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Cortes na ciência ameaçam resposta a novas doenças, diz presidente da SBPC

Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - Jardel Rodrigues/SBPC
Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência Imagem: Jardel Rodrigues/SBPC

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

25/07/2018 04h00

A SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) completa neste mês sete décadas de existência, celebrando a data com uma reunião que ocorre até 28 de julho, em Maceió.

Ildeu de Castro Moreira, presidente daquela que é a maior entidade de ciência e tecnologia do país, afirma que o evento também serve de protesto contra os "cortes drásticos" no setor e que, segundo ele, ameaçam a soberania do Brasil e o combate a novas doenças.

"O corte da ciência e da tecnologia pode afetar o desenvolvimento econômico do Brasil, e a gente está dando um tiro no pé", diz em entrevista ao UOL.

Doutor em física pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro], Moreira afirma que o momento da ciência e tecnologia no país é o pior desde a década de 1990. 

Como bom exemplo da capacidade de inovação do Brasil, ele cita o enfrentamento ao vírus da zika e à microcefalia, em 2015, que "hoje seria bem mais difícil": "Vários daqueles grupos estão com dificuldades de se manter e temos laboratórios sendo paralisados".

O presidente da SBPC diz que o Brasil está perdendo jovens talentos pesquisadores para outros países e até mesmo para outras áreas pela falta de políticas públicas. Leia a entrevista a seguir.

UOL - A SBPC se reúne num cenário de crise e cortes de verba na área de ciência. Como o senhor avalia esse momento do país?

Ildeu de Castro Moreira - A SBPC realiza essa reunião há sete décadas para tentar melhorar os recursos, a qualidade da ciência e da tecnologia e para ela ter repercussão na sociedade.

Este momento atual é muito difícil. A gente tem cortes muito drásticos na área da ciência, da educação, das políticas sociais, e tudo isso afeta a situação do país como um todo.

Os cortes podem afetar o desenvolvimento econômico do Brasil, e a gente está dando um tiro no pé. Enquanto outros países apostam na ciência e na tecnologia para sair de crise, nós estamos fazendo o contrário. Isso é uma coisa grave.

A gente tem denunciado isso ao longo do ano junto ao Congresso Nacional, ao governo, com manifestações públicas, e essa reunião é mais um momento para debater essas questões, mas também é uma forma de protesto.

Há uma série de legislações que não conseguimos implementar ou resistir a elas --e algumas delas estão indo ao contrário do futuro do país

Ildeu de Castro Moreira, presidente da SBPC

O que mais preocupa o senhor?

São muitas coisas. Essa desvalorização da ciência e da tecnologia com esses cortes drásticos de recursos nos últimos dois anos em particular, o fato de não termos uma política adequada nessa área e um descompromisso do governo com essa questão. E temos ainda essa PEC [Proposta de Emenda à Constituição] do Teto de Gastos, que coloca essa restrição para os próximos anos. Isso é trágico para a ciência e a tecnologia.

Têm outras preocupações também, a discussão da reforma do ensino médio, que está mal arrumada e sem participação intensa das sociedades científicas, sem os setores envolvidos. Há uma série de legislações que não conseguimos implementar ou resistir a elas --e algumas delas estão indo ao contrário do futuro do país.

Fala-se muito hoje em fuga de pesquisadores do país. A SBPC percebe já esse movimento?

Essa fuga é difícil detectar num primeiro momento, mas já está acontecendo essa evasão de jovens que estão no exterior e não querem voltar. Tem a questão dos jovens que desistem das carreiras científicas tecnológicas --e esse nem dá para você contar ou perceber, mas claramente isso começa a acontecer.

Tem também os pesquisadores brasileiros que estão tão desanimados e buscando maneiras de ir para fora do país. Alguns já foram, outros irão. 

Já vivemos uma fase assim?

A gente já viveu momentos muito difíceis. Vivemos um momento difícil na década de 1990, com recurso muito baixo. Depois, a partir do ano 2000, começou a aumentar e até 2013 houve uma ascensão. De lá para cá começou a cair, e nos dois últimos anos caiu de uma maneira muito abrupta.

E como a ciência brasileira pode se recuperar?

Este é um ano eleitoral. A gente está fazendo campanha junto aos presidenciáveis para que se pronunciem sobre questões importantes. Independente de eles virem ou não ao congresso [houve convite aos mais bem colocados nas pesquisas], vamos mandar questionamentos e propostas.

Que pontos o senhor destaca?

A revogação da PEC do Teto é importante, e vamos enviar também isso aos candidatos ao Parlamento. Tem também a recuperação dos recursos para ciência e tecnologia, o debate da reforma do ensino básico, a série de legislações que contingenciam recurso e o orçamento que está no Congresso. Precisamos recuperar os valores que tínhamos há dez anos.

O tema da reunião deste ano é "ciência, responsabilidade social e soberania". E nós temos preocupações para que a ciência e tecnologia no Brasil tenha condições de enfrentar ou de ser aliado fundamental na questão da soberania nacional. O Brasil tem uma riqueza muito grande, é muito vasto. Portanto, se não tiver uma apropriação tecnologia adequada, nas próximas décadas o Brasil vai ser ponto de cobiça para outros países.

Um dos melhores exemplos da pesquisa brasileira veio com a rápida associação do vírus da zika aos casos de microcefalia. O senhor acha que, se isso ocorresse hoje, seria possível o país responder com a mesma capacidade?

Hoje seria bem mais difícil, até porque vários daqueles grupos estão com dificuldades de se manter, temos laboratórios sendo paralisados. O Rio de Janeiro está sendo muito afetado, particularmente, mas em outros estados também.

Aquilo mostrou que o Brasil tem capacidade --quando tem o investimento e continuidade-- de desenvolver equipes para reagir e ficar na linha de frente da vanguarda da pesquisa nacional. Agora, se você desmonta esses laboratórios, se as universidades e Fiocruz [Fundação Oswaldo Cruz] são atingidas, a situação pode ficar preocupante. 

A ciência no Brasil está perdendo a capacidade de responder às demandas necessárias?

Está perdendo e já perdeu capacidade porque a ciência brasileira poderia estar mais avançada, ter uma integração maior com o sistema produtivo. E aí tem uma questão complicada de estrutura brasileira, da nossa historia, que é como transferir conhecimento gerado para a indústria, para a área social, para a gestão pública. São desafios que o Brasil tem historicamente.

Nos últimos anos, vários avanços vieram com os investimento como o pré-sal, a agricultura tropical, a zika e outras avanços biomédicos. Isso mostra que temos capacidade quando temos apoio.

O que estamos alertando é que essa perda pode ser significativa para o país. Estamos na direção contrária do que faz a China, a Alemanha, a Coreia do Sul, os EUA, que colocam mais recursos.

Se a gente descontinuar esse esforço de criação de uma sistema de ciência e tecnologia no país, se esse corte drástico que estamos vivendo seguir, vai comprometer o futuro do país.