5G não vai matar o wi-fi

Chefão de tecnologia da Aruba, uma das maiores empresas de wi-fi do mundo, explica o futuro da sua conexão

Gabriel Francisco Ribeiro De Tilt, em São Paulo
Marcelo Justo/UOL

Você pode não reparar, mas a rede wi-fi que você usa em aeroportos, hotéis e restaurantes mundo afora costuma vir marcada com um símbolo laranja. Isso significa que é fornecida pela Aruba, uma empresa fundada em 2002 e comprada há quatro anos pela HP numa aquisição de US$ 2,7 bilhões.

E você também pode achar que a conexão pública não é lá essas coisas, mas provavelmente grande parte dos avanços recentes que ela teve foram fruto do trabalho de Partha Narasimhan e sua equipe. Em recente passagem pelo Brasil, o CTO (chefe de tecnologia) de uma das principais empresas de wi-fi do mundo conversou com Tilt e contou sua meta: tornar a rede "invisível". Ou seja, torná-la cada vez melhor para que você não note sua presença.

Para quem acha que o 5G vai tornar o wi-fi irrelevante, ele responde: a aguardada nova tecnologia de celulares não funcionará sem o apoio do wi-fi. Afinal, é tudo uma questão de potência.

Aquela empresa do wi-fi

A Aruba não é uma empresa de tecnologia tão conhecida como Google, Facebook, Amazon ou Uber, mas, entre as companhias de rede, disputa com a Cisco o topo. Com seu jeito tranquilo de falar, Narasimhan conta uma história pessoal para explicar como a marca é vista pelos consumidores. De origem indiana, ele diz que se encaixa no perfil que é constantemente parado para "checagens aleatórias" em aeroportos pelo mundo. Certa vez, quando essa experiência nada agradável aconteceu no aeroporto de San Francisco (EUA), ele vestia uma jaqueta da Aruba:

"Então, um segurança me chamou e falou: 'senhor'. Quando essas pessoas se aproximam sei que vai ser mais um dia de uma checagem 'aleatória'. Mas aquele agente me perguntou: 'você trabalha na Aruba?'. Eu confirmei, e ele: 'obrigado pelo incrível trabalho com o wi-fi do aeroporto'."

A rede do aeroporto havia passado por uma mudança para turbinar a conexão. Para ele, foi uma prova de que as pessoas sabem que a Aruba existe.

"Me vejo como uma ponte entre as pessoas que usam nossos produtos e os que criam nossos produtos", explica. "O que me motiva é criar soluções. Faço essas entrevistas, conferências e apresentações e isso cria oportunidades para interagir com os usuários. Esse é o maior benefício: minha habilidade de voltar e conversar com o time, falar o que eu escutei, ver problemas que podemos resolver."

Dos primórdios ao wi-fi 6

Tilt: Quais eram os maiores desafios envolvendo o wi-fi quando a Aruba foi criada, em 2002?

Partha Narasimhan: O wi-fi era largamente uma tecnologia de consumidores, e nós apostamos que seria a tecnologia que tornaria possível a mobilidade em empresas. Então, tivemos que fazer essa transição enfrentando três questões: mobilidade, gerenciamento e segurança. Em primeiro lugar: se você usa em casa, você tem um ponto de acesso, um roteador. Mas, se leva para empresas, tem que usar a rede de celular, porque a mobilidade é importante. Segundo: você vai ter um número grande de pontos de acesso, então como gerenciar isso? E em terceiro: a segurança era importante. Em 2002 e 2003, o único mecanismo de segurança do wi-fi disponível não era bom. Criamos o WPA2 para melhorar esses padrões, que depois virou o WPA3, que é a fundação de como as redes funcionam até hoje.

Tilt: Quanto o wi-fi mudou de lá para cá?

Partha Narasimhan: As maiores mudanças foram na velocidade, que ficou progressivamente melhor. Em 2002, era de cerca de 50 Mbps. Passamos disso para 150 Mbps, e alguns anos atrás chegamos aos gigabites. Agora temos um novo padrão, chamado wi-fi 6, que é a sexta geração da rede. Com ele, o melhor ponto de acesso pode chegar próximo de 10 Gbps.

