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O polêmico vestibular na Índia que levou 23 jovens indianos ao suicídio

19/07/2019 06h01

Estudantes foram às ruas em Estado no sul do país protestar contra possíveis erros na apuração, que reprovou quase 320 mil e levou à onda de suicídios; em reavaliação de respostas, descobriu-se que mais de mil alunos reprovados tinham passado.

Pelo menos 23 adolescentes do Estado de Telangana, no sul da Índia, se suicidaram desde o anúncio dos resultados das provas finais escolares, em abril. Deepthi Bathini, correspondente da BBC Telugu, explica porque esses resultados se tornaram controversos.

Thota Vennela gostava de cozinhar, assistir a shows de comédia e comer comida de rua.

Seu irmão mais velho, Venkatesh, de 19 anos, ensinou-a recentemente a andar de moto. "Eu fiquei muito feliz que ela podia pilotar como uma motociclista profissional. Mas às vezes eu a seguia sem ela saber para ter certeza de que ela estava segura", diz ele. Os irmãos brigavam pela moto e faziam brincadeiras um com o outro, e eram próximos.

Venkatesh luta para segurar as lágrimas enquanto tira a carteira para mostrar a foto da irmã. Em 18 de abril de 2019 - dia em que ela descobriu que tinha sido reprovada nos exames da 12ª classe (uma espécie de vestibular) - Vennela tomou veneno. Ela morreu horas depois em um hospital.

"Ela continuava repetindo, como eu pude falhar?", lembra sua mãe, Sunitha. "Nós a consolamos e dissemos que estava tudo bem e que ela poderia se candidatar a uma reavaliação ou fazer os exames novamente. Mas, mesmo no hospital, ela continuava dizendo: 'Eu deveria ter passado'".

Vennela foi uma entre os mais de 320 mil estudantes em Telangana que não passaram nos exames de conclusão de estudos. Todos eles foram matriculados em escolas que seguem um currículo definido pelo conselho estadual de educação (algumas escolas indianas também ensinam programas estabelecidos por um conselho nacional).

A competição para entrar no ensino superior na Índia é feroz. E os exames de conclusão de estudos são cruciais para garantir um lugar em boas universidades - que, por sua vez, são vistas como um caminho seguro rumo a um emprego bem remunerado. As principais universidades também realizam testes de admissão independentes, mas mesmo os alunos que apresentam bom desempenho neles podem perder seu lugar se não passarem nos exames de conclusão de estudos.

Nos dias seguintes ao anúncio dos resultados do exame, alunos e pais protestaram, alegando ter havido erros nas questões; muitos exigiram que os exames fossem remarcados.

"Meu filho teve nota máxima em matemática, física e química em seus 11 exames. Mas este ano os resultados mostram que ele acertou apenas uma questão de matemática e zero em física. Como isso é possível?", questiona Venugopal Reddy.

"Ele estudava para outros testes (de admissão) bem competitivos. Mas depois dos resultados, está desanimado. Ele parou de estudar e comer e se recusa a sair de casa. Estou preocupado com sua saúde mental", acrescenta.

À medida que se intensificavam os protestos, iam surgindo relatos, em todo o Estado, de suicídios de estudantes que falharam nos exames.

Um grupo de defesa dos direitos da infância fez uma petição ao tribunal superior do Estado, que ordenou que as respostas de todos os estudantes reprovados fossem revisadas. Descobriu-se que 1.137 dos alunos que falharam na verdade passaram nos exames, entre eles, uma estudante que inicialmente marcou zero em um assunto, acabou marcando 99 (em escala até 100) quando suas respostas foram remarcadas.

No centro da controvérsia está uma empresa privada de software, a Globarena Technology, que em 2017 ganhou o contrato do governo para realizar o exame em todo o Estado para mais de 970 mil estudantes. Também é responsável pelo processamento das pontuações finais e por anunciar os resultados.

Entretanto, o conselho estadual de Educação, que terceirizou o trabalho para a Globarena, negou que os suicídios estavam ligados "aos erros técnicos e de processamento de resultados".

A Globarena admitiu que houve erros.

"Seguimos o processo prescrito pelo conselho. Os incidentes que aconteceram são lamentáveis. Inicialmente, houve erros técnicos. Fizemos as correções", disse VSN Raju, diretor executivo da empresa, à BBC.

A família de uma das alunas que se matou - Anamika Yadav - disse que vai processar o conselho estadual de educação e a Globarena.

Sua família disse à BBC que a garota de 16 anos se matou horas depois de descobrir que tinha sido reprovada nos exames. Em 27 de maio, a reavaliação apontou que ela havia passado nos testes, mas, horas depois, as notas foram novamente revisadas - e se constatou que ela tinha mesmo sido reprovada.

Parece que também houve erros na revisão das pontuações - que não tinha ficado a cargo da Globarena.

"Nós estranhamos tudo isso", diz o pai de Anamika, Atul Ganesh.

O pai de Vennela, Gopalakrishna, também diz que quer entrar na Justiça. "Eu não posso confiar no conselho. Como minha filha, que sempre foi uma boa aluna, pode ter ido tão mal nesse exame? Eu preciso de respostas."

Entre os 1.137 estudantes que foram aprovados na segunda análise dos exames, não estava nenhum dos 23 alunos que se mataram. Mas seus pais não sabem o que fazer com esses resultados - eles estão chocados e com o coração partido, mas também estão perplexos e desconfiados.

A maioria dos pais falaram da dedicação e ambição de seus filhos.

Vodnali Shivani, de 16 anos, acordava bem cedo todos os dias para estudar. Ela queria ser engenheira e costumava dizer ao pai: "Espere cinco anos e nossas vidas mudarão".

Devasothu Neerja queria se tornar médica e passava a maioria das noites estudando. "Ela sempre passou em todos os seus testes. Então, pensamos que devíamos fazer o que pudéssemos para ajudá-la", diz seu pai, Rupal Singh.

Bhanu Kiran, de 18 anos, adorava matemática e queria se tornar uma hacker ética, então passava parte de seu tempo assistindo a tutoriais no YouTube sobre o assunto.

Mas essas memórias dão uma ideia da pressão pelo sucesso. Estudantes na Índia - especialmente aqueles que querem estudar engenharia ou medicina - fazem uma série de exames altamente competitivos, um atrás do outro.

E a corrida para garantir um lugar na faculdade começa cedo - dois anos antes dos exames de conclusão de curso - permitindo uma mistura arriscada e prolongada de estresse, expectativas e sonhos.

"O exame em si é rodeado por estresse", diz a psicóloga Vasupradha Kartic. "Os estudantes precisam ser aconselhados regularmente".

Ela acrescenta que os alunos precisam estar preparados para ver além dos exames - que falhar não significa que eles não tenham mais opções para uma carreira ou um futuro.


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