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Guerra 'chega' ao espaço: sem foguete russo, missão para Marte deve atrasar

Nave russa Soyuz MS-20, em lançamento para a Estação Espacial Internacional (ISS), do cosmódromo de Baikonur no Cazaquistão - Kirill KUDRYAVTSEV / AFP
Nave russa Soyuz MS-20, em lançamento para a Estação Espacial Internacional (ISS), do cosmódromo de Baikonur no Cazaquistão Imagem: Kirill KUDRYAVTSEV / AFP

Marcella Duarte

Colaboração para Tilt, em São Paulo

01/03/2022 13h42Atualizada em 01/03/2022 14h18

A guerra iniciada pela Rússia contra a Ucrânia na última semana deve impactar também o avanço da exploração espacial.

Um novo rover (veículo de exploração do espaco) seria enviado para Marte no segundo semestre deste ano, como parte da missão ExoMars, parceria entre a ESA (Agência Espacial Europeia) e a agência russa Roscosmos. Porém, o lançamento pode atrasar diante das sanções impostas ao país russo devido aos ataques.

Ontem (28), a ESA declarou que é "muito improvável" que ele aconteça em 2022. Assim, seria preciso esperar uma próxima janela de lançamento — momento ideal para ir da Terra ao planeta vermelho, quando estão mais próximos. O plano inicial previa o pouso do robô em Marte em 2023.

O contexto por trás da exploração de Marte

Na última década, ESA e Rocosmos têm trabalhado juntas na ExoMars, que inclui uma série de naves robóticas. Em 2016, foi lançada a primeira delas: um orbitador, para analisar a atmosfera do planeta, e um lander (veículo de pouso), para testar a capacidade de pousar na superfície marciana.

O primeiro foi bem-sucedido; o segundo caiu devido a um problema de software.

A fase mais aguardada é justamente o lançamento do rover: um robô-jipinho, como o Perseverance, da Nasa.

Batizado Rosalind Franklin — uma cientista inglesa que ajudou a desvendar a estrutura do DNA —, ele foi construído pela agência europeia. Com câmeras, sensores e uma broca, seu objetivo é explorar a superfície e procurar por sinais de vida em Marte.

A Rússia ficou a cargo da estrutura de lançamento e pouso, que seria realizado com um foguete Proton, a partir do Cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão. E rover atingiria a superfície marciana em um lander Kazachok.

Possível adiamento

O provável adiamento é resultado das sanções —nas áreas de finanças, energia, transporte, tecnologia e outras — aplicadas, principalmente, pela União Europeia e pelos Estados Unidos em resposta contra a invasão russa da Ucrânia.

A ESA disse que deve estar alinhada com as ações de seus membros, parceiros internacionais e industriais, diante das "casualidades humanas e trágicas consequências da guerra na Ucrânia".

A decisão ainda não é oficial; o diretor geral da agência deve analisar as opções, consultar os 22 países-membro, e emitir um parecer formal nas próximas semanas.

Resposta à Rússia

O anúncio da ESA sobre o possível adiamento da missão, na verdade, foi uma resposta da agência à uma decisão russa, que abalou a cooperação espacial entre os países.

Na semana passada, a Rocosmos já havia anunciado que suspenderia os lançamentos utilizando seu foguete Soyuz, na base da agência europeia na Guiana Francesa, América do Sul.

Foram retirados 87 trabalhadores russos do local, "suspendendo a cooperação com parceiros europeus na organização de lançamentos espaciais".

Isso pode afetar, pelo menos, quatro missões europeias nos próximos meses, de lançamentos de satélites realizados em parceria com a empresa francesa Arianespace.

A Rússia também anunciou que excluiu a Nasa, dos EUA, de uma missão conjunta para exploração do planeta Vênus, chamada Venera-D, prevista para 2029.

Mas, apesar de tudo, os dois países continuam trabalhando juntos para manter as atividades da Estação Espacial Internacional (ISS), como têm feito há mais de duas décadas.

Símbolo da diplomacia pós-Guerra Fria, a ISS usa energia do lado norte-americano e motores de naves russas para se manter em órbita. Astronautas dos dois países, e de outros parceiros internacionais, convivem em harmonia no laboratório no espaço.

O que é a tal janela de lançamento?

Uma viagem até Marte leva entre seis e oito meses. Mas ela não pode acontecer a qualquer momento: é preciso respeitar uma janela de lançamentos, chamada Órbita de Transferência de Hohmann.

A cada 26 meses, durante cerca de um mês, o planeta está em oposição à Terra —ou seja, os dois estão o mais próximos possível, a cerca de 55 milhões de quilômetros.

Esse é o momento ideal para viagem. Além de gastar menos combustível, é a trajetória mais segura e inteligente. Por isso que missões ao planeta vermelho acontecem, em geral, a cada dois anos.

Para voltar à Terra, também é preciso esperar a próxima oposição.

Ou seja, se não for lançado este ano, o rover terá de esperar pelo menos até 2024 para ir ao espaço. A missão já havia sido adiada em 2018, por atrasos de engenharia e financiamento, e em 2020, devido à pandemia de Covid-19.