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Fóssil de bicho com corpo de réptil e porte de cachorro é encontrado no RS

Desenho mostra o Siriusgnathus niemeyerorum em seu habitat - Márcio L. Castro.
Desenho mostra o Siriusgnathus niemeyerorum em seu habitat Imagem: Márcio L. Castro.

Fernando Cymbaluk

Do UOL, em São Paulo

31/08/2018 15h00

Tinha cara de cachorro, corpo de jacaré, vivia na região onde hoje é o Rio Grande do Sul e, até então, era desconhecido dos cientistas. Uma nova espécie de cinodonte --animal que está no grupo dos ancestrais dos mamíferos-- foi identificada a partir de fósseis de 230 milhões de anos atrás encontrados no município gaúcho de Agudo.

O nome que o bicho ganhou faz jus ao seu ar misterioso e esquisito: Siriusgnathus niemeyerorum, referência à estrela Sirius, a mais brilhante da constelação de Cão Maior, e ao bruxo Sirius Black, da série de livros "Harry Potter", que tinha o poder de se transformar em cachorro.

O Siriusgnathus "tinha o tamanho de um cachorro de grande porte, com um pouco mais de um metro de comprimento", explica a paleontóloga Ane Elise Branco Pavanatto, líder da pesquisa que identificou os fósseis.

Bicho 3 - Ane Elise Branco Pavanatto - Ane Elise Branco Pavanatto
Crânio fossilizado visto por cima
Imagem: Ane Elise Branco Pavanatto

O tamanho robusto, contudo, não fazia do bicho o maior do seu pedaço. "Ele conviveu com os primeiros dinossauros, no período Triássico", diz Pavanatto. Um dinossauro dessa época, o Bagualosaurus, também descoberto neste ano no município de Agudo, chegava a três metros de comprimento.

Já extintos, os cinodontes fazem parte da ordem dos terapsídeos, os ancestrais dos atuais mamíferos. A pesquisadora explica que os cinodontes surgiram no fim do período Permiano (entre 298 milhões e 250 milhões de anos atrás) e viveram até o Cretáceo (entre 145 milhões e 66 milhões de anos atrás).

Esses animais tinham como característica marcante grandes dentes, lembrando os caninos de cachorros (o "cino" do nome da ordem refere-se a "cão", e "odontes" a "dentes"). A equipe de paleontólogos da Universidade Federal de Santa Maria (RS) encontrou crânios e mandíbulas de quatro exemplares do bicho.

Para os pesquisadores, o achado da nova espécie mostra que a paleontologia brasileira ainda tem muito a descobrir. "É importante valorizar nosso patrimônio paleontológico, que muitas pessoas nem sabem que existe", afirma Pavanatto.

Animal era onívoro, mas não um predador

Bicho 2 - Ane Elise Branco Pavanatto - Ane Elise Branco Pavanatto
Vista lateral do crânio do Siriusgnathus
Imagem: Ane Elise Branco Pavanatto

O Siriusgnathus era provavelmente um animal onívoro, que se alimenta de plantas e de animais. Contudo, não devia ser um predador, preferindo aproveitar sobras de animais mortos quando queria comer carne. 

"Não temos certeza sobre o papel ecológico [do animal]. Ele tinha caninos grandes, mas os outros dentes eram semelhantes aos encontrados nos herbívoros", explica Pavanatto. Fora os caninos, o bicho tinha uma espécie de focinho, provavelmente com bigodes.

O crânio, contudo, não era arredondado e fechado, como a dos cachorros. Também não tinha orelhas. “As patas afastadas do corpo e a forma de caminhar se parecem mais com a dos répteis", completa a especialista.