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Movimento anticlima, a nova bandeira da extrema direita alemã

24/05/2019 08h00

Berlim, 24 Mai 2019 (AFP) - O partido Alternativa para a Alemanha (AfD), pró-diesel, pró-carvão e cético do aquecimento global, tenta seduzir novos eleitores, como muitos outros movimentos nacionalistas da Europa e do mundo, com uma mensagem de desconfiança sobre as mudanças climáticas.

Surgido em clara oposição ao euro, o AfD dinamitou a paisagem política nacional, fazendo cambalear a chanceler Angela Merkel com seu discurso anti-imigração.

Mas agora que a preocupação com os imigrantes tende a se dissipar junto à opinião pública, o AfD faz ergue uma nova bandeira por ocasião da campanha para as eleições europeias.

"Queremos acabar" com a luta contra o aquecimento global "porque reduz desnecessariamente o acesso a uma energia barata", diz o partido em seu programa para as eleições europeias.

Esta linha é totalmente oposta à defendida nas manifestações de defesa do clima que reúnem milhares de jovens alemães nas "Fridays For Future" (Sextas pelo futuro). E o AfD prevê se opor à recente decisão do governo de por um fim à exploração do carvão antes de 2038.

- 'Santa Greta da Suécia' -As publicações do AfD que negam as mudanças climáticas nas redes sociais aumentaram nos últimos meses, diz à AFP Stella Schaller, especialista em clima do Adelphi, instituto de pesquisas alemão.

"O AfD utiliza o clima em suas campanhas eleitorais, algo que nunca fez antes. O alvo são os eleitores que têm medo do futuro, que temem os movimentos de transformação", explica.

As "Fridays For Future" permitiram, inclusive, ao AfD criar uma clara adversária: Greta Thunberg, a sueca de 16 anos que se impôs nos últimos meses entre os jovens como o novo rosto da luta pelo clima.

Durante um comício, o AfD atribuiu a ela o mote irônico de "Santa Greta da Suécia", segundo Jorg Meuthen, cabeça de chapa para as eleições europeias.

"Acho que as pessoas são cada vez mais conscientes de que o que fazem os ecologistas é alarmismo", afirma, antes de destacar que "o chamado à urgência climática é um ato de histeria".

- 'Salvem o diesel!' -Os ataques do AfD também têm como alvo as medidas sobre o diesel.

Várias cidades proibiram a circulação de carros velhos que usam o combustível, considerado muito poluente, gerando críticas em um país onde o automóvel é central na vida das pessoas.

"Salvem o diesel!", dizem vários cartazes de campanha do AfD com vistas às eleições europeias.

Com relação às proibições de circulação, o partido de extrema direita considera que "milhões de motoristas de (carros a) diesel têm sido expropriados" e isto apesar de a qualidade do ar nas cidades vir melhorando há anos.

O AfD é o partido mais veemente do Velho Continente, ao lado dos britânicos do Ukip, no que diz respeito a temas ambientais, segundo um estudo de Adelphi sobre os 21 movimentos nacionalistas mais importantes da Europa.

O partido alemão de extrema direita não hesita em se opor ao consenso científico internacional sobre o aquecimento global. Em 2017, sua deputada Beatrix von Storch já atribuía ao sol a elevação da temperatura nos oceanos. "Deveríamos nos mobilizar contra ele", ironizou na ocasião.

Jorg Meuthen justifica este novo eixo nas campanhas do AfD. "Estaríamos loucos se não tratássemos deste tema", explica ao periódico Der Spiegel. "Devemos falar de questões que preocupam as pessoas", acrescenta.

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