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À deriva no oceano? Veja por que beber água do mar causa desidratação

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Fernando Cymbaluk

Do UOL, em São Paulo

28/09/2018 04h01

Não é nada fácil sobreviver à deriva em alto mar. O Sol queima a pele impunemente, não é fácil conseguir comida e toda a água que rodeia o náufrago não serve para matar a sede. O que fazer em tal situação?

Vamos por partes. Primeiro, entendendo por que não é recomendável beber a água do mar. O problema está na concentração de sal -- muito mais alta que a do nosso organismo. Quando bebemos água muito salgada, por mais contraditório que pareça, nós, na verdade, acabamos desidratados.

Isso se deve a um processo chamado osmose: a água do mar (ou qualquer mistura salgada) 'rouba' a água presente nas células do nosso corpo, numa tentativa de equilibrar a concentração de sal de dentro e de fora das células. "Tomar água salgada levaria à morte em um ou dois dias, dependendo da quantidade de água ingerida", diz João Pitoscio Filho, coordenador de química do Grupo Etapa.

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Mas dá para filtrar a água com facilidade? Um jovem que ficou 49 dias à deriva no Oceano Pacífico disse ter sobrevivido usando suas roupas para filtrar impurezas da água do mar. Ele pode ter feito de tudo com a água, menos tirar o sal com essa técnica.

"É absolutamente impossível filtrar a água do mar usando a roupa", diz o químico Carlos Cerqueira. Ele explica que o sal dissolvido na água está na forma de íons, que possuem o tamanho de átomos. "Os íons passam pelos orifícios da roupa junto com as moléculas de água", completa.

Assim, a filtração só serviria para reter partículas sólidas. Para beber água sem sal, um náufrago poderia tentar evaporar a água do mar em algum recipiente (como um saco plástico), coletar o vapor e beber a água condensada. Esse processo, chamado de destilação, separa a água do sal porque o sal não evapora junto com a água.

Naufrágio 2 - Getty Images - Getty Images
Evaporar água salgada e coletá-la com algum suporte é forma mais simples de dessalinização
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Há outros processos de dessalinização. Um deles é a osmose reversa, uma espécie de filtragem, mas que requer aparelhos arrojados. "Ocorre quando uma bomba gera pressão e transmite água através de uma membrana semipermeável", explica Daniel Ângelo, cientista do grupo Ciência em Show. Há ainda tecnologias que empregam micro-organismos ou óxido de grafeno, diz o especialista. Mas são todas complexas e caras -- nada que um náufrago teria no bolso.

Outras formas conseguir água potável é torcendo por uma chuva -- e para que ela não seja tão forte a ponto de virar o barco que matem o náufrago boiando --, ou comendo bastante.

"Boa parte da água que a gente ingere vem dos alimentos. Alguns têm mais água que outros. E peixe tem bastante água", afirma Ângelo. Mas ainda que possa servir como fonte de água, uma dieta sem líquidos, apenas à base de alimentos sólidos, pode não ser suficiente para garantir a hidratação, segundo o especialista.

Por fim, depois de ter se protegido bem do sol e garantido água e comida até a aparição de alguém para lhe tirar do mar, o náufrago teria de enfrentar o risco de um mal súbito no momento do resgate. "O corpo se adapta ao estresse e à luta pela sobrevivência", explica Ângelo. E o relaxamento provocado no momento do resgate pode colocar o organismo em risco, exigindo preparo dos socorristas.