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Estudo de DNA antigo ilumina origens das línguas indo-europeias

05/09/2019 21h12

Washington, 6 Set 2019 (AFP) - Durante décadas, os pesquisadores debateram como as línguas indo-europeias chegaram a ser faladas das Ilhas Britânicas ao sul da Ásia.

Agora, o maior estudo já realizado sobre o DNA humano antigo sugere que a resposta pode estar na migração em massa de pastores da Idade do Bronze das Estepes Euroasiáticas, que começou 5.000 anos atrás, para a Europa, a oeste, e para a Ásia, ao leste.

Vagheesh Narasimhan, coautor do artigo publicado na revista Science nesta quinta-feira, disse à AFP que o papel dos movimentos populacionais nos últimos 10.000 anos foi fundamental para entender as mudanças linguísticas e a transição das atividades de caçadores-coletores para a agricultura.

"Tem havido muito trabalho de DNA, bem como trabalho arqueológico, sobre esses dois processos na Europa", explicou o pós-doutorando da Harvard Medical School, mas essas transformações são menos compreendidas na Ásia.

Uma equipe global de geneticistas, arqueólogos e antropólogos analisou os genomas de 524 indivíduos antigos nunca estudados da Ásia Central e do Sul, aumentando o total mundial de genomas antigos publicados em cerca de 25%.

Ao comparar os genomas uns com os outros e com os restos descobertos anteriormente, e ao colocar essas informações em seu contexto histórico por meio de registros arqueológicos e linguísticos, a equipe conseguiu preencher as lacunas em nosso entendimento atual.

Um artigo de 2015 indicou que os idiomas indo-europeus - o maior grupo de idiomas do mundo, que inclui hindi-urdu, farsi, russo, inglês, francês, gaélico e mais de 400 outros - chegaram à Europa através das estepes.

Apesar de estarem espalhados por uma vasta área que abrange uma série de culturas, essas línguas compartilham semelhanças em sintaxe, números, adjetivos básicos e muitos substantivos, incluindo os relacionados a parentes, partes do corpo, entre outros.

O caminho das línguas protoindo-europeias para a Ásia era menos claro: uma escola de pensamento sustentava que elas se espalharam dos agricultores da Anatólia (atual Turquia).

Mas o artigo revelou que os sul-asiáticos atuais têm pouca ou nenhuma ancestralidade compartilhada com esses antigos agricultores da Anatólia.

"Podemos descartar uma disseminação em larga escala de agricultores com raízes anatólias para o sul da Ásia, peça central da 'hipótese da Anatólia' de que esse movimento trouxe a agricultura e as línguas indo-europeias para a região", disse o coautor David Reich, também da Harvard Medical School.

"Como não ocorreram movimentos substanciais de pessoas, este é um xeque-mate para a hipótese da Anatólia".

- Civilização do Vale do Indo -Existem duas novas linhas de evidência a favor da origem nas estepes. Primeiro, os pesquisadores detectaram semelhanças genéticas que conectam falantes dos ramos indo-iraniano e balto-eslávico das indo-europeias.

Eles descobriram que os falantes atuais de ambos os grupos descendem de um subgrupo de pastores de estepes que se mudaram para o oeste em direção à Europa há 5.000 anos e depois se espalharam de volta ao leste para a Ásia Central e do Sul nos 1.500 anos seguintes.

Outra observação a favor da teoria: os sul-asiáticos que hoje falam línguas dravidianas (principalmente no sul da Índia e no sudoeste do Paquistão) tinham muito pouco DNA das estepes, enquanto aqueles que falam línguas indo-europeias como hindi, punjabi e bengali têm muito mais.

No que diz respeito à agricultura, trabalhos anteriores descobriram que a esta se espalhou para a Europa através de pessoas de ascendência anatólia.

Os sul-asiáticos, no entanto, compartilham pouca ou nenhuma ancestralidade com os anatólios, descartando-os, enquanto o registro arqueológico mostra que a atividade também é anterior aos pastores das estepes, levando os pesquisadores a concluir que a agricultura chegou independentemente na região.

Um segundo artigo, publicado na revista Cell Press por vários dos mesmos autores, descreve o primeiro genoma de um indivíduo da Civilização do Vale do Indo (IVC), uma das grandes civilizações do mundo antigo contemporâneas ao Egito e à Mesopotâmia.

Suas cidades, que apareceram pela primeira vez 3000 anos aC, eram povoadas por dezenas de milhares de pessoas, que usavam pesos e medidas padronizadas, construíam grandes estradas e negociavam com lugares tão distantes quanto o leste da África.

A equipe foi capaz de superar os desafios técnicos colocados pelo clima quente e úmido para sequenciar pela primeira vez um indivíduo da Idade do Bronze do sul da Ásia.

O DNA pertence a uma mulher que viveu de quatro a cinco milênios atrás, enterrada em Rakhigarhi, a maior cidade do IVC, também conhecida como civilização de Harappa.

Com base em suas descobertas, os autores acreditam que os sul-asiáticos modernos descendem do povo de Harappa, que mais tarde se misturou com os pastores das estepes que migraram a partir do norte.

Além de seu valor acadêmico, o sequenciamento do DNA antigo pode ajudar a melhorar os estudos modernos do genoma que analisam a predisposição genética para doenças, uma área crescente da medicina.

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