Tilt: Você acha que os usuários entendem as diferenças do novo wi-fi 6? Eles sentem a diferença?

Partha Narasimhan: Na verdade, eles não se importam com os detalhes da tecnologia ou como fazemos isso funcionar. As pessoas na indústria se importam, mas nós, como usuários finais, queremos uma experiência em que isso não importe. Você vai a um jogo de futebol, tira uma foto e quer tuitar sobre isso. Você não se importa se vai ser no wi-fi, na rede móvel ou no Bluetooth. Contanto que vá rápido, está tudo bem.

Temos um objetivo na Aruba que chamamos de "a rede invisível". Permitir que os usuários façam o que eles quiserem, quando eles quiserem, para que eles parem de pensar na rede. Se eles estão pensando nela, quer dizer que algo está errado.

Tilt: O que ainda vem pela frente? O que pode ser melhorado?

Partha Narasimhan: Com o novo padrão, tornamos o wi-fi o mais próximo possível da rede de celular. As indústrias de celular e wi-fi criam novas tecnologias e fornecem entre elas. Hoje, a maior diferença entre ambas é o número de canais a que temos acesso. As melhores operadoras de celular no mundo têm cerca de 150 a 200 megahertz de espectro —no Brasil, isso é menor. O wi-fi tem cerca de 800 megahertz de espectro. Nos EUA, estamos tentando dobrar esse número. Se o FCC (Federal Communications Commission, espécie de Anatel norte-americana) finalizar seu trabalho no ano que vem, o wi-fi vai ter 2 gigahertz de espectro.

Tilt: Como isso torna o wi-fi melhor?

Partha Narasimhan: Quanto maior o espectro, mais capacidade tem a rede —não só em termos de velocidade, mas também de quantos usuários podem se conectar ao mesmo tempo. As pessoas tendem a medir a velocidade e dizer: "ok, posso fazer 2 gigabites por segundo". Só que são 200 dispositivos no mesmo lugar, todos querem ver um vídeo em alta definição.

5G x wi-fi

Tilt: Em breve, o 5G deve se espalhar. Como a nova tecnologia afeta o wi-fi?

Partha Narasimhan: Fazem muita promessa sobre a velocidade e a latência (tempo de resposta) do 5G, mas existem desafios: onde acho os novos espectros? Se eu achar os espectros, quanto dinheiro será necessário para construir a infraestrutura de rede para rodar essas aplicações?

Já podemos ter só com o wi-fi o que o 5G promete.

A própria indústria de celular diz isso: estatisticamente, 80% do uso da rede de celular é dentro de prédios, justamente onde o wi-fi tem a capacidade de brilhar. Devemos usar essa tecnologia, que é mais simples e menos cara de implantar (até porque já está implantada), como uma tecnologia subjacente. Posso fazer isso de maneira imperceptível para o usuário final saia do prédio e nem perceba que mudou para a rede de celular.

Tilt: Você acredita que o 5G vai matar o wi-fi torná-lo menos relevante?

Partha Narasimhan: Na verdade, é o oposto. De novo, olhe para quanto vai custar o 5G. Para mim, o 5G não é uma rede única. Se você remove o wi-fi da jogada, a quantidade de espectros e de investimento que precisa é muito grande. Você não pode simplesmente criar torres maiores, tem que deixá-las, na verdade, menores e mais próximas. Por que lutar contra uma tecnologia que já existe, se você pode usá-la?

Para mim, o único caso em que o wi-fi não é adequado é quando você está se movendo em certa velocidade numa larga área ao ar livre. O nível de força do wi-fi é pequeno e não podemos resolver isso. Para essa questão, a rede celular resolveu o problema e não precisamos ir lá e destruir isso.

