O ócio que não veio

Era para a tecnologia ter resolvido nossas pendengas. Por que ela não nos deu mais tempo?

Marcelle Souza Colaboração para o UOL, em São Paulo
Alex Affonso/UOL

Não é mero saudosismo. A maioria das pessoas tem a sensação de que antes da popularização da internet e dos smartphones tinha mais tempo para aproveitar a vida. Essa constatação, no entanto, parece um tanto estranha, já que exatamente por conta da tecnologia ficou mais rápido e mais fácil fazer compras, pedir um táxi, responder aquele email importante ou decidir o melhor destino para as viagens de férias.

O que aconteceu? Você deve imaginar que a resposta está no tempo que a gente dedica às redes sociais, mas também passa pelas demandas que já não têm hora para chegar e nas estratégias usadas pelas empresas para deixar você cada dia mais dependente.

Mais amor (e menos celular), por favor

Um dia ensolarado, o cenário inesquecível de Inhotim, instituto de arte contemporânea de Brumadinho (MG), num fim de semana com a namorada, que havia acabado de voltar do Japão. Parece perfeito, não é? E seria, se Mathias Luz, 29, analista de SEO, não tivesse tido uma crise súbita de ansiedade no meio do passeio.

A vibe era boa, mas Mathias conta que não conseguia aproveitar o lugar nem entender as obras que observava. Estava dividido entre fotografar os momentos com uma câmera, para ter um registro completo e postar depois, ou com o celular, para colocar as imagens nas redes sociais imediatamente.

O que era pra ser uma experiência muito gostosa, um fim de semana juntos, acabou com uma sensação muito ruim. Não sei explicar. Notei que aquilo me gerava uma ansiedade muito grande

A crise fez Mathias perceber que estava dedicando tempo demais à vida virtual e, pior, aquela não era a primeira vez que estragava um encontro por conta do vício em tecnologias. "Nessa análise, me dei conta que no verão de 2018 estava em um café com a minha companheira, em Florianópolis [SC], e lembro que mergulhei nessa mesma confusão, senti a mesma ansiedade", diz. "Mas também entendi que não fazia sentido ficar sofrendo com coisas banais."

Foi quando ele decidiu fazer alguns testes: deixar o celular longe, checar as redes só nos intervalos do trabalho, cancelar alguns perfis. Nesse processo, Mathias fez um experimento bastante sistematizado, com métricas sobre o número de crises de ansiedade, de interrupções no trabalho pelo celular e dos momentos em que estava mais presente com as pessoas que gostaria de estar perto.

"A ideia inicial era diminuir o uso, não achava que era grave a esse ponto. Mas acabei descobrindo que para mim era tudo ou nada", conta. Após três meses de análise, cometeu suicídio virtual. Saiu de vez do Facebook, do Instagram, do WhatsApp e até do Linkedin, naquele momento o principal meio de promoção do seu trabalho.

"O meu maior medo era sair do Linkedin, porque atuo na área digital e achava que não conseguiria mais trabalho", diz. Superada a barreira e cancelada a conta na plataforma, a maioria dos seus clientes hoje chega pelo bom e velho boca a boca. "Eu consigo ter mais profundidade no que faço e gero mais resultados", diz.

Também sobra mais tempo para ler e aproveitar a namorada --que, vale dizer, foi conquistada pelas redes e 'convertida' para a vida real. "Aquilo atrapalhava meu relacionamento, agora consigo priorizar melhorar as coisas", diz.

Hoje eu consigo colocar limites para o uso do celular, não me sinto mais escravo dele

A gente quer biscoito

Uma das redes que mais consumiam o tempo de Mathias era o Instagram, com seus Stories quase infinitos, que alimentavam nele a necessidade de ver e ser visto. "De certa forma você cria algo artificial, uma marca pessoal, um avatar que não corresponde à realidade. Ali no Instagram você foca só em alguns momentos, não no todo", diz.

