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Rio, a capital mundial da matemática, com entrega da medalha Fields

30/07/2018 18h09

Rio de Janeiro, 30 Jul 2018 (AFP) - O Rio de Janeiro será a sede de 1º a 9 de agosto do Congresso Internacional de Matemáticos (ICM), que, desde o final do século XIX, outorga a cada quatro anos a prestigiosa Medalha Fields, considerada o Nobel da disciplina.

Será a primeira reunião do ICM na América Latina, dois anos depois de o Rio ter sido a primeira cidade da região a organizar uma Olimpíada.

"Na época do primeiro Congresso, em 1897, não havia nenhum brasileiro habilitado a participar. Não havia matemática no Brasil, não havia instituições (...) Isso mostra o caminho percorrido, principalmente a partir dos anos 50, quando a matemática passou a existir no país", destaca Marcelo Viana, coordenador do comitê organizador e diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA).

Esta inovadora entidade carioca, instalada no meio da Floresta de Tijuca, está na vanguarda da pesquisa científica no Brasil e apoia iniciativas para popularizar uma disciplina muitas vezes considerada austera.

O IMPA foi um dos principais centros de formação do brasileiro Artur Ávila, o primeiro vencedor latino-americano de uma Medalha Fields, em 2014, e que agora é diretor de pesquisa no CNRS, uma das mais importantes instituições de pesquisa do mundo, com sede na França.

Em cada congresso, de duas a quatro medalhas são concedidas. As do Rio serão anunciadas na quarta-feira, por ocasião da abertura do evento.

O Brasil entrou em janeiro passado na elite mundial da matemática, ao ser admitido como membro do seleto grupo da União Matemática Internacional (UMI), juntamente com a Alemanha, Canadá, China, Estados Unidos, França, Israel, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia.

No final de 2017, o Rio sediou a Olimpíada Internacional de Matemática, com 600 participantes de 111 países.

A Medalha Fields foi proposta em 1923 pelo matemático canadense John Charles Fields, falecido em 1932, que legou seus bens para financiá-la. Os vencedores são recompensados com 15.000 dólares canadenses, cerca de 43.000 reais.

Desde 1936, é reservado aos pesquisadores com menos de 40 anos de idade.

Os Estados Unidos, com 13 medalhas, e a França, com 12, são os países com mais prêmios, de um total de 55 laureados.

- Linguagem acessível -Para Marcelo Viana, o Congresso é, antes de tudo, um "pretexto para popularizar a matemática entre os jovens".

"Em 2006 o congresso foi na Espanha e todos os meus colegas espanhóis disseram que a cultura espanhola em relação à matemática mudou totalmente depois", contou Viana.

O ICM vai propor uma série de atividades para os jovens.

"Normalmente, nos pedem de organizar palestras com uma linguagem um pouco mais acessível, de forma que todos os matemáticos possam entender. Mas nós estamos inovando, queremos que essas palestras sejam compreensíveis também para as nossas crianças", acrescentou o diretor do IMPA.

Durante os nove dias do evento, estão previstas 1,2 mil palestras e painéis de debates. Haverá ainda cerca de 40 eventos científicos paralelos, entre eles o Encontro Mundial de Mulheres na Matemática, no qual serão discutidas questões de gênero.

Para assegurar um congresso o mais inclusivo possível, o Instituto Serrapilheira, outra entidade de fomento à pesquisa de ponta na pesquisa matemática no Brasil, financiou a participação de 19 mulheres matemáticas negras e duas indígenas do país, que vão discutir as disparidades entre homens e mulheres na disciplina.

Além da matemática, o Instituto Serrapilheira financia projetos de pesquisa e divulgação científica nas áreas de ciências da computação, ciências da terra, ciências da vida, engenharias, física e química.

Os avanços da matemática no Brasil contrastam com a situação pouco feliz do ensino nas escolas.

No ranking Pisa, que avalia os sistemas educacionais de 70 países a cada três anos, o Brasil ocupava em 2015 a 65ª posição na categoria de ensino da matemática.

"O sistema de educação é muito heterogêneo, com enormes diferenças entre a rede estadual, municipal e privada, então o grande desafio é fazer com que essa competência passe para o ambiente escolar, principalmente para a formação dos professores", aponta Viana.

"Não oferecemos boa formação para os professores. Na minha opinião, esse é o calcanhar de Aquiles do nosso sistema", ressaltou.

Um desafio cada vez mais difícil de superar, em um contexto de ajustes fiscais. "No setor econômico do governo (de Michel Temer) está imperando uma visão de corte de gastos. Isso é insensato", acrescenta.

A pesquisa sofreu cortes drásticos após a recessão econômica de 2015 e 2016, o que provocou uma fuga de cérebros.

"Quando a China detectou que a taxa de crescimento do país estava começando a desacelerar, o governo chinês anunciou um aumento de 26% dos investimentos na matemática e na ciência em geral. Há uma visão de que em momentos de crise, você investe em ciência para criar novos ambientes em que a economia possa prosperar", destaca.