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Grande Telescópio Milimétrico do México, do Big Bang aos buracos negros

23/02/2018 10h04

Martí Quintana.

Atzitzintla (México), 23 fev (EFE).- Esquadrinhar a origem do universo ou provar a existência dos buracos negros são duas das tarefas às quais o Grande Telescópio Milimétrico (GTM) do México, o maior de seu tipo no mundo, dedicará seu tempo em 2018, ao completar 20 anos de trabalhos.

Uma gigante antena parabólica de 50 metros de diâmetro define a silhueta do topo da Sierra Negra, no estado de Puebla, no centro do México, um vulcão extinto de 4.600 metros de altura, onde as temperaturas rondam habitualmente zero graus centígrados.

"É o maior telescópio maior do mundo do seu tipo. Não há outro telescópio milimétrico deste diâmetro, a maioria tem entre 10 e 15 metros, e há alguns com 35 metros. É uma infraestrutura única", disse o diretor e pesquisador principal do GTM Alfonso Serrano, David Hughes.

Este gigante observa a radiação eletromagnética milimétrica das fontes astronômicas, inclusive alguns sinais muito frágeis, dos objetos mais frios que viajam pelo espaço.

Ele não só observa longas distâncias, como um telescópio convencional, mas analisa a matéria originária para estudar "toda a história do universo", especificou Hughes.

Graças aos telescópios milimétricos é possível estudar a formação e a evolução da estrutura do cosmos desde seu surgimento, no Big Bang, há 13,7 bilhões de anos.

O GTM começou a funcionar em 2011 e realizou suas primeiras pesquisas em 2014.

Em 2017 uma equipe de pesquisadores publicou um artigo na revista "Nature Astronomy" sobre a observação de uma das primeiras galáxias em massa que se formou, há 12,8 bilhões de anos.

"Ele conseguiu detectar uma galáxia no universo muito distante. Quando ele tinha um sétimo da dimensão que tem hoje", detalhou o especialista, que explicou que esta galáxia estava "escurecida nas frequências óticas, mas muito luminosa em frequências milimétricas, por causa da presença de gás molecular e pólvora".

A importância desta descoberta, acrescentou Hughes, não é só pela juventude deste objeto astronômico, que permitirá entender "a química de milhares de milhões de anos do universo", mas também porque guarda uma "conexão", uma semelhança, com objetos que podemos detectar no universo local.

Tudo isto foi possível quando o diâmetro do telescópio era de 32 metros, e a ampliação a 50 pode multiplicar os resultados, inclusive viajando para trás no tempo.

Sempre de maneira milimétrica - analisando radiações que chegam à Terra, pois a galáxia em questão possivelmente já desapareceu.

Apesar de sua liderança mundial, este projeto - uma parceria entre México e Estados Unidos, que conta com a estreita colaboração da Universidade Massachusetts Amherst - faz parte de uma rede de telescópios que trabalha desde o ano passado em um exercício que pode revolucionar a ciência: comprovar a existência dos buracos negros, que foi matematicamente estabelecida por Albert Einstein na famosa Teoria Geral da Relatividade em 1915.

"Estes objetos são relativamente pequenos na escala do universo e precisamos de telescópios enormes para medir e detectar a sombra de um buraco negro", explicou Hughes.

Mas, no centro da nossa galáxia, a Via Láctea, há fortes indícios de um buraco negro com uma massa equivalente a seis milhões de vezes a do nosso Sol.

Com o estudo simultâneo de nove telescópios milimétricos distribuídos pelo mundo - da Antártida ao México, da Espanha ao Havaí - que apontam para o centro da galáxia e depois analisam o conjunto dos dados durante vários dias, seria possível obter resultados únicos.

"Estamos no processo de analisar os dados para produzir, pela primeira vez, uma foto, uma imagem, que possa provar a existência de um buraco negro. Seria uma sombra, uma região escura, e ao redor a luz e a radiação milimétrica", detalhou Hughes.

Com estas perspectivas, 2018 pode marcar um antes e um depois na astronomia, com a implementação de 100% do telescópio, um sonho do cientista mexicano Alfonso Serrano, que morreu em 2011.

A fase de construção do telescópio, muito complexa pela orografia e pelos custos, envolveu 120 pessoas.

O projeto custou US$ 200 milhões, 70% custeado pelo México através do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (Conacyt).

Finalizada a construção deste telescópio de vanguarda, agora é vez da pesquisa e da instrumentalização científica.