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Astronauta italiana diz que Lua é passo intermediário a "sonho" de ir a Marte

26/06/2018 10h04

Gonzalo Sánchez.

Roma, 26 jun (EFE).- A conquista de Marte é um "grande sonho" da Humanidade, mas para alcançá-lo, como "passo intermediário", seria preciso pôr uma base na órbita da lua, algo já factível na próxima década, segundo a astronauta italiana Samantha Cristoforetti.

Cristoforetti (Milão, 1977) foi a primeira italiana a viajar para a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), onde viveu entre novembro de 2014 e junho de 2015, um total de 199 dias sem gravidade e milhares de amanheceres que documentou nas suas redes sociais.

Vestir o traje espacial, segundo reconheceu, foi seu sonho desde a infância, da mesma forma que para a maioria de seus colegas, mas ressalta que a conquista do Planeta Vermelho é uma coisa superior que está no DNA da humanidade, um desejo quase atávico.

"A exploração de Marte é algo que todos temos no DNA, um grande sonho, um objetivo da humanidade", declarou a cosmonauta da Agência Espacial Europeia (ESA) em um encontro organizado pela Associação da Imprensa Estrangeira de Roma.

Esta capitã das Forças Aéreas italianas acredita que a tentativa de viajar no espaço ofereceria também "benefícios em geral para a sociedade" terráquea, pois sua pesquisa poderia trazer melhorias no âmbito tecnológico, científico e industrial.

Mas o objetivo real é o planeta vizinho - a cerca de 225 milhões de quilômetros - por ser "um dos principais candidatos à presença de formas de vida", como demonstrou a descoberta de moléculas orgânicas nas suas rochas pelo robô Curiosity da Nasa.

Para chegar a este planeta no futuro, Cristoforetti aposta em fixar nosso satélite natural como um "passo intermediário" para consolidar e desenvolver a tecnologia necessária antes de partir.

"Acredito que precisamos desse passo intermediário, no qual começaremos construindo uma base em órbita da Lua já no início da próxima década e depois pouco a pouco construiremos capacidades cada vez maiores para uma presença sustentada na Lua", disse a astronauta.

Em sua opinião é improvável "dar o salto da órbita baixa terrestre", onde transita a ISS, até Marte.

"Desafios há muitos, mas não são insuperáveis", opinou Cristoforetti, para depois defender a necessidade de investir mais fundos na exploração e, ao mesmo tempo, tentar "tornar estas missões o menos custosas possíveis para que sejam factíveis em menor tempo".

Nessa busca de vida extraterrestre já há grandes missões em curso como ExoMars da ESA, que lançou o módulo Schiaparelli, que caiu na árida superfície marciana em 2016, e em 2020 um rover será enviado para perfurar seu terreno.

"Interessa porque se há vida em marte dificilmente se encontrará na superfície, com um ambiente extremamente hostil, enquanto na profundidade talvez poderíamos achar vida ou traços de vida passada, talvez de quando Marte tinha muita água", previu a astronauta.

Por enquanto, nos próximos anos poderiam chegar "novidades" à órbita baixa da Terra, a ao redor de 400 quilômetros de altura, como a estação permanente chinesa, módulos de laboratórios privados e inclusive os primeiros astronautas dos Emirados Árabes.

Cristoforetti descreve sua experiência "lá em cima" como "muito bela", embora tenha deixado pendente sair ao exterior e dar um passeio espacial, apesar de conhecer o ocorrido com seu compatriota Luca Parmitano, em sérios problemas por causa de um vazamento de água no seu traje.

Enquanto sobrevoava a Terra, a vertiginosos 8 quilômetros por segundo, Cristoforetti tinha um sentimento "duplo": por um lado percebia "uma conexão emocional" ao passar por lugares conhecidos como seu país, mas também "familiaridade" com todo o planeta, sua "casa".

Na enorme ISS conseguiu distinguir a região sobrevoada só pela luz que entrava pela escotilha e não se sentiu só já que "não é uma situação de isolamento tão extrema" como, por exemplo, a que se vive em um submarino, pois "a família, os amigos e a humanidade estão à distância de um telefonema".

Já com os pés em terra, ela leva uma intensa vida na qual combina sua formação, sua popularidade e sua recente maternidade, que não impede sua profissão: "Tenho muitos colegas que vão ao espaço como pais e não é nada dramático. Não teria escolhido a maternidade se não a visse compatível com a minha vida de astronauta", defendeu Cristoforetti.

Ela também escreveu um livro de divulgação para crianças e termina outro para adultos que, com grande esforço, publicará em breve.

O que descarta é a política, ao ser perguntada pela Efe pelo caso do astronauta espanhol Pedro Duque, novo ministro de Ciência, Inovação e Universidades.

"Neste momento o objetivo é retornar o mais rápido possível ao espaço", falou entre risos, reconhecendo por outro lado que um astronauta também pode apresentar algo ao governo de um país.