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Funcionários da SpaceX são demitidos após publicarem críticas a Elon Musk

Brendan Smialowski/AFP
Imagem: Brendan Smialowski/AFP

Ellen Alves

Colaboração para Tilt*, de Rio de Janeiro

18/06/2022 11h17Atualizada em 20/06/2022 10h25

Pelo menos cinco funcionários da SpaceX, empresa de desenvolvimento aeroespacial, foram demitidos após publicarem uma carta aberta criticando os recentes comportamentos do seu diretor-presidente, Elon Musk. O número de demissões foi comentado por duas fontes à agência Reuters de notícias.

O texto cita o comportamento de Musk — famoso tanto por ser o homem mais rico do mundo quanto por suas polêmicas — como uma fonte frequente de "distração e constrangimento". A companhia demitiu os responsáveis pela redação e distribuição da carta um dia após o documento circular internamente entre os funcionários.

A carta aberta, divulgada em primeira mão pelo The Verge, critica a presença de Musk no Twitter, além das recentes alegações de assédio sexual feitas contra ele, negadas pelo empresário. No documento, os funcionários pedem às lideranças da empresa que separem "rápida e explicitamente" a empresa da "marca pessoal" de Musk.

O documento chegou a 2.600 funcionários por meio de um canal de comunicação interna da empresa e contou com a assinatura de funcionários, validados através de formulários digitais ou Código QR. Na lista de assinantes estavam presentes todos os espectros de gênero, etnia, idade e funções técnicas da SpaceX.

"Como nosso CEO e porta-voz mais proeminente, Elon é visto como o rosto de SpaceX — cada tuíte que Elon envia é uma declaração pública da empresa. É fundamental deixar claro para nossas equipes e nosso potencial grupo de talentos que essa mensagem não reflete nosso trabalho, nossa missão nem nossos valores".

A publicação cita ainda as políticas de "Tolerância Zero" e "Sem grosseria" adotadas pela empresa para repreender comportamentos inadequados — mas que são reiteradamente violadas por Musk.

"Ativismo exagerado"

A presidente e diretora de operações da SpaceX, Gwynne Shotwell, confirmou, por meio de um email repassado aos funcionários, que a SpaceX "dispensou vários funcionários envolvidos" na redação da carta após uma investigação interna da empresa.

"A carta, as solicitações e o processo geral fizeram os funcionários se sentirem desconfortáveis, intimidados e/ou irritados porque a carta os pressionou a assinar algo que não refletia seus pontos de vista. Temos um muito trabalho crítico a realizar e não há necessidade desse tipo de ativismo exagerado", disse em comunicado, repassado ao The New York Times.

"Lamento pela distração. Por favor, mantenha o foco na missão SpaceX e use seu tempo no trabalho para fazer o seu melhor. É assim que chegaremos a Marte", finalizou Shotwell, em resposta.

A polêmica carta acontece quase um mês após a divulgação de uma denúncia de que a empresa SpaceX teria pago cerca de US$ 250 mil a uma ex-comissária de bordo da empresa para manter em silêncio após as acusações de assédio sexual feitas por ela à Musk.

Decisão pode ir a tribunal

Especialistas acreditam que este pode não ser o ponto final da disputa entre os funcionários e a gestão da empresa, já que o prazo de demissão após a publicação da carta pode configurar ações trabalhistas nos tribunais dos Estados Unidos.

Charlotte Garden, professora de Direito na Universidade de Seattle, explica que apontar a carta como "ativismo exagerado" é uma prova direta de que o caso é assunto de tribunal. "Para ir à juri, uma ação tem que ser orquestrada (certamente o caso aqui) e tem de estar ligada a condições de trabalho", pontua.

Para Mary Inman, advogada que atua na agência de proteção de informantes Constantine Cannon, as 24 horas entre a publicação da carta e a decisão da demissão podem configurar prova de que é uma resposta a manifestações trabalhistas.

"Isso pode muito bem ser visto como retaliação por se posicionar", afirma ela ao The Verge. "O que isso comunica aos funcionários? Basicamente, isso diz [que] nós não queremos que vocês se manifestem."

(*) Com informações de Reuters, The New York Times e The Verge