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Empresas querem contratar, mas por que robôs barram milhões de currículos?

Softwares ignoram currículos - Getty Images/iStockphoto/Olga Strelnikova
Softwares ignoram currículos Imagem: Getty Images/iStockphoto/Olga Strelnikova

Colaboração para Tilt, em São Paulo

06/11/2021 04h00

Não passar em um processo seletivo de emprego pode ser bem frustrante. Ainda mais se a seleção foi minuciosa e envolveu dedicação para preencher vários dados. Mas, sabia que o problema pode estar justamente aí? Um estudo da Escola de Negócios de Harvard (EUA), divulgado no início de outubro, afirma que softwares de recrutamento criam barreiras e distanciam bons candidatos dos empregadores.

Segundo a pesquisa, 88% dos recrutadores ouvidos concordam que as pessoas com perfil mais alinhado para as vagas de alta qualificação são eliminadas pelas plataformas.

O índice sobre para 94% quando os processos são para trabalhadores de média qualificação. Isso também representa uma desvantagem para as empresas, pois podem tornar as contratações menos assertivas.

Um dos dados apresentados pelos pesquisadores de Harvard é que 49% das empresas optam por excluir candidatos que apresentam lacunas no currículo — já a partir de 6 meses sem emprego.

O fato é que a ferramenta não tem como avaliar profissionais que precisaram se afastar do mercado de trabalho por questões pessoais, como problemas de saúde, além de mães que ficaram em casa para cuidar dos filhos, veteranos de guerra, imigrantes e pessoas que não conseguiram concluir a graduação, por exemplo.

Por que isso acontece?

De acordo com os cientistas de Harvard, cada critério adicionado à vaga nesses sistemas automatizados com inteligência artificial ajuda a excluir candidatos potencialmente qualificados para a função.

Ou seja, quanto mais requisitos, menor é a probabilidade de uma pessoa se classificar. Isso fica ainda mais latente já que são usados para várias funções, como a checagem de antecedentes criminais.

"Esses sistemas são vitais. No entanto, eles são projetados para maximizar a eficiência do processo. Isso os leva a aprimorar os candidatos, usando parâmetros muito específicos para minimizar o número de candidatos", diz um trecho da pesquisa.

Ao The Wall Street Journal, o pesquisador principal, Joseph Fuller, destacou casos em que hospitais abrem vagas para enfermeiros que saibam inserir dados dos pacientes nos sistemas de prontuário. No entanto, profissionais acabam excluídos, já que a busca dos currículos se baseia em qualificações de "programação de computador".

A mesma situação acontece em empresas de energia que precisam de profissionais para consertar linhas de transmissão elétrica, mas colocam como requisito experiência no atendimento a clientes.

Sem alterar as exigências

A pesquisa ainda destaca que boa parcela dos empregadores (72%) não reformula o modelo de cadastro ao abrir vagas para profissionais de qualificação média — 19% alteram significativamente os requisitos e apenas 8% abrem um novo questionário para o preenchimento de dados.

Isso pode afunilar ainda mais a seleção, já que mescla critérios usados em outros processos — alguns deles bem antigos e ultrapassados.

Quando se trata de trabalhadores altamente qualificados, o cenário é mais acentuado: 38% dos empregadores usam o mesmo modelo; 35% mudam significativamente e 25% criam um formulário do zero.

Mudanças nos padrões

Algumas das principais corporações dos Estados Unidos já passaram a diversificar os processos seletivos, na expectativa de contratar candidatos mais facilmente e promover acesso ao mercado de trabalho.

A IBM relatou aumento de 63% em candidatos de minorias sub-representadas depois que retirou a obrigatoriedade de diploma em metade dos cargos no país. A medida veio após a empresa ter dificuldades para contratar profissionais de segurança cibernética e desenvolvimento de software.

Já a Microsoft se dedicou à contratação de pessoas com autismo quando identificou que seu sistema de triagem e o processo de entrevista de alto estresse não eram receptivos ao público.