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Combustível produzido da 'titica' de galinha é alternativa ao petróleo

Noelle Marques

Do UOL, em São Paulo

01/12/2014 06h00

Veículos movidos a gás natural (GNV) não são novidades no Brasil. Agora, um ônibus movido a um gás proveniente de "titica" de galinha está rodando pelo país.

O projeto é da geradora de energia Itaipu, localizada no Paraná, e da fabricante de caminhões e ônibus Scania, que lançaram o veículo abastecido com biometano produzido a partir de dejetos de 84 mil aves poedeiras, galinhas destinadas à produção de ovos de uma granja localizada a 100 km da usina.

Segundo Cícero Bley, representante da Agência Internacional de Energia no Brasil e superintendente da Itaipu, a maior vantagem deste combustível é a redução em 70% da emissão de poluentes vindos dos veículos, além de a produção ser viável, já que "no Brasil há cinco milhões de produtores rurais, que podem gerar [o gás]".

Outra vantagem seria econômica. “O quilômetro rodado do diesel custa três vezes mais do que o do biometano. Se você tem uma frota de 10 caminhões, de 30 a 40% deles rodariam de graça, caso todos os veículos usassem o gás”, afirma Bley.

Já para o professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo Erick Rego, o uso do gás é limitado e não atende a demanda do país.

"A dificuldade que você tem com o biogás é a logística. O gás natural você injeta nos gasodutos para serem usados nas metrópoles, já para o biometano [que não tem uma rede estabelecida] o transporte terá que ser feito por caminhões, o que torna o produto muito caro. Em geral, a utilização do gás só compensa para o uso local", explica Rego.

O professor também diz que a capacidade de produção do gás é pequena, "o que não justifica grandes sistemas logísticos ou grandes estruturas". "Além de não ter quantidade suficiente de dejetos para ter uma escala comercial", acrescenta.

"O biometano pode ser um caminho alternativo e benéfico para o meio ambiente, mas ainda não dá para substituir o petróleo", finaliza Rego.

Processo milenar

O processo para obter o gás metano não é uma tecnologia nova e é bem simples. De acordo com Erick Rego, o uso começou na China e na Índia.

Na Suécia, a frota de caminhões de coleta de lixo e parte do transporte urbano usa biogás, que é produzido também a partir do lixo orgânico das cidades.

O processo para obter o biometano funciona assim: os dejetos dos animais são colocados dentro de um biodigestor (câmara de gás) com bactérias, que promovem a degradação da matéria orgânica e emitem o gás metano. O gás passa por um processo de filtragem para, então, ser utilizado como combustível.

"A tecnologia [do processo de produção do gás] é totalmente dominada, nada de novo ou mirabolante. A única coisa é botar o quebra-cabeça em pé e fazer funcionar, que foi isso que nós fizemos", diz Cícero Bley, da Itaipu.

A ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) ainda precisa regulamentar o uso do combustível, já que até então não havia demanda no país.