado. Para a missão rumo à Lua, no entanto, a Arch Mission contou com a ajuda da NanoArchival para criar os discos de nanotecnologia.

Um deles armazena a cápsula do tempo de Israel, que contém, entre outros registros, a Torá, o livro sagrado para os judeus, os registros históricos mantidos no Memorial do Holocausto, desenhos feitos por estudantes israelenses, uma cópia do hino nacional e uma bandeira de Israel.

Disco com nanotecnologia usado para armazenar os arquivos da Biblioteca Lunar, que foi enviada para a Lua - Bruce Ha/Arch Mission Foundation
Disco com nanotecnologia usado para armazenar os arquivos da Biblioteca Lunar, que foi enviada para a Lua
Imagem: Bruce Ha/Arch Mission Foundation

Outros dos documentos presentes na biblioteca são:

  • 12 mil páginas sobre temas cruciais da enciclopédia virtual Wikipédia;
  • projeto Rosetta, que contém registros de quase 7 mil línguas e dialetos falados no mundo;
  • instruções para aprender inglês;
  • seleção de 57 mil livros, organizada preparado pelo Projeto Gutemberg (os títulos já caíram em domínio público);
  • registro de todas as páginas na internet, compiladas pelo Internet Archive;
  • informações do World Factbook, que reúne dados sobre história, pessoas, governos, economia, geografia, comunicações e de transporte de 267 entidades mundiais;
  • mapas e bandeiras de todo mundo;
  • 60 mil páginas de livros, fotografias, ilustrações e documentos.

Segredos mágicos

Também há segredos fornecidos por personalidades. Ainda que a Arch Mission Foundation tenha preferido não revelar a identidade dessas pessoas, uma delas resolveu falar: David Copperfield. O mágico gravou os segredos de seus truques e incluiu os registros na biblioteca. Ele fez questão de divulgar sua participação em um comunicado distribuído à imprensa.

Quando eu fui apresentado à Arch Mission Foundation, eu fiquei imediatamente apaixonado pela missão de preservar nossa civilização e com a possibilidade de que poderíamos fazer isso juntos
David Copperfield, mágico

Ele conta que, pessoalmente, a ideia de viajar à Lua sempre o encantou:

Um dos meus heróis é George Méliès, um dos pais do cinema moderno e também um grande mágico. Seu filme mais famoso foi 'Viagem à Lua', que em 1902 já vislumbrava pessoas pousando na Lua. Isso inspirou gerações de cientistas a atingir isso de fato, e 70 anos depois nós finalmente pousamos na Lua. Agora, 50 mais tarde, nós estamos levando mágica à Lua

Apesar de a aeronave Beresheet ter se colidido com a Lua e não ter conseguido pousar apropriadamente, os 25 discos que contêm a Biblioteca Lunar são feitos de um material resistente o suficiente para ter resistido à queda. A Arch Mission Foundation aposta nessa hipótese:

Nós instalamos a primeira biblioteca na Lua ou instalado as primeiras ruínas arqueológicas de uma tentativa humana de construir uma biblioteca na Lua

Onde foi parar?

O problema é que a Arc Mission não sabe onde os arquivos da Biblioteca Lunar foram parar. Para resolver o impasse, começou uma busca pelos discos e pediu a colaboração de curiosos. Por isso, liberou as especificações técnicas e os dados da colisão junto com suas pesquisas e projeções de onde a espaçonave pode ter caído -- quer ajudar? veja aqui.

A organização até criou uma hashtag para que os interessados na busca interagirem: #FindTheLunarLibrary (Ache a Biblioteca Lunar).

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