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"Armagedom": Sumiço de insetos terá impacto em nossa sobrevivência

Chaiwat Subprasom/ Reuters
Imagem: Chaiwat Subprasom/ Reuters

Wanderley Preite Sobrinho

Colaboração para o UOL

19/10/2017 18h18

Parte integrante da vida na Terra, os insetos estão desaparecendo em uma velocidade dramática, indica uma pesquisa alemã. Os estudos, iniciados em 1989 e concluídos apenas recentemente, chocaram os cientistas, que falam em um “Armagedom ecológico”.

Além de responsáveis por polinizar as plantas, os insetos servem de alimento para animais selvagens, mas a escala que o desaparecimento de muitas espécies alcançou promete consequências desastrosas não só para bichos e florestas, mas também para a sociedade humana.

No Brasil, o número desses animais no meio ambiente está em declínio, seguindo a tendência de todo o mundo, embora não haja por aqui nenhum estudo abrangente sobre o tema, explicou ao UOL Angelo Pinto, professor de pós-graduação em Entomologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e integrante da Sociedade Brasileira de Entomologia.

“O hemisfério norte tem grandes coleções em seus museus naturais, diferentemente do nosso caso. Não temos esses estudos em larga escala para localidade alguma”, lamenta. “É muito difícil mensurar, mas os cientistas brasileiros que trabalham em reservas confirmam essa impressão de que a abundância dos insetos está diminuindo no país também.”

A nova pesquisa alemã, publicada na revista “Plos One”, baseia-se no trabalho de dezenas de entomologistas (cientistas especializados em insetos) que, desde 1989, coletaram 1.500 amostras de insetos em 63 reservas naturais. O resultado? Nada menos do que três quartos das espécies voadoras desapareceram nos últimos 27 anos, com sérias implicações para toda a vida na Terra, dizem os cientistas.

A causa do enorme declínio ainda não é clara, embora a destruição de áreas selvagens, o uso generalizado de pesticidas e as mudanças climáticas sejam os fatores mais prováveis. “Desmatamento, queimadas, ocupação do meio urbano, demanda por energia, uso de químicas, como pesticidas, e material deixados pela indústria em ambientes aquáticos podem contribuir para isso”, diz o professor da UFPR. 

O professor Dave Goulson, da Universidade Sussex, no Reino Unido, culpa o ser humano por transformar grandes extensões territoriais em regiões inóspitas para muitas formas de vida. “Atualmente estamos em curso para o Armagedom ecológico. Se perdermos os insetos, tudo vai entrar em colapso.”

Segundo Angelo Pinto, professor da UFPR, “esse Armageddon é previsto porque os polinizadores controlam populações de outros animais. O impacto será real para a nossa sobrevivência”, diz. “Os insetos são o grupo mais rico do planeta. Ele ocupou todos os ambientes. Se eles, que são muito bem-sucedidos, agora são afetados, podemos extrapolar para outros organismos e imaginar o que está acontecendo com eles.”

Decio Luiz Gazzoni, pesquisador da Embrapa, acredita que o principal impacto sobre o homem será a redução de alimentos. “Teríamos menor produtividade, prejuízos à qualidade, maior preço dos alimentos, resultando em maior custo para os consumidores e podendo, inclusive, acirrar os problemas de acesso à alimentação adequada de parcelas ponderáveis da população humana. Urge que o Brasil disponha de uma política pública específica e ambiciosa para proteger os polinizadores."

Do contrário, diz ele, terá que ser encontrada uma forma de substituir os insetos, como está ocorrendo na China com os “homens-abelha”. “Operários contratados para polinizar manualmente frutíferas como pera, maçã, pêssego, nêspera, ameixa. Também será reduzido o controle biológico natural, exigindo o uso de outros métodos de controle, inclusive pesticidas.”

O fato de as amostras na Alemanha terem sido retiradas de áreas protegidas torna a descoberta ainda mais preocupante, disse Caspar Hallmann, da Universidade Radboud e integrante da equipe de pesquisa: "Todas essas áreas são protegidas, são reservas naturais bem geridas. No entanto, esse declínio dramático aconteceu”.

O alerta também não é novidade. Já em 2010, um estudo da União Internacional para a Conservação da Natureza apontava redução de 9% das borboletas, 11% de uma espécie de besouro e 14% das libélulas na Europa.

Já em 2015, a ONU publicou um estudo indicando que 40% das abelhas nos Estados Unidos e 50% na Europa tinham simplesmente sumido. Motivo: o aquecimento global. Embora algumas espécies de borboletas fujam do calor migrando para o norte dos Estados Unidos, por exemplo, isso não acontece entre as abelhas, que acabam morrendo.

Lynn Dicks, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, diz que o trabalho - do qual não participou - “fornece novas evidências para um dado que muitos entomologistas suspeitavam há algum tempo.”

Ela afirma que é “extremamente preocupante” se de fato os dados estiverem corretos. “As moscas, mariposas e borboletas são tão importantes quanto as abelhas para a polinização de muitas plantas com flores. Eles também são alimento para pássaros, morcegos, alguns mamíferos, peixes, répteis e anfíbios. Moscas, besouros e vespas também são predadores e decompositores, controlando pragas e limpando algumas regiões.”