PUBLICIDADE
Topo

Nasa enviará sonda a asteroides 'troianos' neste sábado; saiba tudo

Lucas Carvalho

De Tilt, em São Paulo

15/10/2021 04h00

Sem tempo, irmão

  • Sonda Lucy terá a missão de estudar asteroides 'troianos', que têm esse nome por serem batizados em homenagem a personagens da Guerra de Troia
  • Ao todo, a nave deve visitar sete asteroides em 12 anos, mas poderá continuar voando por muitas décadas depois
  • O lançamento será transmitido ao vivo pelo canal da Nasa no YouTube neste sábado (16), a partir das 6h00 (de Brasília)

Neste sábado (16), a agência espacial norte-americana Nasa vai lançar uma sonda com a tarefa de estudar os misteriosos asteroides "troianos": duas nuvens de rochas, todas batizadas em referência a personagens da clássica história da Guerra de Troia, da mitologia grega, que acompanham o planeta Júpiter há milhares de anos.

Batizada de Lucy, em homenagem ao famoso fóssil de um Australopithecus de 3,2 milhões de anos descoberto em 1974, a missão será a primeira da Nasa a estudar bem de perto esses asteroides que, segundo cientistas, são "restos" da formação do Sistema Solar, há 4 bilhões de anos.

O lançamento está previsto para acontecer às 6h34 (horário de Brasília) de sábado e será transmitido ao vivo pelo canal da Nasa no YouTube. Um foguete Atlas V, da United Launch Alliance, vai partir do Cabo Canaveral, na Flórida, e dar duas voltas em torno da Terra para pegar "impulso" e ajustar sua trajetória rumo a Júpiter.

Se tudo der certo, Lucy deve passar por oito asteroides num espaço de tempo aproximado de 12 anos. Nenhuma outra missão espacial na história foi lançada para tantos destinos diferentes numa viagem só.

O itinerário da missão

Os asteroides troianos ficam localizados em dois grupos que giram em torno do Sol pegando carona na órbita de Júpiter. Uma fica 60 graus à frente do planeta e a outra fica 40 graus para trás, formando uma espécie de "escolta".

O primeiro asteroide a receber a visita da sonda não será um troiano, mas sim o Donaldjohanson, uma rocha de 4 quilômetros de diâmetro localizada no Cinturão de Asteroides, entre Marte e Júpiter — o nome difícil é uma homenagem ao paleontólogo Donald Johanson, que descobriu o esqueleto Lucy nos anos 70.

Depois dessa pequena parada, aí, sim, Lucy vai seguir caminho para os asteroides troianos que seguem Júpiter. Os primeiros serão em 2027: Eurybates e seu pequeno satélite, Queta, em agosto; e Polymele em setembro. Em 2028, será a vez de Leucus, em abril, e Orus, em novembro.

Antes de seguir viagem, Lucy vai voltar para a Terra e dar mais uma volta em nossa órbita para pegar mais impulso para o resto da missão. Nesse tempo, os troianos devem mudar de posição no espaço. Quando a sonda voltar a Júpiter, acabará entrando na segunda nuvem de asteroides.

Em março de 2033, Lucy deve finalmente concluir a última etapa da missão: encontrar-se com os asteroides Patroclus e Menoetius, uma dupla de rochas presas num sistema gravitacional binário que faz com que eles voem sempre juntos.

lucy - Divulgação/Nasa - Divulgação/Nasa
O trajeto da sonda Lucy em sua missão de 12 anos rumo aos asteroides troianos na órbita de Júpiter
Imagem: Divulgação/Nasa

No entanto, a espaçonave foi projetada para continuar seguindo o seu itinerário repetidamente por 1 milhão de anos, enviando mais informações à Terra a cada "volta" pelos asteroides troianos.

Isso se Lucy continuar funcionando bem até lá. "Estou me sentindo muito bem com ela", disse Kevin Berry, engenheiro aeroespacial do Goddard Space Flight Center e líder da equipe de dinâmica de voo da missão Lucy, ao site Space.com. "Estamos em ótima forma e estou muito animado para enviá-la [ao espaço] e começar a navegar."

Do que Lucy é feita

Lucy tem mais de 14 metros de uma ponta à outra, incluindo os painéis solares que a dão energia e somam 7 metros de diâmetro cada um. Além deles, a sonda é equipada com quatro instrumentos de última geração que permitirão o estudo dos asteroides mais de perto.

Um desses instrumentos é o L'Orri (Lucy Long Range Reconnaissance Imager), uma câmera de alta resolução que fará imagens em preto e branco dos asteroides visitados.

Outro é o conjunto L'Ralph, formado por dois instrumentos —uma câmera colorida e um espectrômetro infravermelho— que vão analisar a "radiação" dos asteroides e ajudar a descobrir do que é feita a superfície dessas rochas.

O nome L'Ralph é uma brincadeira da equipe da missão Lucy: tem a ver com Ralph Kramden, personagem da série "The Honeymooners", que era casado com Alice —este, por sua vez, é o nome do espectrômetro da sonda New Horizons. Ou seja, os dois instrumentos formam um "casal".

Por último, temos o L'TES (Lucy Thermal Emission Spectrometer), um segundo espectrômetro infravermelho que vai tentar entender como os troianos são por dentro, analisando sua temperatura e capacidade de retenção de calor.

O legado de Lucy

Além de nos dar mais pistas sobre as origens do Sistema Solar —e, consequentemente, da Terra e toda a vida que existe no planeta—, a missão Lucy também espera deixar um "legado".

Assim como as sondas Pioneer e Voyager, que levam consigo placas e discos de ouro com mensagens para possíveis civilizações extraterrestres que elas possam encontrar fora do Sistema Solar, Lucy também levará consigo um "recadinho" da humanidade.

Trata-se de uma placa com mensagens criadas por autores premiados com o Nobel de Literatura, poetas norte-americanos e até membros dos Beatles —cuja música "Lucy In the Sky With Diamonds" também serviu de inspiração para o nome da missão.

lucy - Divulgação/Nasa - Divulgação/Nasa
Placa que a missão Lucy carregará para o espaço
Imagem: Divulgação/Nasa

Além disso, a placa tem uma representação do Sistema Solar como o conhecemos hoje e especificações da trajetória de Lucy. A ideia é que a mensagem sirva como uma "cápsula do tempo" para futuras gerações de terráqueos que encontrem a sonda voando por aí daqui algumas centenas ou milhares de anos.