Você já deve ter percebido que as redes sociais dão um empurrãozinho para o nosso ego, ajudam a fugir do ócio e funcionam como uma fuga quando a gente não quer lidar com os problemas da vida real. Nesses espaços, cria-se uma ilusão de que a nossa palavra é muito importante e que as pessoas estão ali esperando por mais um texto ou foto sua --o que, sinto dizer, não é verdade.

Mas tudo foi muito bem pensado. A estrutura da internet está baseada na ideia de quanto mais curtidas melhor, explica Christian Dunker, psicanalista e professor da USP (Universidade de São Paulo):

É como se eles dissessem: 'estamos esperando o seu clique', 'o seu comentário tem valor'. Isso produz um efeito psicológico nocivo, por achar que a sua opinião tem um valor intrínseco, muito maior do que realmente tem

Para Mathias, era exatamente o ego que teimava em falar mais alto enquanto vivia o período de experimento e ainda não tinha cancelado todas as redes sociais. Na terceira semana do detox digital, ele aproveitou para fazer um retiro espiritual.

No caminho até lá, no entanto, chegou a ter alguns momentos de ansiedade (nada comparado aos episódios de Florianópolis e Inhotim). "Meu ego sentiu uma euforia pelo aumento do número de comentários no meu perfil do Linkedin", conta. A saída foi deletar o app e bloquear o acesso via navegador.

Quando enfim chegou ao local do retiro, onde era proibido o uso de qualquer aparelho eletrônico, iniciou um período de 21 dias em silêncio. Aproveitou para praticar yoga, respirar ar puro, meditar, escrever e observar a natureza; tudo isso sem uma única curtida de volta.

"É inumano ter contato com mais de 300 pessoas, isso não existe na vida real. Para falar com mil pessoas diferentes em um ano, você teria que ter contato com três por dia. Essa conta que não fecha", diz Mathias.

Hoje não tenho mais que dar parabéns para mil pessoas, mas consigo ligar com mais frequência para quem eu realmente quero estar próximo

Pouca paciência e muito débito

Se o dia continua com as mesmas 24 horas, o que a tecnologia fez foi modificar o jeito como a gente encara a vida. Uma das coisas mais óbvias a se dizer é que aumentou o valor que damos ao imediatismo, daí a sensação de que hoje temos menos tempo para os afazeres cotidianos.

A internet nos dá mais tempo, abrevia processos, é possível fazer tudo de forma mais rápida e eficiente hoje. O problema é que você não pode mais ficar incomunicável, a expectativa é de que esteja disponível e acessível o tempo inteiro
Aderbal Vieira Júnior, psiquiatra do Proad (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)

No passado, a invenção do telefone fez com que a gente não precisasse se deslocar para conversar com uma pessoa. Mesmo assim, por muitos anos essa comunicação só funcionava se, do outro lado, o receptor também estivesse perto do aparelho. Quando dava ocupado, então, era preciso esperar e ligar mais tarde.

Mas a paciência diminuiu com a chegada do celular, e acabou quando aderimos ao WhatsApp. Desaprendemos a esperar.

Existe um sentimento de que se está sempre em débito, porque as mensagens ficam dormentes, ficam pressionando a gente. É um sentido de urgência subjetiva
Christian Dunker

Outro problema é que, como estamos sempre disponíveis, inclusive para o trabalho, há menos tempo para o descanso. "Hoje é mais difícil separar as coisas, e nunca se teve tantas patologias do sono como agora. Isso porque as tecnologias foram comendo a zona de transição entre a vida pessoal e a vida profissional", diz Dunker.

Soma-se a isso a competição no mercado de trabalho, a exigência de que os funcionários estejam sempre disponíveis e as conexões globais de cadeias produtivas hiper-conectadas --ou seja, se antes o cliente era brasileiro e entrava em contato só no horário comercial, agora ele e também os concorrentes estão em todas as partes e as demandas já não respeitam o seu fuso horário.

