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Como a tecnologia antibebedeira em breve nos protegerá em ruas e estradas

Getty Images
Imagem: Getty Images

Kyle J.D. Mulrooney e Guy C. Charlton

The Conversation*

28/03/2022 04h00

Apesar das mortes e ferimentos causados por embriaguez ao volante terem diminuído nas últimas décadas, isso ainda continua sendo um grande problema no trânsito australiano.

Os limites de concentração de álcool no sangue (CAS) ajudaram desde que entraram em vigor há mais de 25 anos, mas nova tecnologia poderá acabar definitivamente com o problema da embriaguez ao volante.

Nos Estados Unidos, o enorme projeto de lei de infraestrutura aprovado pelo Congresso no ano passado obriga as fabricantes de veículos a os equiparem com tecnologia avançada de prevenção de embriaguez ao volante. Esses sistemas podem tanto monitorar o desempenho do motorista, para detectar se sua capacidade psicomotora está alterada, quanto testar a CAS do motorista para determinar se está acima do limite legal.

O Departamento dos Transportes dos Estados Unidos deu liberdade para escolha do tipo de sistema que será usado pelos fabricantes, com a exigência de que sejam instalados nos novos carros até 2027.

Esforços semelhantes foram recomendados na Austrália, com Victoria sendo a única jurisdição fora dos Estados Unidos a testar a nova tecnologia.

Como funcionam os sistemas de monitoramento

Os sistemas de assistência à direção (SAD) são em grande parte automáticos e discretos, operando com pouca ou nenhuma interferência do motorista.

Esses sistemas monitoram coisas como o volante, freios e a trajetória do carro, permitindo ao veículo deduzir o quanto o motorista está alerta e acionando alarmes ou mesmo adotando uma ação corretiva, como frenagem de emergência autônoma, se necessário.

Avanços mais recentes nos SAD têm se concentrado mais especificamente no motorista, usando vídeo em tempo real para monitorar coisas como a posição da cabeça, fechamento das pálpebras e a direção do olhar para detectar a incapacidade do motorista.

Em uma situação de emergência, esses sistemas também podem trabalhar juntos para impedir uma colisão. As câmeras podem determinar a incapacitação do motorista, por exemplo, e a tecnologia de condução automática pode então levar o veículo a um local seguro.

Essas tecnologias estão sendo integradas nos veículos desde o início dos anos 2000, principalmente para monitorar a fadiga e a distração. Hoje, a maioria dos veículos novos vem com os esses sistemas e eles estão se tornando cada vez mais sofisticados.

Na União Europeia, a tecnologia de SAD será obrigatória em todos os carros novos a partir de julho deste ano. A China também está avançando na sua exigência em todos os veículos novos.

As novas tecnologias visam especificamente a embriaguez ao volante

Outras tecnologias estão sendo desenvolvidas para visar mais especificamente a embriaguez ao volante, por meio de sistemas de detecção que usam sensores de álcool.

Uma delas é um sistema baseado em bafômetro, que pode determinar a concentração de álcool no sangue do motorista a partir da respiração normal dentro do carro. Outra usa um sistema baseado em toque, que usa sensores no botão de ignição ou no câmbio para determinar a concentração de álcool no sangue do motorista abaixo da superfície da pele.

Sistema da Dadds quer detectar álcool no sangue com um toque do motorista - Divulgação - Divulgação
Sistema da Dadds quer detectar álcool no sangue com um toque do motorista
Imagem: Divulgação

Se qualquer um desses sistemas determina que o motorista está alterado ou acima do limite legal, ele entrará em ação. Isso pode significar não permitir que o carro dê partida ou se mova, dar um alerta ao motorista ou assumir o controle do carro e estacioná-lo fora da via.

Essa nova tecnologia estará disponível para licenciamento em veículos comerciais ainda neste ano.

Alguns críticos têm expressado preocupação com a confiabilidade dos sistemas, assim como em questões de privacidade relacionadas a como os dados dos motoristas serão coletados e usados.

Outros se queixam da perda de liberdade e das inconveniências que poderiam resultar em caso de falhas no sistema.

Como nossa abordagem atual para embriaguez ao volante está fracassando

Esta nova tecnologia pode sim representar uma vasta melhoria em comparação ao nosso atual sistema de policiamento de embriaguez ao volante, que é caro, não confiável e não tem sido eficaz na eliminação do problema.

A Austrália e outros países empregam em grande parte testes após a polícia parar veículos aleatoriamente ou por suspeita, assim como por blitz policial sistemática. A própria aleatoriedade dessas intervenções limita sua eficácia, especialmente em ambientes não urbanos. Medidas punitivas como penas de prisão também parecem não ter impacto, particularmente entre reincidentes.

Além disso, os testes de bafômetro realizados pela polícia podem ser falhos e estão sujeitos a erro humano.

Homem fazendo teste do bafômetro - Eduardo Valente/Futura Press - Eduardo Valente/Futura Press
Há diversos problemas nos sistemas atuais para detectar motoristas que beberam
Imagem: Eduardo Valente/Futura Press

Nossos atuais métodos de fiscalização também violam os direitos das pessoas e contribuem para práticas discriminatórias, como excessos no policiamento de áreas específicas ou grupos minoritários.

A abordagem atual também é incapaz de reconhecer os vários fatores culturais, socioeconômicos, demográficos e outros que levam ao uso prejudicial de álcool e drogas, condução sob condições psicomotoras alteradas e a subsequente interação com o sistema de justiça criminal.

Por exemplo, apesar dos aborígenes e ilhéus do Estreito de Torres apresentarem menor probabilidade de dirigirem embriagados do que os demais australianos, são eles que apresentam maior probabilidade de se exceder na bebida, com taxas significativamente mais altas de condenação por embriaguez ao volante e apresentarem participação desproporcionalmente alta em acidentes de trânsito envolvendo embriaguez.

Pesquisa sugere uma série de fatores que contribuem para esses índices mais altos, muitos dos quais enraizados na longa história de violência colonial, maus tratos e espoliação dos povos das Primeiras Nações.

Apesar de um sistema passivo de detecção de incapacitação do motorista não tratar diretamente desses fatores causais, essas tecnologias ao menos reduzirão a probabilidade de interações dessas pessoas com a justiça criminal e suas repercussões legais subsequentes, cujas consequências podem persistir por toda a vida.

Uma redução do foco em respostas reativas e punitivas pode criar mais oportunidade para atenção às intervenções sociais, culturais e baseadas em saúde. Isso é particularmente relevante quando consideramos o papel da dependência de álcool na embriaguez ao volante, e ao fato de muitos condutores embriagados enfrentarem uma série de problemas sociais, econômicos e de saúde, especialmente os reincidentes.

Inovações tecnológicas têm sido usadas com sucesso para prevenir o roubo de carros. Logo, se as preocupações de privacidade puderem ser tratadas e administradas, esses sistemas podem se transformar em uma forma de inibir a embriaguez ao volante a um custo financeiro reduzido para as comunidades, ao mesmo tempo também minimizando os males causados por nossa estrutura legal vigente.

Este artigo é de autoria de Kyle J.D. Mulrooney, professor sênior de criminologia, codiretor do Centro para Criminologia Rural da Universidade da Nova Inglaterra, e de Guy C. Charlton, professor associado da Universidade da Nova Inglaterra, reproduzido de "The Conversation" sob licença da Creative Commons.