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Múmia misteriosa pode ser de pai de último monarca do Irã

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Imagem: AP

Jon Gambrell

Da Associated Press, em Dubai

24/04/2018 19h43

Operários iranianos podem ter desenterrado os restos mumificados de Reza Xá Pahlavi, pai do último monarca do Irã, quase quatro décadas após a Revolução Islâmica que consagrou a derrubada da dinastia no país.

A descoberta recente do corpo envolto em gaze provocou intensa especulação e reviveu a discussão sobre o passado dinástico do Irã, que o governo passou décadas tentando suprimir. Uma multidão demoliu o túmulo de Reza Xá logo após a revolução de 1979. A família Pahlavi vive exilada desde então.

Os abusos generalizados da monarquia fizeram muito para alimentar a revolução, mas sua mística persiste enquanto o Irã enfrenta problemas econômicos e clama por reformas em meio a aproximação do 40º aniversário da revolta.

O neto de Reza Xá, o príncipe herdeiro exilado norte-americano Reza Pahlavi, tuitou que acredita que os restos mortais são de seu avô. Mas o Irã espera que especialistas forenses respondam de quem é o corpo encontrado.

Os restos mumificados foram descobertos durante um projeto de reconstrução do santuário xiita de Abdul Azim, em um terreno atrás do local onde ficava o mausoléu de Reza Xá. Segundo a agência de notícias oficial ISNA, um escavador estava retirando sujeira do espaço quando descobriu o corpo. Fotos da múmia rapidamente se espalharam pelas redes sociais iranianas.

Um porta-voz do santuário disse que nenhum corpo teria sido encontrado no terreno da construção. No entanto, Hassan Khalilabadi, chefe da comissão de turismo e patrimônio cultural do Conselho Municipal de Teerã, em entrevista à agência de notícias estatal IRNA, disse que é "possível" que a múmia seja o corpo de Reza Xá. Informação que será confirmada a partir de um teste de DNA.

A televisão estatal ainda não noticiou a descoberta, provavelmente por causa das restrições relacionadas aos Pahlavis. A mídia estatal tipicamente se refere às dinastias persas, incluindo os Pahlavis, como "opressivos", concentrando-se nos abusos dos monarcas e em seus estilos de vida luxuosos.

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A ascensão de Reza Xá deu origem ao Irã moderno, que ainda era chamado de Pérsia, até que ele ordenou que os diplomatas estrangeiros deixassem de usar o nome. Ele chegou ao poder em 1925, governando como um autocrata absoluto que usava impostos e as receitas de petróleo do país para modernizar a nação.

Suas decisões ecoam até hoje, particularmente seu decreto de 1936 que passou a proibir as mulheres de usarem longas vestes negras conhecidas como chadors. Ele ordenou que os homens usassem roupas ocidentais e trouxessem suas mulheres para funções públicas com os cabelos descobertos, se inspirando no contemporâneo líder turco Mustafa Kemal Ataturk. Medida que não agradou a todos.

Os fortes laços comerciais do Irã com a Alemanha, o esforço de Reza Xá pela neutralidade na Segunda Guerra Mundial e os temores ocidentais sobre o fornecimento de petróleo aos nazistas provocaram uma invasão russo-britânica no país em 1941. Reza Xá abdicou em favor de seu filho, Mohammad Reza Pahlavi, por insistência das forças britânicas ocupantes.

Reza Xá morreu na África do Sul em 1944. Seu corpo foi levado para o Cairo, mumificado e permaneceu lá por anos antes de ser levado ao Irã. Foi colocado em um grande mausoléu perto de Teerã, que o então presidente Richard Nixon visitou em 1972. Depois de 1979, no entanto, os islamistas viam o mausoléu como uma afronta.

O clérigo iraniano Ayatollah Sadegh Khalkhali, que ordenou a execução de centenas de pessoas após a revolução, liderou uma multidão de simpatizantes que usaram marretas, britadeiras e outras ferramentas para demolir o mausoléu.

Mais tarde, Khalkhali escreveria em suas memórias que acreditava que a família do xá teria levado o corpo de Reza Xá durante sua fuga do país. Mas a família diz ter mantido o corpo no Irã. Em 1980, seu filho Mohammad Reza Pahlavi morreu vítima de um câncer, que foi enterrado no Cairo.

Hoje, a juventude do Irã continua fascinada pelo tempo anterior à revolução. As peças do período televisivo se concentraram na dinastia Pahlavi, incluindo a recente série de TV estatal "O Enigma do Xá", a série mais cara já produzida para ser transmitida no país. Ao incorporar romances ou mafiosos nos contos, todos os shows criticam uniformemente a corte real.