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Já nascem sem presa! Caça predatória altera processo evolutivo de elefantes

O comércio ilegal de marfim está afetando drasticamente os elefantes - picture-alliance/blickwinkel/P. Espeel
O comércio ilegal de marfim está afetando drasticamente os elefantes Imagem: picture-alliance/blickwinkel/P. Espeel

Gabriel Joppert

Colaboração para o UOL, em São Paulo

28/03/2019 13h26

A ação ilegal de caçadores está afetando de forma sensível a evolução de várias comunidades de elefantes na África e na Ásia. Em artigo recente da National Geographic, a pesquisadora Joyce Poole, uma das principais especialistas no comportamento de elefantes no mundo, confirmou que cada vez mais animais, principalmente fêmeas, estão desenvolvendo presas menores ou nascendo sem presas.

Poole observou que, entre elefantes fêmeas selvagens no continente africano, a porcentagem de indivíduos que nascem sem as presas de marfim está entre 2 e 4%. Na população de elefantes do Parque Nacional de Gorongosa, em Moçambique, onde a caça predatória despontou durante a Guerra Civil terminada em 1992, este número chegou a 32% entre as fêmeas de até 24 anos.

Como os elefantes com presas menores e as fêmeas sem presas não são alvos dos caçadores, estes indivíduos puderam sobreviver, reproduzir e passar as características adiante. Nos machos, a ausência total não ocorre, mas as presas crescem menos. Discrepâncias similares apareceram em estudos feitos com populações sujeitas a este tipo de predação na África do Sul, Uganda, Tanzânia e Zâmbia.

Apesar da importante perda, estas gerações parecem conseguir sobreviver normalmente em seus habitats. As presas dos elefantes evoluíram originalmente de dentes incisivos superdesenvolvidos que ofereciam uma vantagem competitiva para a busca de alimentos ou na hora de encontrar parceiros para acasalar.

Em muitos países da África e da Ásia estas presas são vendidas por valores estratosféricos no mercado clandestino por suas supostas propriedades medicinais. Na China, onde se acredita que esta parte do elefante tenha potencial de curar doenças diversas e ajudar com a impotência, o marfim é conhecido como "ouro branco".

Pesquisadores agora procuram entender melhor como a falta de presas afeta os modos de vida da espécie e quais implicações genéticas isso pode ter a longo prazo.

Ciência