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Clique Ciência: por que às vezes levamos choque ao tocar em alguém?

Tatiana Pronin

Do UOL, em São Paulo

30/09/2014 06h00Atualizada em 30/09/2014 21h23

Levar um choque ao desligar o chuveiro elétrico é bem desagradável, mas compreensível. E quando isso acontece ao tocarmos outra pessoa? Será coisa do além? Nada disso. É obra da eletricidade estática, a mesma que faz seu cabelo ficar meio arrepiado de vez em quando.

A questão é que somos feitos de átomos, assim como os corpos ao nosso redor. E átomos possuem cargas elétricas (prótons positivos e elétrons negativos). "É mais comum que num átomo o número de prótons seja igual ao número de elétrons. Dessa forma, a carga elétrica total num corpo tende a ser nula", explica o professor de física Dulcidio Braz Jr, autor do blog Física na Veia! "Mas é possível alterar essa situação de neutralidade elétrica em processos chamados de eletrização".

Quando, por exemplo, esfregamos dois materiais isolantes que possuem eletroafinidades diferentes, microscopicamente, estamos aproximando as eletrosferas dos dois corpos. "Nesse caso, é comum um deles - o de maior eletroafinidade - receber elétrons do outro - o de menor eletroafinidade . E lá se foi a neutralidade elétrica dos dois! O que perdeu elétrons fica positivo e o que recebeu elétrons fica negativo. Uma vez eletrizados, se qualquer um dos dois corpos tocar num terceiro corpo neutro, há uma grande chance de trocar cargas elétricas com ele", continua o professor.

É esse movimento de cargas que provoca nos nossos corpos a sensação desagradável de choque. "Muitas vezes dá até para ouvir um estalido típico da troca rápida de cargas elétricas", comenta Dulcidio. Ele esclarece que, a rigor, esse movimento de cargas é uma corrente elétrica. Mas ela é minúscula, por isso não coloca ninguém em risco.

A gente não percebe, mas o tempo todo estamos nos carregando e descarregando, evitando o acúmulo de grandes quantidades de cargas elétricas. Na maioria das vezes, estamos neutros e não saímos por aí dando ou levando choques elétricos o tempo todo.

Em dias frios e secos, porém, corpos eletrizados tendem a ficar mais tempo carregados. "Há dificuldade em trocar cargas com o ar seco, e aí a chance de encostar noutro corpo e trocar cargas acumuladas (o que dá sensação de choque elétrico), é bem maior", justifica.

O autor do Física na Veia! dá alguns exemplos de como ficamos eletricamente carregados no dia a dia: quando andamos sobre um tapete ou carpete (e a sola do sapato se esfrega no tecido sintético); quando levantamos de uma cadeira ou poltrona de tecido; e quando descemos de um carro, esfregando o tecido da roupa contra o do banco.

Ele próprio conta que vivia tomando choques elétricos em um carro que possuía: "O tecido do banco era meio aveludado e, provavelmente, tinha eletroafinidade muito diferente dos tecidos das roupas que eu usava. Eu descia do carro e, quando tocava nele, em alguma parte metálica, ou tocava num objeto ou pessoa, era choque elétrico na certa!".

A solução foi usar seus conhecimentos de física para não sofrer o tempo todo. Ao descer do carro, ele abria parcialmente a porta e pisava com um pé no chão. Em seguida, abria a porta completamente, mas segurando em uma parte metálica dela. "Dessa forma, enquanto me eletrizava inevitavelmente pelo atrito entre a minha roupa e o tecido do banco do carro, já me descarregava, trocando cargas elétricas com a carcaça metálica do carro", recorda-se. O duro era lembrar sempre do ritual...

Dulcidio Braz Jr diz que pessoas que trabalham com computadores e aparelhos eletrônicos sensíveis devem ter muito cuidado para tocar nas partes internas do equipamento. "Uma pequena descarga elétrica pode danificar um componente eletrônico, que, em geral, opera com correntes elétricas muito pequenas", avisa.

Talvez você nunca tenha reparado, mas profissionais que fazem manutenção de computadores costumam usar uma pulseira de material condutor que fica sempre conectada à carcaça metálica do aparelho. Assim, mesmo que se eletrizem pelo contato com objetos no ambiente, acabam se descarregando na carcaça em vez de fazê-lo diretamente nos componentes eletrônicos da máquina.

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