Oásis futurístico

Dubai prepara cidade inteligente do futuro no meio do deserto; Tilt visitou e mostra como será

Gabriel Francisco Ribeiro* De Tilt, em Dubai (Emirados Árabes)

Como você imagina a cidade inteligente e do futuro? Tudo automatizado? Robôs circulando por todos os lados? Carros autônomos buscando e deixando pessoas? Bom, talvez isso role. Mas, antes, existe um cenário que não parece saído dos Jetsons: são os prédios ganhando "vida" para tornar nossa vida mais fácil.

É no deserto de Dubai, nos Emirados Árabes, que isso começa a sair do papel. No horizonte amarelado da cidade, onde antes só havia areia, desponta uma gigantesca área de construção, de 4,38 km², o dobro de Mônaco. Tilt visitou o palco da próxima Expo 2020, a mais importante feira internacional, organizada pelo Bureau Internacional de Exposições.

Nos arredores da cidade árabe, as ideias mais inovadoras já ganham forma e acabamentos para abrigar a "Copa do Mundo do Amanhã". Estamos falando de um evento que mistura tecnologia, negócios, urbanismo e cultura e deve dar um retorno de US$ 20 bilhões, além da criação de 270 mil empregos em serviços —só Dubai investiu em torno de US$ 8 bilhões (R$ 33 bilhões).

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Uma cidade ganhando vida

Na Expo 2020, a proposta é "conectar mentes, criar o futuro". Então, o que vemos em Dubai é uma cidade inteligente construída do zero no meio do deserto para ditar como será a vida urbana nas próximas décadas.

Isso significa pegar uma folha em branco para colocar as melhores ideias que "mentes conectadas" podem ter sobre inovação urbanística. Mas também significa potencializar as dificuldades de acesso a recursos - como a água, que precisa ser levada por canos até a área reservada para a Expo, e a natureza, que precisou ser importada.

A área central, a mais avançada em termos de estrutura e planejamento urbano, já conta com algumas das mais de 15 mil árvores que serão plantadas na cidade para arejar e nos fazer esquecer que estamos no meio do deserto. O caminho ali é pontuado por estruturas gigantes em formato de cones, que servem apenas para dar um ar mais futurístico.

Nossa chegada não foi lá muito revolucionária: primeiro, um tradicional tour de ônibus por algumas ruas que ficarão de legado para o país. Depois, uma volta a pé pelo coração do projeto. Era para estar tudo pronto, já que falta um ano para a feira começar, mas agora a promessa é de que as obras acabem até o final deste ano —sim, daqui um mês.

Por enquanto, o que mais se destaca no cenário, além do forte calor de quem se atreve a circular a pé, são milhares de trabalhadores, maquinários, guindastes e um barulho interminável de obras apressadas. Mas já é possível ver tudo ganhando forma.

No "coração" da cidade, o Al Wasl, prédio em formato de domo que Dubai espera transformar em cartão postal, está com sua forma estruturada em uma área correspondente a 16 quadras de tênis. Os prédios principais, por sinal, são de arregalar os olhos: parecem vários estádios de futebol em construção.

Esse domo fará a ligação entre os três distritos (oportunidade, mobilidade e sustentabilidade), cujos prédios próprios também possuem diferentes formatos. Esses distritos são cercados pelos pavilhões dos países - destaque para o dos Emirados Árabes, que já está 68% pronto. Por ser o mais avançado, também é o mais impressionante: o gigantesco prédio tem formato de falcão, símbolo local, e pode ser visto do alto da futura área de imprensa da feira.

A China terá um pavilhão no formato da tradicional lanterna do país, o da Coreia do Sul contará com cubos rotativos, o da Arábia Saudita terá formato de uma janela se abrindo... A Expo 2020 tem tudo para ser um espetáculo arquitetônico, com cada país tentando "se mostrar" mais do que o outro em edifícios surpreendentes.

A hora de exibir tecnologias

  • Estados Unidos

    O pavilhão dos Estados Unidos trará o Hyperloop, sistema futurístico de transporte de passageiros ou mercadorias em altíssima velocidade no vácuo, além de robôs, foguetes pessoais e robôs cirurgiões.

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  • Alemanha

    O espaço da Alemanha mostrará projetos ambientais com resultados práticos, como um transporte totalmente movido a zero carbono. O pavilhão ainda dedicará áreas para soluções de energia do futuro.

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  • Reino Unido

    O Reino Unido quer tratar do futuro falando da comercialização do espaço e da criação de exoesqueletos para desabilitados. Inteligência artificial e o tema espacial permearão as demonstrações ali.

