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'Nova Steve Jobs': 4 fatos sobre julgamento de ex-estrela da biotecnologia

Elizabeth Holmes era presidente-executiva da Theranos, uma empresa que prometia detectar várias doenças com teste feito com uma gota de sangue - Stephen Lam/Reuters
Elizabeth Holmes era presidente-executiva da Theranos, uma empresa que prometia detectar várias doenças com teste feito com uma gota de sangue Imagem: Stephen Lam/Reuters

Cláudio Gabriel

Colaboração para Tilt, do Rio de Janeiro

03/12/2021 13h27

No terceiro depoimento para a Justiça dos Estados Unidos, realizado nesta semana, a jovem empresária, que chegou a ser apelidada de nova 'Steve Jobs', Elizabeth Holmes, tentou colocar culpa em outras pessoas no caso da empresa de biotecnologia Theranos.

O grupo, que já foi avaliado em US$ 10 bilhões, prometia um exame que necessitava apenas uma gota de sangue para detectar várias doenças de forma rápida. O produto não deu certo, e as acusações de fraude começaram a surgir depois de revelações da imprensa dos EUA.

Acusada em fraude na criação da tecnologia, ela agora admite que foi realmente presidente-executiva da Theranos nos anos 2010, época em que as acusações apareceram.

A defesa de Holmes culpou o ex-diretor de operações e ex-namorado Sunny Balwani (outro julgado, só que separadamente), além da empresa de marketing Chiat Day, que produziu peças publicitárias para divulgação do produto. Holmes diz que eles e Balwani criaram a fraude juntos.

A principal revelação foi de que ela ocupava o cargo mais importante na empresa, algo que não havia revelado anteriormente. Isso fez com que os questionamentos durante a sessão do julgamento fossem em cima da responsabilidade do caso. Mas, para tentar se eximir da culpa, Holmes ainda contou mais detalhes da operação da empresa, dizendo que grande parte desses problemas era escondida e não chegava ao seu conhecimento.

No depoimento, Holmes reconheceu que sabia da má situação financeira da Theranos desde o fim de 2013, que alterou textos de relatórios feitos por empresas farmacêuticas para trazer credibilidade e tentou controlar as reportagens na imprensa que divulgavam a fraude do grupo.

A colaboração da ex-estrela da biotecnologia com a Justiça dos EUA pode auxiliar na redução de sua pena. Caso seja condenada pelo júri nos Estados Unidos pelas 11 acusações de fraude, Elizabeth Holmes pode pegar até 20 anos de prisão. O processo teve iniciou no dia 9 de setembro deste ano e deve levar mais algumas semanas até chegar a conclusão.

Confira a seguir quatro fatos sobre o depoimento:

1 - A falta de dinheiro

Por conta dos problemas financeiros da empresa, Elizabeth Holmes participou do esquema que alterou logos e protótipos do produto antes de enviar para empresas farmacêuticas. Era uma falsificação, já que, na realidade, esses grupos farmacêuticos não haviam dado a autorização para uso.

Em análise de planilhas da Theranos, os jurados puderam ver que, em setembro de 2013, a companhia tinha cerca de US$ 14,5 milhões sobrando — volume que acabaria em menos de um ano. Na semana seguinte, a Theranos levantou US$ 21,9 milhões.

Mas a situação era tão dramática que, em dezembro, o valor em caixa já havia sido reduzido para US$ 15 milhões. O grupo decretou falência no ano de 2018.

2 - Relacionamento abusivo

Outro caso que já havia sido abordado pela defesa de Holmes nos julgamentos anteriores e voltou à pauta desta semana foi o relacionamento com Balwani. Holmes o acusa de abuso sexual e psicológico. Ela veio às lágrimas quando relatou que, em diversos momentos, tinha que obter aprovações dele.

"Muitas vezes tentei perguntar a ele se estaria tudo bem se eu pudesse ver um amigo antes de ir para o escritório ou para uma reunião de trabalho", diz ela, exemplificando o tipo de relacionamento abusivo que tinha com Balwani.

Segundo Holmes, seu ex-namorado controlava quando ela comia e dormia e "ficava muito zangado" se ela não o ouvisse.

3 - O conflito com jornalistas

Após a revelação da mentira dos testes por parte de jornalistas do Wall Street Journal, dos Estados Unidos, Holmes e Balwani tentaram descobrir quem eram as fontes dentro da empresa que haviam vazado as informações para a imprensa.

Eles chegaram a enviar um comunicado para os funcionários destacando que: "A Theranos irá considerar todos os remédios apropriados, incluindo entrar com um processo contra você".

Esse processo de ameaça continuou sendo feito com profissionais dentro das empresas farmacêuticas, que descobriram o esquema e, claramente, com os jornalistas.

4 - Os logotipos

Uma história também teve repercussão na audiência: o uso de logotipos "falsificados". Antes de enviar pedidos de financiamento para diversos investidores (sendo a principal a empresa de farmacêutica Walgreens), documentos da Theranos apresentavam falsos certificados e logotipos de empresas farmacêuticas, que diziam que o produto era confiável e existia.

Um dos casos foi o da Pfizer, que agora produz vacinas contra o coronavírus. Como uma grande empresa farmacêutica, ela apareceu em todas as páginas de relatórios criados falsamente pela Theranos. O problema é que nenhuma das companhias sabia desses documentos.

A credibilidade dos logos supostamente oficiais trouxe investimentos, como um de US$ 6 bilhões, feito em 2014 pelo advogado Daniel Mosley.

Sobre isso, Holmes disse ter sido um "erro honesto" e que buscava transmitir certa parceria. O problema é que alguns contratos dos grupos farmacêuticos mostravam que não era permitido o uso das imagens como representação deles. Esse tema deve aparecer novamente nos questionamentos à Elizabeth.

Um novo interrogatório ainda não está marcado. A partir de agora, começa a tentativa de destrinchar os meandros por parte das fraudes dentro da Theranos.

Como Holmes confirmou que foi presidente-executiva da companhia, os questionamentos devem girar agora em torno do conhecimento que ela tinha sobre as fraudes.

Apesar disso, a expectativa por parte da defesa é positiva, pois acreditam que vão provar o controle que Balwani supostamente exercia sobre sua ex-namorada.