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"Limitação psicológica é muito mais importante do que limitação física na hora do sexo", diz médica

Lilian Ferreira

Do UOL Ciência e Saúde

16/04/2010 05h00

A personagem Luciana, da novela "Viver a Vida", está redescobrindo sua sexualidade após o acidente que a deixou tetraplégica. No capítulo de quinta-feira (15), foi ao ar a tão esperada cena de sexo com seu namorado, o médico Miguel.

  • Arquivo Pessoal

    Aldrey Laufer, cadeirante desde os 21, é casada há 18 anos e tem uma filha de 15

  • Simone Menegotto é tetraplégica e está grávida de 5 meses

  • Alessandro Fernandes, que sofreu lesão medular em 2006, namora Giordana há 3 anos

A relação entre Luciana e Miguel confirma algo sabido entre especialistas e cadeirantes, mas ignorado ou desconhecido do público em geral: pessoas em cadeiras de rodas também fazem sexo. "Não tenho uma paciente que não tenha vida sexual. Uma limitação psicológica é muito mais importante do que uma limitação física na hora de fazer sexo", afirma a médica Miriam Waligora, coordenadora do programa de atendimento médico à pessoa com mobilidade reduzida do Hospital Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo.

"A sensibilidade nos órgãos genitais é afetada nas pessoas com lesão medular, mas a sexualidade envolve todo um contexto. O corpo muda, outras zonas ficam mais sensíveis", completa o médico Cristiano Milani, vice-coordenador do Departamento de Atenção Neurológica e Neurorreabilitação da Academia Brasileira de Neurologia.

É importante destacar que cada pessoa tem um tipo de lesão e desenvolve um jeito de sentir prazer. "Cada caso é um caso, a pessoa tem sensibilidade em outras partes. Se não sente em um lugar, sente em outro", diz Waligora. Isso não chega a ser uma barreira, explica o jornalista cadeirante da Folha de S. Paulo Jairo Marques , autor do blog Assim como Você. "As pessoas são curiosas, cada um acaba descobrindo sua forma de fazer sexo".

Simone Menegotto, que sofreu um acidente de carro quando tinha 21 anos e ficou tetraplégica, conta que a sexualidade nunca foi tabu depois da lesão. Ela reencontrou um ex-namorado logo depois do acidente e foi com ele sua segunda "primeira vez". "Eu ainda usava traqueotomia e fralda, mas não fiquei com vergonha. Éramos íntimos".

"A minha sensibilidade ficou 95% normal, sinto todo corpo desde o dedinho do pé, mas claro que a gente vai descobrindo novas áreas, onde é mais excitante, posições diferentes", explica Simone, que está grávida de cinco meses de um menino.

Aldrey Laufer também se acidentou com 21 anos e também foi um ex-namorado que a fez pensar em sexo novamente. "Está tudo na cabeça. Não vou falar que é igual antes, temos limitações de movimentos, mas a gente se adapta", conta. "A gente sente prazer, sente vontade. A sensibilidade é diferente, sinto um pouco a perna e a região genital. Mas sou casada há 18 anos, tenho uma vida sexual ativa e uma filha de 15 anos".


Diferenças entre os sexos

Para Milani, a sexualidade é mais fácil de ser retomada na mulher porque a sensibilidade na área genital não é tão necessária quanto para o homem. A mama e pescoço ganham importância como zonas de prazer. "A mulher é mais voltada para o mental, pode sentir orgasmo com estimulação em outras partes. O homem com lesão demora mais tempo para desenvolver outras áreas", explica o médico, que acrescenta que em alguns casos há perda total de sensibilidade.

A mulher cadeirante tem menos fluídos sexuais e tem mais chances de ter infecção urinária, fatores que podem atrapalhar o ato sexual. O sistema reprodutor feminino leva algum tempo, no máximo um ano, para voltar ao normal. No início, há um choque do organismo, a mulher pode parar de menstruar por queda hormonal e o útero se contrai. Mas depois o organismo se readapta e a mulher pode inclusive engravidar, como aconteceu tanto com Simone quanto com Aldrey.

Homens com lesão medular necessitam de estimulação excessiva para ejacular

Apenas 5% dos homens com lesão medular conseguem ter ejaculação espontânea. É preciso estimulação excessiva da próstata e da vesícula seminal com pequenos choques elétricos ou bombas de sucção a vácuo.

Estes métodos são utilizados principalmente na obtenção de espermatozoides para uso em inseminação. "Faço estimulação com massageador, mas ainda não consegui ejacular", conta Alessandro Fernandes, que está tentando engravidar a namorada Giordana.

O neurologista Cristiano Milani destaca que o cadeirante e sua companheira podem tentar fazer alguns destes procedimentos em casa e injetar o esperma na mulher com uma seringa. Porém, ele lembra que em alguns casos é necessário enriquecer o espermatozoide porque a produção fica debilitada por não ser constante.

Nos homens, lesões medulares não comprometem a fertilidade, mas normalmente impedem o controle da ereção, que ocorre de maneira espontânea. "A sexualidade para os homens é uma questão importante. Quando ele perde o controle voluntário da ereção, ele não se sente mais homem. É difícil ele entender que tem sexualidade", continua.

Nas pessoas com lesão medular, os chamados arcos-reflexo, movimentos controlados pela medula sem interferência do cérebro, ficam desgovernados por um tempo, logo após o trauma, já que a medula foi afetada. Acontecem espasmos de contração automática que podem provocar a ereção ou a dobra do joelho, por exemplo.

"Como ainda tinha ereção, fazia sexo nos primeiros meses, mas tinha sensibilidade quase nula na área", conta Alessandro Fernandes, vítima de um acidente de moto em 2006 que o deixou paraplégico. "Fui explorando o que funcionava em mim, fiquei com mais sensibilidade em outras partes, como os mamilos. Hoje, já tenho mais sensibilidade na hora da penetração".

Em pelo menos 70% dos casos, o homem perde a sensibilidade para chegar ao orgasmo; e, em mais de 95%, ele não consegue ejacular voluntariamente, segundo o médico. Para os homens que não conseguem ter ereções, próteses e medicações são os métodos mais utilizados. "Mas ele não vai conseguir sentir prazer, é mais o motor, para dar prazer para a parceira e assim também sentir prazer", relata Milani.