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Após denúncia contra Facebook, delatora diz que pessoas devem trabalhar lá

05.out.2021 - Frances Haugen, ex-funcionária do Facebook em testemunho no congresso dos Estados Unidos - Reprodução
05.out.2021 - Frances Haugen, ex-funcionária do Facebook em testemunho no congresso dos Estados Unidos Imagem: Reprodução

Colaboração para Tilt, em São Paulo

29/11/2021 16h13Atualizada em 29/11/2021 16h22

Depois de fazer diversas denúncias que repercutiram em diferentes países e abalaram a imagem do Facebook, a ex-gerente de integridade da empresa Frances Haugen afirmou, em entrevista ao site especializado Wired, que profissionais devem sim trabalhar na empresa, pois ainda podem causar um impacto positivo na companhia.

Após sair do Facebook, Frances vazou documentos confidenciais da empresa para a imprensa e autoridades dos Estados Unidos. Segundo Haugen, as redes sociais do grupo Facebook (atualmente chamado de Meta) "enfraquecem a democracia", ao colocar os lucros acima da segurança e do bem-estar dos usuários.

Depois de semanas de intensas críticas públicas (desde o final de outubro), Haugen, que também já trabalhou para o Google, Yelp e Pinterest, destacou durante a entrevista que, apesar de tudo, se sente muito positiva "em relação à maioria das empresas do Vale do Silício".

"Não acho que haja uma podridão inerente ou algo parecido. Eu acredito que existe uma necessidade de transparência em qualquer poder, qualquer plataforma que tenha muito poder", disse ela.

Ao ser questionada sobre ela ter se juntado ao Facebook mesmo após denúncias anteriores a dela, a ex-funcionária respondeu destacando que os problemas serão resolvidos com mais pessoas trabalhando para o grupo e focadas nisso.

"Acho que precisamos de muito mais pessoas trabalhando dentro do Facebook para consertar os problemas. Eu encorajo fortemente as pessoas a trabalharem no Facebook", afirmou.

É possível ser íntegro e trabalhar no Facebook?

É uma das perguntas que Haugen costuma receber, segundo ela. Sua resposta sobre isso é que: a rede social é "uma organização plana o suficiente para que, se muitas pessoas fossem lá determinadas a consertá-la, acho que teriam um impacto positivo."

A delatora destacou ainda que o motivo por ela ter saído do Facebook não foi por causa das informações as quais teve acesso e das denúncias sobre elas, mas sim porque ela se mudou para Porto Rico para cuidar da saúde. Como o seu local de trabalho oficial na empresa de Mark Zuckerberg é em outra cidade nos Estados Unidos, ela pediu demissão.

Questionada se teria continuado no Facebook caso a companhia liberasse para que ela trabalhasse em outro lugar, ela disse que não teria saído naquele instante. Apesar disso, ela ressalta que, em algum momento, ela "teria de partir".

Por que decidiu vazar os documentos e os problemas da empresa?

A decisão, de acordo com a entrevista, foi tomada após ela ter entendido que o Facebook não conseguiria resolver seus problemas sozinho.

"A realidade de qualquer projeto de organização é que, se você deseja realmente mudar, precisa ter uma massa crítica de pessoas trabalhando para resolver um problema", afirmou.

"No Facebook, eu estava em um grupo de cerca de sete ou oito gerentes de produto e gerentes de programa. Em um período de seis semanas, todos foram embora. Não acho que fui a única que sentiu que o Facebook tinha desistido de sua missão ou não a estava levando a sério", afirmou ao site da Wired.

Ela ainda voltou a destacar que sabia que o Facebook tinha problemas antes mesmo de fazer parte do conglomerado, afirmando que um amigo "se radicalizou" por conta da rede social. No entanto, Haugen disse que, quando aceitou a proposta, pensava que o problema se encontrava apenas nos Estados Unidos.

"Nunca pensei nisso no contexto de lugares muito mais frágeis do mundo. Mas mesmo depois de duas semanas de adesão, eu estava tipo: 'oh, meu Deus, isso é muito pior do que eu pensava que seria'. E então eu acho que em algum momento em 2020, comecei a perceber quantas vidas estão em jogo", afirmou.

Facebook Papers

Desde o fim de outubro, o mundo tem visto uma avalanche de reportagens, veiculadas por um consórcio de 17 jornais norte-americanos e brasileiros, sobre como o grupo Facebook (atualmente Meta), dono da rede social, do Instagram e do WhatsApp, lida com assuntos como desinformação, discurso de ódio, interferência política, saúde mental de jovens e crianças, entre outros.

Algumas publicações chegaram a dizer, com base em documentos internos vazados da empresa, que o seu fundador, Mark Zuckerberg, vem priorizando o lucro em detrimento da segurança das pessoas na rede — o que ele negou posteriormente. O caso foi apelidado de "Facebook Papers" (documentos do Facebook, em tradução livre).

De onde saíram tantas acusações?

Milhares de documentos internos do Facebook foram vazados por Frances Haugen. O caso repercutiu tanto que ela prestou depoimento no Subcomitê de Comércio do Senado dos EUA para falar sobre os arquivos, que teve acesso durante o período que trabalhou na empresa.

O que os documentos revelam?

São vários os temas abordados pela imprensa que teve acesso aos arquivos. Confira a seguir as principais polêmicas e acusações contra o Facebook:

1. Boa parte das reportagens cita exemplos que indicam a falta de investimento em moderação de conteúdos, o que favorece a disseminação de discursos de ódio e campanhas de desinformação.

2. Os algoritmos da rede social são mal compreendidos pelos próprios funcionários da empresa. O termo "caixa preta" chegou a ser usado como uma analogia para a falta de transparência de como a plataforma funciona.

3. A percepção de que Zuckerberg sabia desses problemas também foi noticiada.

4. A decisão do Facebook de deixar de agir em temas polêmicos (como a moderação de conteúdo) para não perder espaço em mercados lucrativos — que incluem governos autoritários — também foi destacada. A empresa negou que isso fosse verdade.

5. Erros no sistema automatizado de detecção de conteúdos violentos à época do massacre em duas mesquitas na Nova Zelândia levaram a empresa a melhorar a eficiência de seus algoritmos para que vídeos de atiradores matando pessoas não voltassem a viralizar na plataforma.

6. Um teste feito por uma funcionária mostrou que o Facebook é capaz de estimular o sentimento de ódio e radicalizar pessoas.

7. O Instagram teria cogitado exibir mais memes e imagens de natureza no lugar de posts sobre corpos no feed da rede social. A ideia surgiu depois que pesquisadores do Facebook descobriram que a ênfase da rede social em cenas corporais causava prejuízos à autoimagem e saúde mental de parte dos usuários.

8. O emoji de raiva no Facebook pode ter facilitado propagação de fake news.

9. A empresa pode ter censurado opositores de governos, como denúncia envolvendo o Vietnã, ano passado, quando o governo vietnamita teria pressionado a empresa de Zuckerberg a censurar postagens dos dissidentes do regime.

10. Problemas com moderação de conteúdo em regiões que usam idioma diferente do inglês.

11. Falhas da inteligência artificial para detectar, por exemplo, discurso de ódio e conteúdo violento.

12. Empresa abria exceções para políticos e lobistas dentro da rede social, como Donald Trump.

13. Cortes de investimento para coibir o abuso infantil.

*Com texto de Rosália Vasconcelos