Os futuros da Microsoft

Para Tânia Cosentino, a inteligência artificial deve servir aos humanos, e não competir ou roubar empregos

Lucas Carvalho De Tilt, em São Paulo Arte sobre foto de Claudio Gatti/Divulgação

Quando Tânia Cosentino começou a trabalhar com tecnologia, o mundo era muito diferente. "Um executivo não sobreviveria no mercado de trabalho de hoje agindo como agia 40 anos atrás", diz ela. "A gente ouvia muito: 'vai chorar no banheiro'."

Após 19 anos na multinacional de engenharia Schneider, onde começou como gerente de vendas e saiu como presidente para a América do Sul, em 2019 ela se tornou a principal executiva brasileira em uma das maiores empresas de tecnologia do mundo.

Como presidente da Microsoft no Brasil, Tânia sabe que "chorar no banheiro" não é mais a solução num mercado de trabalho cada vez mais competitivo, diverso e, segundo ela, necessitado de mais mulheres. "Temos que promover a ciência desde a mais tenra idade. Para as meninas, é pior ainda, porque não somos nem estimulada", afirma.

Nesta entrevista exclusiva concedida a Tilt, Tânia fala sobre os desafios de formar mão de obra qualificada para a área, as estratégias para o futuro (incluindo metaverso e inteligência artificial) e a pressão na regulamentação da coleta de dados.

Procura-se mão de obra

Tilt: Desde 2003, a Microsoft organiza anualmente uma competição internacional entre estudantes, a Imagine Cup. O Brasil é uma potência. É uma forma de tentar atrair mais jovens para a área, que sofre com escassez de profissionais?

Tânia Cosentino: A Imagine Cup pode ajudar porque, quando você traz a consciência do que se pode fazer com a tecnologia para um grupo de estudantes não necessariamente da área de tecnologia, isso pode despertá-los para vir para esse mercado de trabalho. Mas, para atender especificamente essa dor que temos hoje, a falta de profissionais, temos uma série de programas de qualificação profissional e parcerias com instituições de ensino.

Tilt: Por que é uma dor? Como essa falta de profissionais afeta a Microsoft?

TC: A gente forma por ano 57 mil profissionais, e o mercado demanda 159 mil. Faltam 102 mil profissionais todos os anos, e esse gap se acumula. E a cada ano que passa, há menos jovens interessados por esse mundo de exatas. No Brasil, é pior. A gente vê uma China, uma Coreia, com uma proporção de profissionais de exatas muito maior. E isso vai atrasar o desenvolvimento econômico do Brasil.

Tilt: Qual é a origem desse problema?

TC: Quando você olha o histórico dos nossos jovens na escola e vê os resultados do Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE], você já começa a ter uma resposta. É só olhar nossa nota do Pisa em matemática, que é extremamente baixa. Uma pessoa com dificuldade para resolver problemas básicos de matemática não se projeta numa profissão de engenharia.

Tilt: Como resolver?

TC: Como pilar fundamental, temos que endereçar nosso problema de educação básica, para que nossos alunos tenham melhores chances no mercado de trabalho. O segundo ponto é promover a ciência desde a mais tenra idade. Eu adorava matemática, participava de olimpíada, mas a maioria dos alunos têm medo. Para as meninas, é pior ainda, porque não somos nem estimuladas. As da geração atual são um pouquinho mais, mas, na minha, eu fui zero estimulada. Ou seja: metade da população brasileira, a gente nem estimula para a área de exatas.

Metaverso e outras estratégias

Tilt: Nos últimos tempos, as Big Techs só pensam em uma coisa: metaverso. Qual é a visão da Microsoft sobre essa tendência?

TC: O nosso desenvolvimento no metaverso vai ser para produtividade no mundo dos negócios. É uma tecnologia que está bombando agora, mas ainda tem muito a acontecer. Todas as empresas estão num momento de aprendizado.

Tilt: No exterior, a Microsoft também é uma concorrente forte no mercado de hardware, com a linha de notebooks, tablets e fones de ouvido Surface. Há chance de esses produtos chegarem ao Brasil em algum momento?

TC: A gente sempre discute isso, porque trazer dispositivo físico requer uma série de coisas, desde a tomada adaptada ao padrão brasileiro até rede de pós-venda. Todo ano a gente levanta o business case e discute com a matriz, é um top of mind meu. Trazer o HoloLens para o Brasil também, agora que estamos discutindo metaverso e realidade aumentada. Não tenho nada concreto, mas sempre faz parte de discussões. O plano de negócios tem que funcionar.

Big Techs no banco dos réus

Tilt: Inteligência artificial também está em alta, e inclusive é uma das principais fontes de renda da Microsoft no mundo todo. Como garantir um desenvolvimento ético e responsável dessa tecnologia?

TC: Inteligência artificial é uma ferramenta para empoderar o humano, não é para competir nem roubar nosso emprego. Mas quem programa o algoritmo é o ser humano, e ele vai programar à sua imagem e semelhança, refletindo o que temos de bom e de ruim. Por isso você vê assistentes virtuais dando respostas enviesadas, reconhecimento facial repetindo padrões de preconceito racial...