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  • Rússia

    No pavilhão da Rússia, no distrito da Mobilidade, haverá a discussão de como conectaremos pessoas e mentes no futuro sem movê-las fisicamente.

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Brasil quer "mudar imagem"

O pavilhão do Brasil na Expo 2020 guarda algumas ironias, em tempos de queimadas, desmatamento recorde, vazamentos de óleo e de lama, desmonte de instituições de proteção ambiental e de pesquisa, acusações contra ativistas e a povos indígenas. Primeiro, ele está situado no distrito de sustentabilidade. Depois, pretende oferecer experiências sensoriais com a água e a natureza para ressaltar a diversidade natural do país.

A participação do Brasil na Expo 2020 é de responsabilidade da Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), com auxílio de ministérios e entidades governamentais. Em entrevista ao Tilt, Sergio Segovia, presidente da agência, diz que o investimento total previsto é de US$ 25 milhões (R$ 105 milhões).

O órgão é vinculado ao Ministério das Relações Exteriores, mas os recursos para a construção do pavilhão são integralmente da Apex-Brasil, que é uma entidade privada sem fins lucrativos —a receita vem de um percentual de contribuição paga mensalmente pelos empregadores brasileiros sobre a folha de salário.

A intenção é que o pavilhão seja construído até abril, data imposta pelos organizadores, e que a participação do Brasil sirva para "corrigir visões distorcidas" —uma referência à crise internacional que o Brasil se envolveu com a (falta de) sustentabilidade. O tema do pavilhão foi definido em agosto de 2018, antes das eleições presidenciais.

O pavilhão nos dará uma enorme oportunidade de mostrar áreas e questões em que somos líderes, além de desfazer percepções equivocadas ou distorcidas sobre o Brasil
Sergio Segovia, presidente da Apex-Brasil

Segovia cita a nossa legislação ambiental, a cobertura de vegetação nativa, o consumo de energia "renovável", a grande biodiversidade para exemplificar "áreas e questões em que somos líderes". Para a Apex, a Expo é uma oportunidade de fazer "marketing" para o Brasil, seja das empresas locais ou de governos. Para isso, é preciso passar uma boa imagem do país. E, claro, ignorar os assuntos "polêmicos".

Arte UOL
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Os prédios não são mais "burros"

A cidade planejada já conta com algumas tecnologias. Os painéis solares, que vão aproveitar o sol quente do país para fornecer energia para prédios, ruas e holofotes, estão instalados no distrito da sustentabilidade. Câmeras também são visíveis em grande parte do centro da feira —segundo dados da organização, serão instaladas cerca de 6.000 delas para monitoramento de pessoas.

Mas, para que a cidade da Expo seja de fato inteligente, é imprescindível que os prédios sejam entregues com antecedência. Só depois de prontos é que eles começam a receber as tecnologias que darão vida para as infraestruturas.

A Siemens é a responsável por implantar sensores e câmeras (próprios e de terceiros) para recolher dados em tempo real sobre a infraestrutura do local. A cidade inteligente, por sinal, gira em torno de dados, seja de objetos ou de pessoas —quer sua privacidade goste ou não.

"A energia sempre foi burra, não sabe se você está lá ou não. Então, colocamos sensores para que só resfrie quando é esperado que pessoas estejam no ambiente. Os sensores entenderão quando você está no prédio, saberão suas preferências", aponta Cedrik Neike, CEO da área de infraestrutura inteligente da Siemens.

Alguns prédios já estão usando o sistema e adequam-se ao ambiente externo e às pessoas dentro dele, regulando o gasto de energia, sabendo a hora de abrir ou fechar janela ou o momento de acionar uma sala de reunião. Isso é só uma pequena amostra do que a cidade inteligente terá. Basicamente a ideia é que tudo seja interconectado, da sua casa até o trabalho. Estão envolvidos nisso desde controle de temperatura até controle de segurança para portas e afins.

Arte UOL

Minha ideia teórica de cidade inteligente: você acorda, vai pra cozinha e debate com a máquina de café. Recebe uma mensagem, seu transporte chegou. Entra no carro autônomo e vai pro trabalho. Você entra e tem área restrita que escaneia seu olho ou digital. Entra em uma reunião, o sistema percebe que não tem 18 pessoas na sala, mas 12, e muda as configurações do ambiente

Oliver Kraft

Oliver Kraft, chefe de projeto da Siemens para a Expo 2020

Você passa 90% do tempo da vida em prédios, então precisamos torná-los o mais sustentável e confortável possível. Isso só dá para fazer com digitalização. Vamos conectar diferentes sistemas, que já existem, para saber sua identidade, liberar sua entrada, indicar vaga de estacionamento, ligar a luz da área onde você vai... Com menos recursos, podemos acomodar mais pessoas

Cedrik Neike

Cedrik Neike, CEO da área de infraestrutura inteligente da Siemens

Gabriel Francisco Ribeiro/UOL Gabriel Francisco Ribeiro/UOL

App controla tudo

Para a Expo 2020, a Siemens criou um aplicativo que será capaz de gerenciar toda a cidade. É como se fosse um sistema operacional aberto para a internet das coisas da cidade.