Mas, em ambientes fechados, que requerem alta densidade e capacidade, a melhor tecnologia é o wi-fi —até a industria da rede de celulares reconhece que os novos padrões permitem que a rede wi-fi se encaixe melhor na rede celular. O wi-fi é uma tecnologia muito importante para o 5G. Quem disser que o 5G matará o wi-fi estará errado.

Tilt: A Audi pretende substituir o wi-fi pelo 5G, porque a latência e a comunicação entre diferentes máquinas seria melhor. Como a latência funciona no wi-fi e como pode melhorar?

Partha Narasimhan: Do ponto de vista da tecnologia, acreditamos que tudo que a a rede celular pode fazer o wi-fi pode fazer também. Mas temos o espectro que suporta mobilidade humana disponível, temos dez vezes mais do que a melhor operadora de celular do mundo e provamos que dá para implantar isso em escala a um custo muito baixo. Por isso o wif-i vai ser bem-sucedido e se tornar a tecnologia de escolha em ambientes fechados.

Segurança vem da análise de comportamentos

Tilt: O mundo conectado nos deixa mais expostos. Qualquer especialista em cibersegurança vai dizer que não há um sistema 100% seguro. Como podemos ter certeza de que estamos seguros na rede?

Partha Narasimhan: Você pode fazer um prédio ser tão seguro quanto queira, mas a má notícia é que surgem outras tecnologias. Olhe para o prédio onde estamos [o edifício comercial WTC, na zona sul de São Paulo]. Não sei a idade dele, mas várias tecnologias aqui já são velhas. As tecnologias mais novas são construídas com a certeza de que precisamos de um ambiente protegido. Você pode construir direito, implantar bem e tudo o mais, mas a comunidade hacker do lado de fora está muito ocupada e vai achar um jeito de entrar.

Tilt: E como mantê-los do lado de fora?

Partha Narasimhan: Da mesma forma que eles querem entrar, nós procuramos por mudanças de comportamento na rede. Dois anos atrás, um cassino foi hackeado, porque alguém achou um jeito de entrar em um termômetro no aquário no lobby. A partir disso conseguiram entrar na base de dados do cassino. Era um pequeno dispositivo conectado que alguém colocou ali para manter um peixe feliz e outro alguém achou um caminho direto para a base de dados. O dispositivo mandou por meses 3 ou 4 megabites de dados para um sistema do prédio, talvez na nuvem. Um dia, estava mandando gigabites de tráfego. Essa detecção é importante, porque a indústria estatisticamente leva cinco meses para detectar algo ruim na rede. É muito tempo, precisa diminuir para horas, minutos ou segundos.

Tilt: E quando você conecta prédios e sistemas inteligentes, estamos falando de vidas em risco. Não dá para esperar cinco meses para descobrir algo...

Partha Narasimhan: Exatamente, porque se alguém tomar controle é uma situação de vida ou morte. Se você quer ficar assustado, devia olhar para os dispositivos médicos usados hoje. Eles foram construídos muitos anos atrás e ainda estão fazendo seu trabalho, mas agora são conectados à rede e não necessariamente têm proteções de segurança. A rede então tem que estar ali como uma entidade que protege os dispositivos e olha mudanças de comportamento que podem apontar uma invasão.

Todos os sistemas como câmeras, termostatos e afins têm diferentes comportamentos e necessidades. É preciso estabelecer políticas específicas para cada um e seguir monitorando para achar mudanças de comportamento, porque essa é a primeira indicação de que algo está errado.

Tilt: Nesse mundo conectado, você acha que eventualmente vamos desistir da privacidade?

Partha Narasimhan: É uma questão interessante e muito difícil de prever. Na geração mais nova, as expectativas de privacidade são muito diferentes da nossa. Eu olho para os meus pais e vejo que a expectativa deles é bem diferente, meu pai não tem cartão de crédito. Ele simplesmente anda até o banco e pega o dinheiro, ele não acredita em cartão. Eu não toco em dinheiro há um tempo, Estou aqui no Brasil e nem sei como a moeda daqui se parece.