Quando percebemos isso, dentro dos nossos produtos, criamos um Comitê de Ética que permeia toda a organização, mas é mais presente na área de pesquisa e desenvolvimento. Quando olhamos uma pesquisa, perguntamos: é relevante, ou é só tec por tec? Tem que ser relevante, tem que ser empoderador e tem que ser inclusivo. Ou não partimos para o desenvolvimento.

Tilt: Esse princípio é aplicado também à coleta de dados dos usuários? As big techs também sofrem críticas pelo modo como lidam com privacidade na era digital.

TC: Se você não está cobrando pelo uso dos seus dados, alguém está usando e monetizando. Nossa posição é de que as empresas de tecnologia precisam ser transparentes na forma como elas constroem os algoritmos. Se não, eu vou casar com quem a big tech quer que eu case, vou comer o que a big tech quer que eu coma, vou comprar o que a big tech quer que eu compre. Eu preciso entender como funciona o algoritmo. Quando há transparência, eu posso tomar uma decisão, se não vou ser levada por fake news, induzida a comprar coisas etc.

Investindo em games

Em janeiro, a Microsoft anunciou, nos Estados Unidos, um acordo para comprar a gigante dos games Activision Blizzard, dona de franquias como Call of Duty, Warcraft, Diablo, Candy Crush e Overwatch. Foi o maior negócio da história dos games, estimado em US$ 68,7 bilhões.

Tilt: Qual é o papel das lideranças regionais da Microsoft no meio de uma aquisição gigante como essa? Você ou outros líderes são envolvidos?

TC: Em aquisições globais, todo o plano é discutido por uma equipe de estratégia global. Quando você tem um país relevante para aquela aquisição, ele é envolvido. Nunca todos os líderes globais vão ser envolvidos, porque você perde até o aspecto da confidencialidade de um projeto desse porte. O país que não faz parte é informado um pouquinho antes do mercado.

Tilt: Vocês já conversam com a equipe brasileira da Activision?

TC: Ainda não podemos conversar. Esperamos todas as aprovações de todos os órgãos reguladores. Podemos até trabalhar internamente, sem falar com o outro lado, pensando, por exemplo: no dia da aprovação, para onde eu vou? Mas temos que esperar. É um processo lento. O mais curioso foi receber um WhatsApp da minha mãe de 83 anos comentando: "tá sabendo da aquisição da Activision?" Minha mãe é quase uma gamer [risos].

Tilt: A compra da Activision também levantou críticas de que a Microsoft está se firmando quase como um monopólio no mercado de games. O que você acha disso?

TC: O mercado é super pulverizado. Mesmo com essa aquisição, está longe de se criar um monopólio. Todo movimento de uma big tech gera ruído, mas quando você olha o tamanho do mercado de verdade, está longe de haver uma dominação. O que a gente quer é preservar, expandir e gerar mais inovação. A falta de competição inibe, no médio prazo, a criatividade e a capacidade de inovação. A Microsoft respeita muito a concorrência.

Uma questão cultural

Tilt: Como é, para você, ser líder de uma das maiores empresas de tecnologia do país e referência para toda uma indústria? Sendo mulher, é solitário?

TC: A liderança é solitária. O executivo número 1 da empresa tem algumas dores que tem que lidar sozinho. Olhando para o lado, o número de mulheres em cargos C-level é mínimo. Não passamos de 10% no Brasil. Existe um caminho enorme a percorrer.

Tilt: Pensando nisso, como você lida com questões de cultura dentro da empresa, como assédio, misoginia e todo tipo de comportamento tóxico que marcam outras empresas, como a recém-comprada Activision?

TC: A sociedade está em constante mudança. Quando eu olho o mercado de trabalho hoje e o que eu entrei há 40 anos, é um mundo totalmente diferente. Um executivo de 40 anos atrás, agindo como agia, não sobreviveria no mercado de trabalho de hoje. Discussões de diversidade e inclusão não existiam. A gente ouvia muito: "vai chorar no banheiro".

Mas temos que entender que algumas coisas são jornadas de aprendizado: você não vai aprender e aplicar no dia seguinte. Diversidade e inclusão é uma jornada, sustentabilidade é uma jornada. Temos que estar abertos a aprender coisas novas todos os dias, escutar e respeitar o diferente, porque é dele que nós vamos aprender.

Tilt: E como isso se aplica a questões de orientação política que afetam a coletividade? Como a vacinação contra a covid-19, por exemplo. A Microsoft exige que funcionários se vacinem?

TC: A pessoa tem o direito de tomar sua decisão de acordo com suas crenças, com sua orientação política e até com suas limitações de saúde. Pedimos comprovante de vacina para entrar no escritório, mas a gente recomenda que ninguém vá trabalhar no escritório. Estamos num modelo híbrido, e 95% da operação é remota. A gente quer manter assim porque funcionamos remotamente. Vamos voltar em rampa, bem suave, esperando melhor condição de saúde.

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