Em demonstração a jornalistas, o app pareceu intuitivo, apesar de complexo. Ele basicamente recebe em tempo real dados dos vários sensores espalhados por prédios e outras áreas da cidade, corrigindo eventuais falhas. É possível intervenção humana: dados que estejam fora do padrão são apresentados em cores que variam entre o amarelo e o vermelho para que haja uma correção.

O app será capaz de monitorar sistemas de água e irrigação, gerenciar energia e iluminação inteligentes, segurança e autorização de pessoas, infraestrutura, entre outros setores da cidade. A Expo 2020 é um teste para o sistema, que depois deve ser aplicado em outros lugares.

De acordo com a Siemens, 85% dos ativos no mundo ainda estão desconectados e torná-los digitais é a chave para deixar cidades e estruturas inteligentes. Por isso, o app é visto pela empresa como uma solução para comandar transportes inteligentes, sistemas de coleta de lixo, segurança pública e atendimentos de emergência, infraestrutura e veículos elétricos, prédios inteligentes... Ou seja, quase tudo que está ao seu redor no ambiente urbano.

O que faz uma cidade inteligente?

Tecnologia

A cidade inteligente tem muito a ver com tecnologias. Sensores nas casas e prédios, produtos conectados, equipamentos autônomos, operações na nuvem... A internet das coisas e futuras conexões entram nisso.

Pessoas

Mas as pessoas importam, e muito, nas cidades do futuro. Por isso, são criadas soluções urbanas baseadas no conceito de comunidades. O objetivo é trabalhar próximo ao lar, ter acesso a ciclovias, focar o bem-estar.

Sistemas

Por trás de tudo isso, sistemas organizarão tudo o que rola na cidade.Os municípios terão um "sistema operacional" que funciona como central de controle, seja da própria cidade ou operado por empresa parceira.

Big Data e Internet das Coisas são nosso futuro

Toda Expo tem um tema. Em 2015, em Milão, era "Alimentando o planeta: energia para a vida". Desta vez, conexão e digitalização estão no cerne dos debates, dentro dos subtemas: oportunidade, mobilidade e sustentabilidade. Cada um deles terá um pavilhão próprio dentro da Expo, onde países farão demonstrações do que imaginam para o futuro com base nesses tópicos.

A intenção é que tudo seja conectado: na onda de Big Data e da Internet das Coisas (IoT, de "internet of things), os sistemas de energia sustentáveis e a mobilidade das cidades terão que conversar para que o desperdício seja reduzido ao máximo.

No pavilhão de oportunidade, visitantes pensarão em problemas relacionados à água, comida e energia em simulações de ambientes reais. O de mobilidade, por sua vez, mostrará como pessoas, mercadorias e ideias se movem desde o início da humanidade até as cidades do futuro - da exploração antiga à inteligência artificial. Em sustentabilidade, claro, será discutido o futuro do planeta em risco se não mudarmos nossos hábitos.

Não é a primeira vez que uma Expo discutirá as cidades do amanhã. A de Xangai 2010 tinha como tema "cidade melhor, vida melhor", o que mostra que a pauta da urbanização ainda deve render muito.

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Legado fica para o Distrito 2020

A Expo começa em outubro de 2020 e termina em abril de 2021. Depois, toda a área da feira começa a ser transformada pelos próximos seis meses em uma cidade temática que manterá o caráter inteligente, misturando tecnologia com sustentabilidade. O grande domo Al Wasl seguirá como o "coração" do bairro, sendo circundado por espaços exclusivos para pedestres, ciclistas e crianças.

O local futurístico já tem nome: Distrito 2020. Ali, cerca de 80% das estruturas serão aproveitadas para abrigar empresas e lançar apartamentos —a Siemens já afirmou que mudará para lá sua atuação em Dubai.

No país, a Expo é vista como a grande chance dos Emirados Árabes "crescerem e aparecerem". A nação dona do prédio mais alto do planeta e que tenta se colocar como uma opção visada de turismo também tem outro distrito futurista sendo construído. O Dubai Creek, da construtora Emaar, tem 6 km² de área ultraconectada e pretende construir o novo prédio mais alto do mundo.

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