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Clique Ciência: Conheça o lado cruel de animais "fofos" como golfinhos

Do UOL, de São Paulo

25/02/2014 06h00

Pandas, golfinhos, lontras, pinguins e hamsters parecem fofos, pacíficos, amigos da natureza. Por isso, quando a gente vê um deles, dá vontade de amar, beijar, abraçar e apertar (#feliciafeelings). Mas quem já acompanhou de perto o comportamento desses animais sabe que eles também têm um lado cruel.

Kevin P. Robinson, biólogo de um instituto de pesquisa de cetáceos na Escócia, descreveu em janeiro deste ano, em um artigo para a revista Marine Mammal Science, uma cena de tentativa de infanticídio de um golfinho que presenciou em 14 de setembro de 2009. A agressão ocorreu em um estuário na costa nordeste escocesa.

De acordo com ele, um grupo de 42 golfinhos (entre eles, várias mães e bebês) nadava tranquilamente pelo local quando começou uma agitação inesperada. Um minuto depois, um macho emerge segurando um filhote recém-nascido entre os dentes. Ele chacoalha o filhote e o  atira para longe. Em seguida, tenta afogá-lo, arrastando-o para o fundo do mar (golfinhos precisam emergir para respirar). Em certo momento, a mãe consegue se posicionar entre ele e o filhote, numa tentativa de proteger sua cria. Mas o macho consegue se desvencilhar e volta a golpear o filhote seguidamente na cabeça, na coluna e na cauda.

O ataque só termina quando os machos do grupo fazem um cordão de isolamento e o golfinho é escoltado para longe da fêmea e do filhote. A crise durou pouco mais de cinco minutos, mas foi suficiente para deixar o filhote cheio de sequelas. A espinha dorsal foi deformada. Ele passou a nadar de um jeito estranho, com menos velocidade. Ficou encalhado em uma praia e morreu um mês depois do ataque.

A cena só comprova o que os cientistas já sabem: às vezes, machos matam filhotes para fazer com que a fêmea volte a entrar no cio antes do esperado - assim eles não precisam esperar pela desmama para cruzar com a fêmea. E isso não acontece apenas entre golfinhos. Infanticídios, aparentemente pelo mesmo motivo, também podem ocorrer em grupos de leões, ursos polares, macacos-japoneses (Macaca fuscata), leões-marinhos e outras espécies. E ainda não limita-se aos mamíferos: há registros de infanticídios entre peixes, insetos e anfíbios.

Na maioria das vezes, quem mata é um macho adulto que não é o pai dos filhotes. E ele faz isso pelo mesmo motivo do golfinho: conquistar a liderança do grupo e ter os seus próprios filhotes. Se não matar os outros bebês, corre o risco de perder o posto de líder quando um deles crescer.

Mães panda abandonam filhotes

Abandono de incapaz pode ser crime de acordo com o Código Penal brasileiro. Mas para o urso panda, é uma questão de sobrevivência. Quando nascem gêmeos, a mãe panda deve escolher apenas um deles para amamentar. Ela simplesmente não consegue cuidar dos dois ao mesmo tempo.

Um bebê panda pede atenção e precisa ser alimentado constantemente, até começar a desmamar - e isso só acontece depois do oitavo mês de vida. Assim, é mais garantido cuidar de um filhote para que ele seja um adulto robusto e perpetue a espécie do que dividir as atenções e criar dois pandas fracos e desnutridos.

Hamsters, ratos e corujas vão além do abandono. Em alguns casos, mães costumam comer os filhotes. O motivo é parecido com o dos pandas: a mãe não sabe se haverá comida para todos, e, numa lógica animalesca, pratica canibalismo para evitar que um dos seus filhotes morram de fome.

Chimpanzés: fêmeas matam e devoram criancinhas

Nas comunidades de chimpanzés da Tanzânia, interações violentas entre as fêmeas podem causar infanticídios. Elas competem pela liderança do grupo - e uma das manobras é matar e comer o filho de uma concorrente.

