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Neurocientistas explicam como o cérebro se comporta quando estamos apaixonados

Lilian Ferreira*

De Gramado

12/06/2010 00h01

Atualizada às 12h32

Na busca pelo prazer, nosso cérebro ativa o sistema de recompensa assim que vislumbra algo que possa trazer bem-estar imediato. Isso ocorre ao vermos um chocolate quando estamos com fome, ou a pessoa amada quando ela está diante de nós. A ativação dessa área cerebral pode ser até visualizada em exames de imagem, segundo pesquisadores.

As drogas, descobriu-se depois, também ativam esta mesma área de recompensa, assim como outras formas de dependência e até o altruísmo. Em outras palavras, apaixonar-se é como um vício: quanto mais você tem, mais você quer.

Uma pesquisa de 2005 realizada na Universidade de Nova York mostrou como o cérebro se comporta durante a paixão. O primeiro passo foi delimitar quem estava apaixonado e um grupo de controle. Primeiro, as mulheres responderam, em uma escala de 0 a 10, o quanto eram apaixonadas. A média foi de 8,3.

O grupo de controle era formado por mulheres que apreciavam o companheirismo, a amizade, a confiança e o respeito na relação, mas não sentiam "borboletas no estômago" ao ver o parceiro. Elas pensavam no outro em menos de 85% do tempo, além de apresentar menos alegria e desejo sexual. A média desse grupo foi de 6,3 na escala de intensidade.

Foi aplicado a elas, também, um teste, conhecido como PSL (Passionate Love Scale, ou escala do amor apaixonado, em tradução livre), para validar o grau de paixão declarado.

“Nas mulheres apaixonadas, ao se ver o resultado das imagens dos cérebros, pôde-se perceber grande ativação do sistema de recompensa quando elas viam o homem”, conta o neurologista André Palmini, professor da Faculdade de Medicina e Serviço de Neurologia da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).

Paixão cega

A área do cérebro ligada à recompensa ativa a sensação de bem-estar e está ligada ao efeito da dopamina, um neurotransmissor. Ela está localizado na região subcortical do órgão, que guarda os circuitos cerebrais mais primitivos do homem, segundo o neurologista.

Ao mesmo tempo em que essa área é ativada, outras duas são desativadas, de acordo com as imagens. Uma delas é o córtex frontal, responsável pelo juízo crítico. “Está ai, provavelmente, a explicação para a célebre frase: o amor é cego. Nas imagens pode-se notar a desativação do córtex frontal na mulher apaixonada”, explica. Nessa fase, tudo o que o outro faz parece menos errado.

Dor da traição

Outra área do cérebro desativada quando estamos apaixonadas é a amígdala, uma região que processa emoções e identifica ameaças. “A amígdala é nosso radar, é o que nos deixa alerta para qualquer imprevisto. A paixão inibe este alerta. Talvez seja por isso que a traição dói tanto, porque não estamos esperando ameaça daquela pessoa, biologicamente estamos com a guarda baixa”, especula Palmini.

As imagens mostram ainda que a tristeza pela perda de um amor é a mesma ativada quando sentimos uma dor física.

É amor?

E quando começa o amor? “O amor é quando o cérebro sai do sistema de recompensa”, conta o neurologista. As áreas mais ativas passam para a região cortical, com as emoções mais humanas.

“O amor é a empatia pelo outro, a sintonia de desejos e aspirações”. Quando conseguimos chegar nessa integração, após a fase de ação do sistema de recompensa, é sinal de que o amor está no comado. Assim, se você não sente mais friozinho na barriga quando você vê seu namorado, mas já pensam de maneira similar, a ciência diz que é amor.

* A editora-assistente viajou a convite da organização do evento