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NY gastará US$ 20 bi em obras para conter nível das águas

21/09/2019 10h01

New York, 21 Set 2019 (AFP) - Muros de areia em Manhattan e no Brooklyn, dunas erguidas nas praias mais expostas, amplas construções em estudo: Nova York quer ser um modelo de antecipação diante da elevação do nível das águas, mas as obras avançam lentamente, e a conta se anuncia como astronômica.

Desde a passagem do furacão Sandy, em 29 de outubro de 2012, que deixou 44 mortos, US$ 19 bilhões em danos e paralisou por dias a capital econômica dos Estados Unidos, os nova-iorquinos não duvidam mais da mudança climática.

Em uma metrópole tão populosa que ninguém pensa em esvaziar os bairros costeiros mais ameaçados, a prefeitura estabeleceu como prioridade a fortificação de seus 850 quilômetros de litoral. E anunciou uma série de medidas para proteger a cidade das águas - que podem subir 1,80 metro até 2100 - e das tempestades que se tornarão cada vez mais frequentes.

No sudeste, na península dos Rockaways, perto do aeroporto J.F. Kennedy, e ao sul, em Staten Island, dois bairros duramente atingidos pelo Sandy, 15 quilômetros de barreira de dunas foram erguidos e milhões de toneladas de areia despejadas para reforçar as praias dos Rockaways, ou de Coney Island, no Brooklyn.

Bilhões de dólares foram gastos para proteger a rede elétrica e o metrô, indispensável para a circulação dos 8,5 milhões de nova-iorquinos.

Muretas feitas de contêineres de areia apareceram em vários bairros, em especial no Brooklyn e em Manhattan, perto de Wall Street: uma medida de proteção temporária, para cinco anos, à espera de fortificações mais perenes para proteger o coração histórico e financeiro de Nova York.

Segundo projeções oficiais, 37% dos imóveis do sul de Manhattan ficarão expostos às ondas de tempestades até 2050, e 20% das ruas correm o risco de serem inundadas diariamente até 2100.

- US$ 120 bilhões para proteger a foz -As obras mais ambiciosas ainda não começaram. Em 2020, a prefeitura deve lançar trabalhos com duração prevista de três anos para erguer o grande parque que se estenderá pela East River, ao sul Manhattan.

Em março passado, o prefeito democrata Bill de Blasio apresentou um projeto para proteger o sul de Manhattan, onde se concentram 10% dos empregos da cidade. Uma faixa aterrada aumentará a East River em 150 metros, com capacidade para "absorver o impacto de uma tempestade", explicou o especialista em política ambiental Steve Cohen, do Instituto da Terra, ligado à Universidade de Columbia.

Estas obras levarão anos e custarão até 10 bilhões de dólares, com financiamento incerto.

Para além destes projetos, o corpo de Engenharia do Exército americano estuda planos que cobrem o conjunto da região.

Entre as opções que devem passar por ajustes até o ano que vem, com custos entre US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões, a mais cara - e mais improvável - prevê um sistema de barreiras submersas, ao longo de todo estuário nova-iorquino. Esta infraestrutura reduziria os riscos de inundação em 92%, mas também poderia sufocar o ecossistema.

No outro extremo, por US$ 15 bilhões, um projeto mais clássico de diques e barreiras costeiras reduziria o risco em apenas 25%.

- Atrasos preocupantes -A decisão será tomada com a população, mas uma coisa é certa: as obras serão longas, e o orçamento global inicial de US$ 20 bilhões seria apenas uma "entrada", segundo a prefeitura. A fatura bilionária preocupa muitos nova-iorquinos.

"Sete anos depois do Sandy, continuamos falando em sacos de areia como o principal modo de defesa contra grandes tempestades (...) Temos de acordar antes que seja tarde demais", critica Justin Brannan, vereador que representa os bairros ameaçados do Brooklyn e que preside a comissão municipal da "resiliência".

"Há uma distância enorme entre o que a cidade de Nova York pôde fazer e o que deve ser feito", criticou Roland Lewis, presidente da Waterfront Alliance, uma ONG ativa que trata dos problemas costeiros dos nova-iorquinos.

"Estamos em uma das maiores cidades do mundo. Somos muito ricos, mas não somos capazes de nos protegermos frente à nova realidade climática", acrescentou.

Ecoando o discurso de várias autoridades locais, Lewis critica um "vazio enorme" por parte do governo federal. Não se trata apenas do fato de o governo "cético em relação ao clima" de Donald Trump não ajudar a cidade financeiramente, afirma Lewis.

"Ele age ativamente na direção contrária", ao suprimir, sobretudo, algumas leis voltadas para as emissões americanas de gases causadores do efeito estufa.

Apesar de todos estes obstáculos e do risco de que um novo furacão surja antes de as fortificações serem concluídas, Steve Cohen, da Universidade de Columbia, mantém a tranquilidade.

"Claro, as pessoas gostariam que isso andasse mais rápido", comenta. "Mas o que parece atraso é feito com muita análise e planejamento (...) É melhor fazer bem as coisas do que cometer erros", completou.

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