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Exoesqueleto que dará chute na Copa recebe o nome de BRA-Santos Dumont

Rosa Sulleiro

Em São Paulo

09/06/2014 16h18

A honra de dar o pontapé inicial na cerimônia de abertura da Copa do Mundo, na próxima quinta-feira (12), em São Paulo, caberá a um paraplégico que usará um traje robótico similar ao do personagem dos quadrinhos Homem de Ferro, e criado por um cientista brasileiro.

O médico Miguel Nicolelis chefiou uma equipe internacional de 156 pesquisadores para criar um exoesqueleto futurista, desenvolvido para permitir que vítimas de paralisia possam andar.

Na cerimônia de abertura da Copa do Mundo, em São Paulo, um paraplégico cuja identidade tem sido mantida em sigilo, deixará para trás a cadeira de rodas para entrar no gramado usando o traje e dar o pontapé inicial do torneio.

Circuitos elétricos instalados nos "pés" do traje enviarão um sinal de retorno ao usuário através da pele artificial que cobrirá seu braço, transmitindo a sensação de movimento e contato.

"É a primeira vez que um exoesqueleto é controlado por atividade cerebral e oferece 'feedback' aos pacientes", declarou à AFP Nicolelis, neurocientista da Universidade Duke, na Carolina do Norte (EUA).

"Fazer uma demonstração em um estádio é algo muito fora da nossa rotina na robótica. Nunca foi feito antes", prosseguiu o cientista.

Sua voz mistura cansaço e animação diante da proximidade do apogeu espetacular de 30 anos de trabalho, mais de 200 artigos científicos e incontáveis testes clínicos.

Nicolelis deu os primeiros passos nesta direção em 1984, quando redigiu sua tese de doutorado sobre conexões neurais no controle muscular.

Ele disse que a ideia de desenvolver o traje surgiu em 2002, quando os cientistas apenas começavam a explorar exoesqueletos robóticos.

"Em 2009, depois que soubemos que o Brasil sediaria a Copa do Mundo, eles me pediram ideias para mostrar o Brasil de uma forma diferente daquela que o mundo costuma vê-lo. Foi quando eu sugeri fazer uma demonstração científica para mostrar às pessoas que o Brasil está investindo e tem potencial humano para fazer coisas além do futebol", afirmou.

Nicolelis contou que ele e uma equipe com mais de 40 pessoas mal têm deixado o laboratório desde março, quando chegaram a São Paulo, para finalizar os preparativos da demonstração.

Mas o sacrifício é compensador, afirmou, lembrando um momento, em 24 de abril, em que um usuário com paralisia deu os primeiros passos usando o exoesqueleto.

Eles batizaram o traje com o nome de BRA-Santos Dumont, uma combinação das três primeiras letras usadas para identificar o Brasil em competições esportivas e Alberto Santos Dumont, o pai da aviação brasileira.

Controvérsia científica

Alguns cientistas criticaram Nicolelis por trocar as publicações acadêmicas pelos meios de comunicação de massa - ele publica atualizações de suas pesquisas no Facebook - e o anonimato do laboratório pelos holofotes da Copa do Mundo.

Os críticos também questionam a natureza prática de sua pesquisa e o acusaram de abocanhar uma parte injusta do orçamento de pesquisas do governo brasileiro.

Mas Nicolelis rechaçou estas críticas.

"O financiamento é o mesmo, com ou sem Copa do Mundo. Nós recebemos US$ 14 milhões do governo brasileiro nos dois últimos anos. Isto é, aproximadamente, quatro ou cinco vezes menos do que o governo dos Estados Unidos investe em um braço mecânico", afirmou.

"Eu não vejo nada de errado em demonstrar para o mundo todo uma tecnologia que tem um objetivo humanitário e que foi pago pela sociedade civil", acrescentou.

Mais de 65 mil pessoas testemunharão, na Arena Corinthians, em São Paulo, os primeiros passos de BRA-Santos Dumont em público, antes da partida inaugural da Copa, entre Brasil e Croácia. Cerca de um bilhão de telespectadores devem assistir ao feito pela televisão.