O curioso é que antigamente, quando não havia smartphone, eu saía às 18h do trabalho e, se tivesse ficado algum problema, resolvia no dia seguinte às 8h. Agora o celular gera mais ansiedade, faz a gente trabalhar muito mais, porque estamos sempre disponíveis

Eberson Terra, 36, mentor de carreiras

O escritório na palma da mão

Há alguns anos, o mentor de carreiras Eberson Terra, 36, tinha uma relação bem diferente com as redes sociais. Trabalhava como executivo em uma grande empresa e passava o dia conectado, resolvendo todo tipo de problema. "Nessa época, eu acordava de madrugada para ir ao banheiro e pegava o celular para ver emails, responder mensagens", conta ele.

Dormia pouco, vivia ansioso e o tempo que passava no celular atrapalhava até os momentos de lazer. "Minha esposa pedia para eu diminuir o uso, mas eu sempre dizia que precisava resolver algo rápido", lembra.

Foi nesse momento que ele percebeu que não dava mais para continuar. Pediu demissão, tirou um ano sabático e decidiu reaprender a usar as redes sociais.

"No começo foi bem difícil, mas ao longo do tempo eu comecei a ter um pouco mais de equilíbrio, a trabalhar a ansiedade. Hoje eu não estou 100% curado, continuo usando as redes, mas é um hábito que consigo conviver", conta ele, que agora vai dormir e deixa o celular bem longe da cama. "Essa tem sido uma estratégia, mas sei que ainda sou um viciado digital", diz.

É coisa da sua cabeça, sério

Há uma explicação para que a gente passe tanto tempo com o celular: isso nos dá prazer.

Sabendo disso, Sean Parker, o primeiro presidente do Facebook, já contou que o sucesso da rede se deve à exploração de uma vulnerabilidade psicológica humana. Funciona assim: a plataforma fornece com alguma frequência um tipo de dopamina --que é o neurotransmissor responsável pelo comportamento motivado por uma recompensa--, fazendo com que toda vez que alguém curte um post ou uma foto sua o seu corpo responde com uma sensação de bem-estar.

Mas pesquisas mostram que, com o tempo, a gente fica querendo mais estímulos, em busca de mais prazer, mais ou menos como acontece com quem usa uma droga.

"Isso tem uma razão no processo evolutivo. Antes o estímulo era muito escasso, então ele evoluiu para ter muita avidez por novidade. Só que na modernidade esse estímulo tornou-se inesgotável", diz o médico da Unifesp.

Tem outra coisa: as redes sociais permitem que as pessoas falem de si mesmas e que tenham um feedback instantâneo sobre esses comentários. "Esse fator sozinho já desencadeia no cérebro a liberação de hormônios ligados ao prazer. Mas é um bem-estar temporário, porque a maioria dos usuários, na verdade, acha que é mais infeliz do que mais da metade dos seus amigos virtuais", diz Eduardo Guedes, pesquisador e um dos fundadores do Instituto Delete.

Eles fazem de tudo para você querer mais

Para estimular o nosso cérebro a gastar mais tempo com esses dispositivos, as empresas lançam mão de uma série de ferramentas para garantir essa relação de dependência. Nesse sentido, as curtidas e os comentários são o feedback e a aprovação que muita gente espera na vida real.

Outro mecanismo eficiente é o feed infinito, que dá ao nosso cérebro a sensação de que sempre vai haver novidade. Para garantir que você não passe muito tempo longe do dispositivo, os alertas de notificação funcionam como uma isca, que não entrega todo o conteúdo e o faz acessar a rede para ver a que há de novo.

Sem contar os links infinitos, já que uma página costuma te levar para outra, em um looping de sites e aplicações, o que pode acabar consumindo um tempo brutal sem que você tenha saído do lugar. O resultado dessa combinação você já conhece: pegar o celular para ver "só uma coisinha", e depois de meia hora até esquecer por que mesmo foi parar naquela página.

Estar na internet, trabalhando, produzindo conteúdo, estudando, é algo positivo. Mas grande parte das pessoas acaba navegando de forma desordenada, sem saber para onde vai

Carlos Affonso Souza, diretor do ITS Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio)

Hoje todo mundo é multitarefa, e as pesquisas falam que há um problema de foco e concentração. A gente tem acesso a muita informação e não consegue absorver tudo isso

Eduardo Guedes, pesquisador e um dos fundadores do Instituto Delete

Detox digital

Um problema no Whatsapp foi o empurrãozinho que a designer thinker Katia Juliana, 39, precisava para fazer um detox digital. "Eu desinstalei e instalei de novo o aplicativo e mesmo assim ele não funcionava. Daí decidi excluir a minha conta e não disse para ninguém".