Num jantar da minha geração, o garçom precisaria passar três ou quatro cartões de crédito. Na nova geração, você paga uma vez e divide os gastos em apps. O modelo da GDPR [Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados] na Europa é um bom começo, porque não só previne que usem meu dado para fazer alguma coisa, como exige que eu possa saber para o que meu dado está sendo usado. Posso desabitar isso se eu não gostar. É um bom jeito de dar controle dos dados de volta para o usuário.

Tilt: O que você prevê para o futuro das cidades inteligentes?

Partha Narasimhan: Nós acreditamos nos benefícios de unir os dois mundos, de IT (tecnologia da informação) e OT (tecnologia de operação). As tecnologias do prédio, os sistemas de luz, ventilação, câmeras de segurança... Tudo isso é OT.

Vou dar um exemplo simples do que fizemos no QG da Aruba na Califórnia: começamos um experimento na sala de conferência ao lado do meu cubículo, onde tenho uma reunião após a outra e perco a noção do tempo até alguém me dizer que a reunião acabou e preciso ir para a próxima.

O sistema de luz desse prédio é conectado, cada zona de luz tem uma identidade e podem ser controladas pela rede, desligar ou ligar, deixa mais claro ou escuro. Então, experimentamos integrar o sistema de luz com o Office 365, que é nosso calendário e sabe a programação de reuniões. Criamos uma solução que faz a luz gentilmente piscar quando faltam cinco minutos para o fim da reunião. Isso me ajuda muito.

Levou três meses para acontecer de forma segura, porque se alguém tiver acesso ao sistema de luz agora poderia chegar ao Office 365. A integração precisava ser segura. Depois que conseguimos isso na sala de conferência, levamos para todo o prédio, e agora o número de reuniões que acabam no tempo certo aumentou em 50%.

Era uma coisa boba, mas gerou um enorme ganho de produtividade no prédio. É um exemplo de como os dois mundos, que costumavam ser separados, podem ser unidos.

Tilt: Você acha que existe um limite para quão inteligente tecnologias e dispositivos podem ficar?

Partha Narasimhan: Não acho. O dispositivo pode não necessariamente ter uma inteligência. Um sistema de iluminação que, com sensores, detecta quando um ambiente está vazio, não é inteligente. Nossa habilidade de processar dados vai determinar o quão inteligente pode ficar. É aí em que acreditamos que a escala de dados gerada vai aumentar, e é tão grande que o computador precisa dar conta.

Rede na nuvem pode virar realidade

Tilt: Li você falando de "rede como um serviço". O que é isso, nosso futuro?

Partha Narasimhan: Pense no que a Amazon, Microsoft e Google fizeram. Eles pegaram o armazenamento de computadores e levaram para outro lugar, a nuvem. Você não sabe onde é, mas também não se importa. Antes as empresas tinham data centers locais e tal, hoje você não se importa com o hardware, desde que seja capaz de ter o que você quer, quando quer e desligar quando quiser. Nós acreditamos que o que aconteceu com o armazenamento de computadores sendo consumido como um serviço também vai acontecer com as redes. Mas com uma enorme diferença: no armazenamento, os data centers simplesmente saíram do prédio. No caso das redes, a infraestrutura não pode ser movida. O ponto de acesso precisa sempre estar no prédio.

Tilt: Quais os desafios para isso virar realidade?

Partha Narasimhan: Como falei, a infraestrutura sempre vai estar dentro do prédio. No modelo de hoje, um cliente compra a infraestrutura de rede, implanta e tem um time que gerencia localmente. Isso pode ficar mais moderno e o cliente só diz: 'quero isso de rede, tenho tanto de espaço, tenho quantos usuários e dispositivos que podem se conectar à rede, essas são as aplicações e os parâmetros de performance que quero alcançar'. E aí entregamos um pacote. Acredito que, com o tempo, a indústria de rede também vai passar a entregar um serviço. Hoje entregamos projetos e soluções para os clientes e eles comandam sozinhos —que é onde a indústria de armazenamento de computação estava há 10 anos. Nós temos que criar as ferramentas para resolver esse problema.

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