Desta maneira, a fêmea assassina elimina o filhote (que futuramente vai competir com ela e com os filhos dela por comida) e induz a rival a se mudar para outra comunidade. Ela torna-se a dona do pedaço e seus filhos terão comida garantida.

Sexo e necrofilia entre lontras, focas e pinguins

Entre 2000 e 2002, pesquisadores da Universidade da Califórnia presenciaram 19 ocorrências de comportamento sexual entre lontras machos e focas mais jovens, na Baía de Monterey, perto de São Francisco. Em todos os casos, pelo menos três lontras diferentes arrastaram, assediaram e copularam com focas - e continuaram com o "abuso" por até sete dias depois da morte das focas agredidas.

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Segundo os pesquisadores, isso provavelmente acontece porque os machos agressores não conseguem copular com as fêmeas de sua espécie (eles perderam a disputa para outros machos) e descontam suas frustrações copulando com indivíduos de outras espécies - por isso a agressividade.

Em dezembro de 2006, Nico de Bruyn e seus colegas da Universidade de Pretória (África do Sul), presenciaram uma cena no mínimo inusitada: um lobo-marinho-antártico tentou cruzar com um pinguim-rei adulto. Depois de tentar por 45 minutos sem sucesso, ele abandonou o pinguim. A ave foi analisada, e estava em perfeito estado - o lobo-marinho não conseguiu consumar o ato.

Bruyn e os colegas elaboraram várias causas para explicar o ocorrido. Aquela época era de acasalamento dos lobos-marinhos, o que indica que os níveis hormonais do mamífero estavam muito altos e ele precisava ‘extravasar’. Outro motivo pode estar relacionado ao fato de que o lobo-marinho era jovem e estava ‘praticando’ o ato sexual antes de tentar com fêmeas da sua própria espécie.

Um dos relatos mais antigos (e mais famosos) de pedofilia e abuso sexual entre pinguins foi escrito pelo naturalista George Levick, que esteve em uma expedição à Antártida entre 1910 e 1913.

Em seu caderno, Levick escreveu que presenciou coerção de machos tentando copular fêmeas e filhotes à força entre indivíduos da espécie pinguim-de-adélia. O pesquisador ficou tão chocado que escreveu tudo em grego, para que ficasse mais difícil de alguém traduzir tudo, caso o caderno caísse em mãos estranhas.

Em 2012, cientistas do Museu de História Natural de Londres encontraram o caderno e publicaram o relato - nesta época, outros cientistas já tinham reportado o comportamento dos pinguins. E explicado que isso pode acontecer porque esses jovens machos estão no ápice da fase de acasalamento e não sabem como se comportar: um pinguim deitado no gelo à beira da morte pode ficar muito parecido com uma fêmea compassiva, por exemplo.

Fontes: artigos "Agonistic intraspecific behavior in free-ranging bottlenose dolphins: Calf-directed aggression and infanticidal tendencies by adult males", escrito por Kevin P. Robinson para a revista Marine Mammal Science (janeiro/2014); “Sexual harassment of a king penguin by an Antarctic fur seal” (escrito por Nico de Bruyn, Cheryl A. Tosh e Martha'n N. Bester - Universidade de Pretoria, África do Sul); "Lesions and Behavior Associated with Forced Copulation of Juvenile Pacific Harbor Seals (Phoca vitulina richardsi) by Southern Sea Otters (Enhydra lutris nereis)", escrito por Heather S. Harris, Stori C. Oates, Michelle M. Staedler, M. Tim Tinker, David A. Jessup, James T. Harvey e Melissa A. Miller (publicado no periódico Aquatic Mammals, em 2010). Livro "A Natural History of Families", de Scott Forbes (Princeton University Press). Podcast "Friends or Foes: Female Relationships Among the Gombe Chimpanzees", narrado por Anne Pusey (pesquisadora da Duke University e do Centro de Pesquisa Jane Goodall).

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