A medida, considerada extrema por muitos dos seus amigos, foi tomada depois que ela percebeu que passava tempo demais não só nessa, mas em outras redes sociais. "Eu estava muito viciada. Acordava às 6h30, pegava o celular para desligar o alarme e ficava uns 20 minutos no Instagram. Já saía atrasada de casa. Então comecei a questionar isso", conta.

Foi em dezembro do ano passado que Katia decidiu remover todas as redes sociais do smartphone, e aproveitar sem estresse as férias na praia. "Eu só pegava o celular para tirar uma foto e já guardava, porque nem jogos eu tinha mais, desinstalei tudo. Foi ótimo porque me diverti, descansei e fiquei mais perto das pessoas que eu amo".

E ainda tinha outra vantagem: "A bateria durava muito! Parecia a de Motorola dos anos 2000", brinca.

Vez ou outra, no entanto, alguém ligava para descobrir o porquê de ela estar sumida das redes. "As pessoas ficavam perplexas ao saber que eu tinha excluído tudo do celular. Mas eu respondia: 'tem outros meios de conversar comigo, SMS, ligação... Eu não estou fora do mundo, só não estou usando o Whatsapp!", diz.

A experiência foi ótima, afirma, mas a vida desconectada durou até o início de janeiro, quando a volta ao trabalho a forçou reinstalar o app de conversas, já que era preciso estar em contato com os clientes. No caso dos demais perfis, a acesso continua restrito ao computador.

"Eu gosto de tecnologia, elas são muito úteis no meu trabalho, mas é preciso ter atenção plena, e o celular muitas vezes leva a nossa cabeça para outro lugar, você não está presente", diz.

O tempo antes dedicado às redes sociais é usado hoje para ouvir uma boa playlist, estudar ou simplesmente observar o que acontece ao seu redor. "Nesses momentos eu costumo ter várias ideias", conta.

5 dicas para controlar melhor o tempo no celular

  • Instale um app de tempo de uso

    O iPhone tem uma ferramenta que mede o seu tempo de uso, mas também há opções de apps gratuitos para quem usa Android. Com um desses, é possível ter um diagnóstico de quanto tempo você passa em cada ferramenta do celular, além de poder ativar uma notificação para limitar o uso das mais frequentes.

  • Desative as notificações

    Se você não quer ser interrompido, uma boa opção para render melhor no trabalho ou aproveitar aquele encontro com os amigos é desativar as notificações de alguns apps. Isso porque, na maioria das vezes, você não precisar checar na hora a nova curtida na sua foto ou a mensagem do grupo da família. Para evitar que a curiosidade prejudique a vida real, é melhor deixar a ferramenta restrita a avisos importantes.

  • Faça um filtro nas suas redes sociais

    Para muita gente, essa medida é um pouco extrema, mas pode ser bem eficaz para ganhar tempo ou se dedicar melhor a outras atividades. Se você não quer cancelar suas contas, avalie quais apps podem ficar restritos ao acesso pelo computador. Assim fica mais fácil resistir à tentação.

  • Pergunte-se por que você está usando o aparelho

    Outra dica importante é tentar ter mais coincidência ao usar o celular. É só para passar o tempo? Pense em formas prazerosas de usar esses minutos. Você precisa mesmo acessar determinado conteúdo naquele momento? Está dividindo a sua atenção entre o smartphone e outras atividades? Lembre-se que a produtividade costuma aumentar quando a gente está 100% focado em algo.

  • Estabeleça horários para checar mensagens e redes sociais

    Uma alternativa que funciona para algumas pessoas é estabelecer momentos do dia para entrar nas redes sociais, como na hora do almoço ou em algum intervalo programado no trabalho. Além disso, evite ficar até tarde navegando na internet, porque isso pode atrapalhar seu sono.

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