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Rússia planeja levar homem à Lua 61 anos depois da missão Apolo 11

16/07/2019 07h13

Bernardo Suárez Indart.

Moscou, 16 jul (EFE).- A Rússia retomou o programa lunar criado durante a União Soviética (URSS) e planeja seu primeiro voo tripulado para a Lua em 2030, 61 anos depois da histórica missão Apolo 11, o primeiro grande triunfo dos Estados Unidos na corrida espacial, que até então era liderada pelos soviéticos.

A Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, já anunciou planos de levar astronautas novamente à Lua em 2024 como uma primeira fase de um objetivo maior: Chegar a Marte.

Já a Roscosmos, a agência espacial russa, informou que está desenvolvendo um programa que contempla o desembarque de um cosmonauta na superfície lunar em 2030.

Com esse objetivo, a indústria espacial russa trabalha desde 2009 na construção de uma nave espacial de nova geração, chamada Federatsia (Federação, em russo), com capacidade para seis tripulantes e cujo primeiro voo de teste está previsto para 2022.

O projeto, que está a cargo da corporação estatal Energuia, sofreu, no entanto, vários revezes que semearam dúvidas sobre o cumprimento dos prazos.

"O trabalho (para construir a nave) não estava organizado devidamente, assim como ocorre com muitos outros projetos da Energuia. Foi preciso demitir gente indolente", escreveu no Twitter em abril o diretor-geral da Roscosmos, Dmitri Rogozin.

A Rússia procura agora recuperar terreno na conquista do espaço e se redimir do golpe que a façanha do programa Apolo 11 representou para seu prestígio.

Com ciúmes da conquista dos EUA, a cúpula comunista, que tinha feito dos sucessos espaciais da URSS uma de suas grandes marcas propagandísticas, impediu que os soviéticos pudessem ver ao vivo pela televisão a chegada à Lua protagonizada pelos astronautas Neil Armstrong e Edwin Aldrin.

A Guerra Fria estava em pleno apogeu e apenas as televisões de dois países, URSS e China, não exibiram as imagens da chegada dos astronautas americanos à Lua.

"Considero, assim como fiz na época, que nosso povo foi roubado (ao ser impedido de ver a chegada do homem à Lua): o voo à Lua foi uma conquista de toda a Humanidade", afirmou em entrevista à agência oficial russa "RIA Novosti" o cosmonauta Aleksei Leonov, o primeiro ser humano a realizar uma caminhada espacial.

Leonov, cuja saída ao espaço em 18 de março de 1965 durou pouco mais de 12 minutos, tempo em que esteve unido por uma correia de 5,35 metros à nave Voskhod-21, confessou que foi um dos poucos privilegiados na URSS que viram ao vivo a chegada do homem à Lua.

"Ao contrário das outras pessoas da URSS, nós vimos a chegada de Armstrong e Aldrin à Lua (...). Quando Armstrong pôs um pé na Lua e todos nos EUA aplaudiam, nós, os cosmonautas soviéticos, cruzávamos os dedos e desejávamos sucesso aos rapazes", relembrou o lendário cosmonauta.

Leonov foi precisamente o nome escolhido pela chefia do programa espacial soviético para ser o primeiro homem a chegar à Lua, missão que a URSS planejava realizar em 1968, mas que nunca chegou a acontecer.

Ao contrário do americano, o programa soviético para enviar um homem à Lua, que foi abandonado após a missão Apolo 11, se manteve em estrito sigilo durante anos e foi tornado público apenas em 1990.

Oficialmente, o programa lunar da URSS se baseava em outro conceito: estudar a Lua única e exclusivamente por meio de aparelhos automáticos não tripulados.

Mas, na realidade, a URSS, que acumulava uma série extraordinária de sucessos na corrida espacial, desde o lançamento do satélite Sputnik até os voos de Yuri Gagarin e Valentina Tereshkova, o primeiro homem e a primeira mulher a voarem ao espaço, não contava naquela época com um foguete confiável e com a potência necessária para o périplo lunar.

"Neil Armstrong é um dos heróis, mas não o mais importante, porque eu cresci olhando para Yuri Gagarin, e o passo que o americano deu na Lua foi uma conquista a mais do espaço", disse à Efe o cosmonauta russo Fyodor Yurchikhin, de 60 anos, que já realizou cinco voos espaciais.

Sobre a volta ao satélite natural da Terra, Yurchikhin afirmou que é "a primeira estação na rota dos futuros voos tripulados interplanetários".

"A Lua é um corpo celeste suficientemente grande para desenvolver as tecnologias que permitirão que o homem habite outro planeta", destacou o cosmonauta.

Segundo Yurchikhin, a cooperação internacional é fundamental para desenvolver a pesquisa espacial, já que "nenhum país pode realizá-la de maneira isolada atualmente".

"Se o dinheiro que é gasto hoje em armas fosse destinado para a ciência, não estaríamos falando de quando voaríamos à Lua ou para Marte", disse Yurchikhin. EFE

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